Uganda elege hoje novo Presidente e novo parlamento
15 de janeiro de 2026
Mais de 21 milhões de pessoas são chamadas a votar nas eleições presidenciais no Uganda. O atual Presidente Yoweri Musevenié, para os analistas, o grande favorito à vitória e ao sétimo mandato.
Como grande rival surge o candidato Robert Kyagulanyi Ssentamu, mais conhecido pelo nome artístico Bobi Wine. Entre os sete candidatos que correm contra Museveni, Bobi Wine é visto como o mais capaz de bater de frente com o atual líder do Uganda, e traz consigo o suporte de muitos jovens que nunca ansieam uma nova era política.
O cenário é tenso. A internet foi cortada pelas autoridades ugandesas por tempo indeterminado. De acordo com a Comissão de Comunicações do Uganda, esta medida é necessária para atenuar a rápida propagação de desinformação e a fraude eleitoral.
Soldados e polícia invadiram as ruas da capital do Uganda, Kampala. O porta-voz da polícia, Kituuma Rusoke, apela aos ugandeses para respeitarem a lei. De lembrar que o filho e presumível herdeiro do Presidente do Uganda, o general Muhoozi Kainerugaba, é o comandante supremo das Forças Armadas.
O campo, aos olhos da oposição, está inclinado para o Presidente no poder há quatro décadas voltar a vencer. São as regras do jogo para estas eleições no Uganda, que ainda assim, não desmotivam Bobi Wine.
Bobi Wine desafia o poder
Quem é este músico que se tornou político e que para o poder atual é um desafio constante e que para muitos apoiantes é visto como a salvação da pátria?
Nascido Robert Kyagulanyi Ssentamu, em Kampala, a ascensão de Bobi Wine foi tudo menos convencional. Cresceu no meio da pobreza, perseguição policial e oportunidades limitadas, experiências que mais tarde moldaram tanto a sua música quanto a sua política. Muito antes de entrar no parlamento, Wine tornou-se um nome conhecido através de sucessos de dancehall e reggae que falavam diretamente sobre a vida nos guetos urbanos de Uganda.
Wine entrou formalmente na política em 2017, quando conquistou uma cadeira no parlamento, derrotando candidatos alinhados com o Movimento Nacional de Resistência, no poder. A sua vitória sinalizou uma mudança no cenário político do Uganda e confirmou a sua capacidade de transformar popularidade musical em poder político.
Essa mudança tornou-se evidente durante as eleições presidenciais de 2021. Concorrendo contra Museveni, Wine obteve 35% dos votos, enquanto o Presidente em exercício venceu com 58%, o seu pior desempenho em décadas. Wine alegou fraude eleitoral, prontamente negado pela comissão eleitoral.
Desde então, Wine afirma que a repressão contra o seu movimento se intensificou. O seu partido, a Plataforma de Unidade Nacional, alega que dezenas de apoiantes foram presos, sequestrados ou desapareceram. Comícios seus são frequentemente bloqueados e eventos de campanha são recebidos com gás lacrimogéneo, prisões e espancamentos.
"Presidente do gueto"
Apesar das dúvidas iniciais sobre se ele teria permissão para concorrer em 2026, Wine foi oficialmente nomeado candidato presidencial da NUP em setembro de 2025.
Os receios pela sua segurança têm sido alimentados por repetidas ameaças do filho do Presidente e chefe do exército, Muhoozi Kainerugaba. Numa publicação nas redes sociais, Kainerugaba sugeriu que poderia "cortar" a cabeça de Wine se lhe fosse permitido, comentários que suscitaram condenação internacional.
No entanto, a repressão não diminuiu a determinação do movimento. Wine frequentemente descreve-se como o "Presidente do gueto", enfatizando as suas raízes e a sua ligação aos ugandeses comuns que lutam contra o desemprego e o aumento do custo de vida.
A base de apoio de Wine é predominantemente jovem. Muitos veem as eleições de 2026 como um acerto de contas geracional, uma oportunidade de finalmente serem representados.
"Vamos eleger o nosso líder, que é Bobi Wine. Sabemos que Museveni vai manipular as eleições 100% , mas temos uma solução: vamos hastear a nossa bandeira e partir daqui de forma não violenta e marcharemos até à sede do governo, outros marcharão até ao parlamento, outros marcharão até todas as entidades governamentais", diz Katumba, apoiante de Bobi Wine.