A controversa Guarda Revolucionária do Irã | Notícias internacionais e análises | DW | 09.04.2019
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages
Publicidade

Mundo

A controversa Guarda Revolucionária do Irã

Críticos afirmam que corporação classificada pelos EUA de terrorista oprime dissidentes e viola direitos humanos, enquanto apoiadores do governo do Irã a consideram "guardiã" do sistema teocrático.

Soldados da Guarda Revolucionária do Irã durante parada militar, com flâmulas vermelhas em seus fuzis

Guarda Revolucionária do Irã durante parada militar

Numa decisão extraordinária, os EUA anunciaram nesta segunda-feira (08/04) que a Guarda Revolucionária do Irã passa a fazer parte de sua lista de grupos terroristas estrangeiros. Esta é a primeira vez que os EUA classificam uma agência de outro governo como "organização terrorista". Mas, considerando a hostilidade contínua entre os dois países, a notícia não era inesperada.

"Este passo sem precedentes, liderado pelo Departamento de Estado, reconhece que o Irã não é apenas um Estado patrocinador do terrorismo, mas que a IRGC [sigla em inglês da Guarda Revolucionária], participa ativamente, financia e promove o terrorismo como uma ferramenta de força estatal", disse um comunicado do presidente americano, Donald Trump.

Segundo o gabinete de Trump, a classificação "envia uma mensagem clara" ao governo do Irã de que suas ações têm consequências. Ela significa que os EUA vão impor sanções diretas contra a Guarda Revolucionária.

Em resposta, o governo do Irã declarou o Comando Central dos EUA e as forças militares americanas no oeste da Ásia organizações terroristas e classificou o país de um Estado financiador do terrorismo.

De acordo com o analista de assuntos militares Hossein Aryan, a retaliação não tem significado prático. "É apenas propaganda para consumo doméstico", diz Aryan, que serviu como oficial naval no Irã por 18 anos.

"No entanto, a Guarda Revolucionária pode usar seus 'representantes' para explorar as vulnerabilidades dos EUA no Iraque e na Síria. Ela tem laços estreitos com o poderoso grupo libanês Hisbolá e pode usá-lo para causar problemas às forças americanas no leste da Síria."

A Guarda Revolucionária é a força militar de elite do Irã responsável por proteger o regime de ameaças internas e externas. Com 150 mil homens, ela também controla a milícia Basij, que tem cerca de 90 mil membros ativos, e a força Quds, de operações especiais no exterior.

Ela foi estabelecida no final da Revolução Islâmica do Irã em 1979, como uma milícia armada de elite, cujo papel era proteger o então embrionário regime clerical xiita. Ela também formou um importante contrapeso para os militares convencionais do Irã, cujos integrantes eram vistos durante muito tempo como leais ao xá exilado.

A unidade operou inicialmente como uma força doméstica, mas expandiu-se rapidamente depois que o ditador iraquiano Saddam Hussein invadiu o Irã em 1980, quando o aiatolá Ruhollah Khomeini deu ao grupo suas próprias forças terrestre, naval e aérea.

"Instrumento armado dos abusos do regime"

"A guarda foi criada como uma ferramenta para promover a jihad em todo o mundo", afirma Paulo Casaca, fundador e diretor executivo do South Asia Democratic Forum, baseado em Bruxelas. Ele acredita que a classificação dos EUA seja justificada, pois a Guarda Revolucionária "está envolvida na promoção do terrorismo há muito tempo".

"É importante notar que a União Europeia já listou os líderes mais importantes da Guarda como 'entidades terroristas'", diz Casaca. "Portanto, não há contradição entre as medidas dos EUA e as tomadas pela UE há alguns meses."

"Mas há uma diferença no método", ressalva Casaca, que foi membro do Parlamento Europeu por Portugal de 1999 a 2009. "Enquanto a UE acredita ser melhor manter a classificação para apenas alguns indivíduos – este também é o caso com o Hisbolá do Líbano, que a UE listou apenas parcialmente como uma organização terrorista –, os EUA colocaram toda a organização em sua lista de terroristas."

A corporação supostamente oprimiu dissidentes dentro do Irã e esteve envolvida em tortura e violações maciças dos direitos humanos.

"A Guarda Revolucionária é o principal instrumento armado para os abusos do regime", frisa Casaca. "Tem grande influência econômica no país: faz parte da economia formal e informal do Irã e atua como um órgão de investimento público e de intervenção social."

Ele diz acreditar que a Guarda Revolucionária está envolvida em "espalhar a jihad no exterior".

"Ela direciona finanças e armas para as milícias no Iraque, Síria, Líbano, Iêmen, Afeganistão e Paquistão", ressalta Casaca. "Por meio de sua milícia interna, a Basij, ela [a IRGC] é a ferramenta do regime para a repressão interna. Na maioria das vezes, ela é acionada quando protestos populares se tornam mais fortes no país."

Apoio popular

Apoiadores do governo do Irã consideram a Guarda Revolucionária uma "protetora" e "guardiã" da revolução.

A força também esteve envolvida em serviços públicos e atividades de socorro, tais como ajudar as vítimas das atuais grandes inundações. O chefe da Guarda disse recentemente que as forças "estavam usando todo o seu poder" para responder aos danos causados ​​pelas inundações. Alguns iranianos acreditam que a corporação usou as enchentes para angariar  mais apoio no país.

Na terça-feira, legisladores iranianos vestiram uniformes paramilitares e gritaram "morte à América" ​​no Parlamento. O presidente Hassan Rouhani disse que a popularidade da força só aumentaria após a classificação dos EUA, acrescentando que a Guarda Revolucionária será mais apoiada pelos iranianos "do que em qualquer outro momento".

Esse sentimento ficou perceptível nas mídias sociais. "De acordo com o artigo 150 da Constituição iraniana, a Guarda Revolucionária é uma parte das Forças Armadas", escreveu o iraniano Reza Ramezannejad G no Twitter na segunda-feira, usando a hashtag #WeSupportIRGC. "Chamá-los de 'terroristas' é um insulto à constituição do país e do povo do Irã."

Alguns apoiam a decisão dos EUA. "Fui preso pelo IRGC e torturado por três meses", escreveu alguém chamado Madyar no Twitter na segunda-feira. "Ainda sofro com isso mesmo depois de 15 anos. Fiquei preso por quase dois anos. A Guarda Revolucionária é uma força militar 'rebelde' que viola os direitos humanos e é inimiga do Irã. Deixem que eu seja claro: não há razão para apoiar uma instituição que viola os direitos humanos, que é opressiva e que saqueia nossa economia", concluiu.

Reza Alijani, jornalista iraniano residente em Paris e membro do Conselho de Ativistas Religiosos Nacionalistas do Irã, disse à DW que acredita que a decisão tornará a reconciliação e a negociação entre os EUA e o Irã ainda mais difícil.

"As políticas dos governantes do Irã e do governo Trump colocaram os iranianos entre dois polos", sublinha Alijani. "A questão da Guarda Revolucionária deve ser resolvida pelo próprio povo iraniano. Agora, é difícil prever como os iranianos reagirão à decisão dos EUA."

______________

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube 

WhatsApp | App | Instagram | Newsletter

Leia mais