Nigéria: mortes sobre o ouro | NOTÍCIAS | DW | 07.02.2012

Conheça a nova DW

Dê uma vista de olhos exclusiva à versão beta da nova página da DW. Com a sua opinião pode ajudar-nos a melhorar ainda mais a oferta da DW.

  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

NOTÍCIAS

Nigéria: mortes sobre o ouro

Milhares de crianças na Nigéria precisam de tratamento médico imediato por causa da maior epidemia de intoxicação por chumbo na História moderna. Isto deve-se ao uso de químicos no garimpo de ouro. A denúncia é da HRW.

Lavagem do ouro em Bagega, Zamfara

Lavagem do ouro em Bagega, Zamfara

Há minas de ouro artesanais espalhadas por todo o Estado de Zamfara, no noroeste da Nigéria. A ONG Human Rights Watch (HRW) esteve no terreno no ano passado e descobriu que as crianças que trabalham nas minas estão expostas ao pó de chumbo, não só aí, mas também nas próprias casas, quando os seus familiares voltam do trabalho cobertos de pó de chumbo e até quando o minério é esmagado em casa, tanto manual como mecanicamente.

As crianças também podem ser expostas ao chumbo se a água e os alimentos que consomem estiverem contaminados. O chumbo é altamente tóxico e pode interromper funções neurológicas, biológicas e cognitivas.

Os altos níveis de chumbo na terra e o uso de métodos de trabalho rudimentares resultaram numa epidemia de envenenamento provocado por chumbo entre as crianças, que são altamente suscetíveis.

Illegale Bergbau Aktivitäten in Bagega Zamfara Nigeria

Garimpo ilegal em Bagega, Zamfara

Um preço muito alto pelo ouro

E segundo profissionais da área da saúde, também já se registam altas taxas de infertilidade e abortos entre os adultos afetados. A situação no local é preocupante, alerta Babatunde Olugboji, da Human Rights Watch: “As pessoas não têm consciência do que se está a passar. Tudo o que sabem é que têm de esperar que os seus bairros sejam limpos."

E estão muito ansiosas. "Há crianças a rastejar pelo chão e os bairros onde vivem estão contaminados. Simplesmente não sabem o que fazer nem com quem falar. E não se trata de uma questão de misericórdia, porque estas pessoas têm direitos. É obrigação do governo deste país proteger os seus direitos", frisa Olugboji.

O envenenamento por chumbo raramente é fatal, mas a verdade é que em muitas aldeias de Zamfara, em 2010, a taxa de mortalidade terá ultrapassado os 40 por cento entre as crianças que apresentaram sintomas de envenenamento por chumbo. O ouro começou por trazer a esperança de prosperidade, mas resultou em mortes e em trabalho árduo para as crianças.

Um paradoxo questionado por Babatunde Olugboji : “Mas qual o preço a pagar por isso? A própria vida? O ouro traz esperança, mas ao mesmo tempo traz desespero, sobretudo por causa dos envenenamentos por chumbo.”

Bleivergiftung in Nigeria

Os velhos moinhos não podem ser mais utilizados devido ao envenenamento por chumbo

Recomendações da HRW

Se as casas das pessoas afetadas não forem limpas e se quem trabalha nas minas não começar a usar técnicas mais seguras de mineração, que minimizem a exposição ao chumbo, o tratamento não será eficaz e as crianças vão continuar expostas.


Babatunde Olugboji diz que as recomendações que a sua ONG faz ao Governo da Nigéria são simples e assentam em três pilares: Em primeiro lugar, todas as crianças têm de ser submetidas a exames e tratadas – sem exceções. Em segundo lugar, os bairros e as casas contaminadas têm de ser limpos. E, em terceiro, é preciso que as práticas do garimpo sejam mais seguras.

Para Olugboji, estas recomedações não podem ser implementadas de forma isolada: "Não se pode optar por uma ou por outra: todas estas ações têm de ser feitas ao mesmo tempo, para que possamos ver progressos e garantir que não morrem mais crianças.”

O governo do Estado de Zamfara, em parceria com organizações internacionais como a Médicos Sem Fronteiras, já tratou mais de 1.500 crianças, mas ainda há milhares a precisarem urgentemente de tratamento. E a aldeia mais contaminada, Bagega, também já começou a ser limpa. A HRW reconhece que as autoridades já deram alguns passos importantes, mas ainda há muito a fazer.

Autora: Madalena Sampaio
Edição: Nádia Issufo/António Rocha

Leia mais

Áudios e vídeos relacionados