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Luciano Hang, dono da Havan, presta depoimento à CPI da Pandemia
Luciano Hang, dono da Havan, prestou depoimento à CPI da Pandemia na condição de investigadoFoto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

À CPI, Hang admite que arrecadou dinheiro para "kit covid"

29 de setembro de 2021

Empresário bolsonarista diz que fez campanha para arrecadar e doar dinheiro para a compra de remédios ineficazes, mas nega ter financiado fake news. Ele também confirma que mãe tomou "kit covid" e que morreu da doença.

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O empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, prestou depoimento à CPI da Pandemia do Senado nesta quarta-feira (29/09), na condição de investigado.

Ele é suspeito de ter financiado a disseminação de notícias falsas sobre o chamado "tratamento precoce" contra a covid-19, que não tem eficácia, e integrado um "gabinete paralelo" de aconselhamento do presidente Jair Bolsonaro sobre o enfrentamento à pandemia.

Hang disse em seu depoimento que não é contrário às vacinas contra a covid-19 e que não havia financiado a propagação de informações falsas. "Nunca financiei fake news e não sou negacionista", afirmou.

“Disseminador de fake news”

O empresário também foi questionado pelo relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), se havia contribuído para a monetização de páginas na internet que propagam informações falsas.

Hang respondeu que sua empresa gasta cerca de 250 milhões de reais por ano em propaganda, e que parte da publicidade é distribuída por meio da plataforma de anúncios do Google. Segundo ele, a plataforma distribui as propagandas em sites da internet sem controle da Havan.

Uma das linhas de investigação da CPI é que Hang teria usado contas no exterior para financiar a disseminação de fake news. Ele confirmou aos senadores que possui contas e empresas registradas no exterior, "todas declaradas na Receita Federal".

O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), disse que o empresário seria "o maior disseminador de fake news do Brasil", e disse que suas atitudes causaram um grande número de mortes pelo país.

Morte da mãe

As circunstâncias da morte da mãe de Hang, Regina, em fevereiro, por covid-19, também foi abordada pelos senadores.

Na terça-feira, a advogada Bruna Morato, que representa 12 médicos da operadora de saúde Prevent Senior, disse em depoimento à CPI que a certidão de óbito de Regina teria sido alterada para omitir a covid-19 e que ela havia recebido os medicamentos do "tratamento precoce".

A Prevent Senior está no foco das investigações da CPI por ter feito testes com os medicamentos do "tratamento precoce" em pacientes e por supostamente ter omitido óbitos por covid-19 dos registros.

Em vídeo gravado após a morte da mãe, Hang disse que ela poderia ter sobrevivido se tivesse recebido o "tratamento precoce". Porém, apurações da CPI mostraram que o prontuário médico dela indicava que ela havia recebido os remédios do "kit covid".

Durante o depoimento, Renan acusou o empresário de ter mentido sobre a causa da morte da sua mãe para contribuir com a defesa do "tratamento precoce" que vinha sendo feita por Bolsonaro.

Em resposta, Hang disse que lamentava o fato de sua mãe não ter tomado os remédios do "kit covid", como cloroquina e ivermectina, antes de contrair o vírus, e não somente após ter sido contaminada.

O depoente disse ter ficado surpreso com a omissão da covid-19 no atestado de óbito, e apresentou um documento pra justificar que o hospital teria cometido um "erro".

Ele afirmou que ficou sabendo através da CPI sobre a ausência da causa da morte na certidão. Hang disse ter preocurado a Prevent Senior, que lhe forneceu um documento elaborado pela comissão de controle de infecção hospitalar.

"Pode ter sido um erro do plantonista, que colocou aquelas doenças. Mas quando foram fazer o documento que vai para a secretaria de estado foi colocado covid. Não vejo interesse do hospital de mentir sobre a morte da minha mãe", disse Hang.

Segundo eles, quem preencheu o atestado de óbito foi o plantonista. No dia seguinte, uma comissão de controle de infecção hospitalar viu o erro e aí informaram", afirmou. Ao ser questionado se ele tinha a certidão de óbito da mãe, ele disse que não.

O empresário também afirmou ter internado a sua mãe no hospital da Prevent Senior porque tinha recebido recomendações de que aquele seria o melhor local para tratar a doença.

Provocações

O depoimento de Hang teve diversos momentos de tensão e bate-boca entre os senadores. Parlamentares que apoiam o governo, como Flávio Bolsonaro (Patriotas-RJ), filho do presidente, e o senador Marcos Rogério (DEM-RO), acompanharam a chegada do empresário à CPI e questionaram intervenções feitas por Renan e Aziz.

Na segunda-feira, Hang havia divulgado um vídeo provocando os senadores da CPI. Nele, o empresário aparecia com algemas e dizia que entregaria as chaves aos senadores, para que pudessem prendê-lo caso não aceitassem as suas respostas.

"Se por acaso eles não aceitarem o que eu vou falar, para não gastar dinheiro com algema, já comprei uma algema. Vou entregar uma chave para cada senador. E que me prendam", disse.

Nesta quarta, ele divulgou um vídeo com ataques a Renan, no qual ele mencionava acusações passadas contra o senador e dizia que ele havia praticado negacionismo em relação a esses temas.

"Ele passou quase toda a sua vida pública negando as acusações de peculato, corrupção, recebimento de propinas, associação criminosa e lavagem de dinheiro. (...) Quando a mãe da sua filha, Mônica Veloso, veio a público fazer uma grave acusação de que recebia pagamento da empreiteira Mendes Júnior, o que ela chamava de propina paga ao ilustre senador Renan Calheiros, o que o senador fez? Adotou o negacionismo", afirmou Hang.

“Bobo da corte”

Na abertura da sessão, Renan disse que o empresário era "uma espécie de bobo da corte". "Ele vai ter de se adequar às regras da CPI. Esse tipo de personagem sempre existiu na história do Brasil, não é incomum que exista hoje novamente. É uma espécie de bobo da corte", afirmou o relator da comissão, sendo em seguida questionado por Flávio Bolsonaro sobre o tom adotado em relação ao depoente.

Um dos advogados de Hang chegou a ser expulso da CPI após o senador Rogério Carvalho (PT-SE) ter dito que ele o havia ofendido. Após um intervalo, porém, o advogado desculpou-se com Carvalho e foi autorizado a se manter ao lado de Hang.

Durante a sessão, o empresário ergueu placas com as expressões "não me deixam falar" e "liberdade de expressão", e reclamou diversas vezes que os senadores cortavam sua fala. As placas foram retiradas por ordem do presidente da CPI.

O senador Humberto Costa (PT-PE) lembrou várias ocasiões em que Hang provocou aglomerações, inclusive ao promover passeatas contra o lockdown em algumas cidades do país, inclusive uma motociata ao lado do presidente Jair Bolsonaro.

Ele disse que Hang responderá na Justiça por diversos crimes, os quais ele teria admitido durante o depoimento à CPI, ao agir como um "incentivador da quebra do isolamento social". O senador citou como exemplo o Artigo 132 do Código Penal, que pune quem infligir "perigo para vida ou saúde de outrem

bl,rc (ots)