1968: o ano do cinema em transe | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 07.05.2008
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Cultura

1968: o ano do cinema em transe

Berlim resgata, em várias mostras, herança cinematográfica da antológica geração de 1968, prestando homenagem a grandes nomes da história do cinema, entre eles Jean-Luc Godard e Glauber Rocha.

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Estudantes em Berlim, em fevereiro de 1968

Uma verdadeira avalanche de eventos relembra, na capital alemã, o espírito de 1968. Duas grandes exposições – uma na antiga Casa da América (Amerikahaus), outra na Academia das Artes (Akademie der Künste) – além de outras mostras de menor porte tentam alinhavar uma crônica posterior (ou póstuma?) do movimento de 68 na cidade. O mercado editorial apresenta nada menos que 19 lançamentos sobre o tema e o número de documentários na TV parece incontável.

O cinema berlinense Arsenal apresenta, sob o lema "1968 // 2008", uma retrospectiva de quase cem filmes relacionados ao "mito 68": uma gama de obras que vão do experimental ao entretenimento, de clássicos a produções recentes, e que, de certa forma, podem ser associadas à geração 68.

O cerne da mostra é detectar a interseção, na história do cinema, entre ontem e hoje, ou seja, discutir a relevância das questões colocadas em 1968 para o discurso atual. "Não se trata de uma retrospectiva nostálgica, mas de uma discussão que leve à reflexão sobre o período", afirmam os curadores da mostra ao diário Der Tagesspiegel.

Acima de tudo, Godard

Frankreich Filmreggiseur Jean Luc Godard

Jean-Luc Godard, em Cannes na década de 1960

Um dos temas centrais é inevitavelmente a relação entre cultura e política. Um contexto no qual é lembrada incessantemente a premissa do cineasta francês Jean-Luc Godard: "não fazer filmes políticos, mas politizar os filmes". De Godard, a retrospectiva na capital alemã exibe Weekend à francesa (cuja referência irônica às cores da bandeira francesa – azul, branco e vermelho – viriam a marcar o cinema do país posteriormente) e A Chinesa.

Entre as preciosidades "arqueológicas" exibidas em Berlim estão também vários curtas de dois a três minutos, assinados pelo coletivo Ciné-Tracts, rodados entre maio e junho de 1968 e dirigidos por ninguém menos que o próprio Godard, Alain Resnais e Chris Marker. Há de se lembrar que Godard, naquele momento, fundou o grupo Dziga Vertov, junto ao qual rodou vários filmes, nos quais seu nome nem aparece nos créditos.

"Rituais burgueses"

E foi também em Cannes, em 1968, que Godard, François Truffaut, Claude Berri e Claude Lelouch declararam para a imprensa que não participariam dos "rituais burgueses do festival", enquanto estudantes e trabalhadores tivessem que continuar fazendo barricadas nas ruas de Paris, em defesa de seus direitos e ideais. Na noite de 18 de maio, era então cancelada a estréia no festival de Peppermint Frappé, do espanhol Carlos Saura.

Filmszene Terra em transe

Cena de 'Terra em Transe', de Glauber Rocha

Last but not least, a retrospectiva berlinense inclui Terra em Transe, de Glauber Rocha, descrito no programa do ciclo como "um manifesto poético-político sobre a problemática do engajamento político dos intelectuais. Rocha mostra a política, através de um estética delirante: uma mistura engenhosa de elementos documentais, surrealistas, operísticos, poéticos e mitológicos". Uma alegoria que, talvez hoje mais do que nunca, continua a representar o Brasil.

Contemporâneos, mesmo que passados

Em outro cinema da cidade, o Babylon-Mitte, uma série de 14 filmes de Godard, Chris Marker, Louis Malle e Claudia von Alemann lembra também o cinema em 1968, enquanto a Casa da América inlcui alguns filmes em sua exposição 68 – Brennpunkt Berlin (68 – Foc(g)o Berlim).

"O reencontro com os filmes daquele tempo é de um enorme frescor. Pode até ser que a agitação tenha sido a forma de comunicação naquele momento e a sólida convicção política a base para a percepção do mundo, mas, mesmo assim, os filmes provocam, hoje, reações por um viés completamente diferente. Eles se privam de terem sido tomados completamente pela política exatamente quando tocam, bem de perto, na realidade inquieta e desconfortável", descreve o diário berlinense taz.

Talvez por isso estes filmes de 40 anos atrás consigam manter tamanha atualidade. Mesmo que 2008 seja tão distinto de 1968.

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