Membros da polícia política de Angola também foram vítimas do 27 de maio | Angola | DW | 22.05.2012
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Angola

Membros da polícia política de Angola também foram vítimas do 27 de maio

Afirmação é de Isomar Pedro Gomes (na foto), ex-funcionário da polícia política DISA. Segundo ele, algoz "foi o sistema" e as pessoas que trabalhavam na DISA e se identificaram com dissidência do MPLA foram vítimas.

Isomar Pedro Gomes, ex-funcionário da DISA

Isomar Pedro Gomes, ex-funcionário da DISA

Numa altura em que a informação decidiu sobre a sorte de milhares de vidas angolanas, Isomar Pedro Gomes trabalhou na polícia política angolana conhecida como DISA (Direção de Informação e Segurança em Angola) em Benguela, no sul do país ocidental africano.

A DISA, segundo a historiadora portuguesa Dalila Mateus, foi uma das autoras materiais dos assassinatos de milhares de angolanos, que constituíram um verdadeiro massacre após o dia 27 de maio de 1977 – foi quando aconteceram na capital do país, Luanda, manifestações a favor de Nito Alves, um dissidente do MPLA (partido no poder em Angola) e então ministro do Interior.

A seguir ao 27 de maio, os chamados "fracionistas" – acusados pelo então presidente Agostinho Neto de planejarem um golpe de Estado – foram brutalmente reprimidos. Ou seja, o que muitos observadores chamaram de "purga" em Angola foi realizada dentro da própria família política do partido da situação, em busca de "traidores" do MPLA. O número de mortos varia entre 15 mil (contados pela DISA) e 80 mil (segundo a chamada Fundação 27 de Maio).

Mas, de acordo com Isomar Pedro Gomes, as pessoas que compunham a DISA e que se identificaram com o movimento de Nito Alves também foram vítimas da repressão. "O carrasco foi o sistema", afirma Gomes.

DW África: O que aconteceu no dia 27 de maio de 1977 em Benguela?

Isomar Pedro Gomes (IPG): O que nós presenciamos foi o reflexo daquilo do que estava a se passar, naquela altura, na cidade de Luanda. Fomos surpreendidos, todos nós, com uma notícia invulgar: a de que um grupo de camarada tentavam incitar um golpe de Estado.

DW África: Pode descrever o que se passou, exatamente, consigo, no 27 de maio? O que presenciou?

IPG: Posso dizer que a notícia apanhou-me de surpresa. Na altura, lembro-me que tinha passado a noite de guarda. À noite, ao chegar em casa e abrir (sic) o rádio, vinha essa notícia. A primeira reação foi de incredulidade, de espanto, grande parte dos camaradas que compunham a direção da DISA na província de Benguela foram presos mais tarde. E grande parte deles nunca mais voltou ao nosso convívio.

DW África: Como alguém que pertenceu ao extinto ministério da Segurança de Estado e que exerceu cargos de relevo, uma das questões que têm ensombrado a ação dos ex-membros da Segurança de Estado é o fato da DISA ter encetado o massacre de 27 de maio de 1977. O que tem a dizer a respeito?

IPG: Há quem até descreveu aquele período como um período em que o diabo esteve à solta. Quer culpados, quer inocentes – mais inocentes do que culpados – todos pagaram pela mesma moeda. A DISA também foi vítima – não como estrutura em si, não como órgão em si, mas quem formou a DISA e quem forma as instituições são as pessoas.

E, naquela altura, eu digo que a DISA também foi vítima – eu me refiro às pessoas que compunham a DISA naquela altura. Grande parte destas pessoas foram vítimas também. Quer dizer que são pessoas que se identificaram com o movimento pelo Nito Alves – quer em Luanda, quer em Benguela, quer em outras províncias. Eu particularizo Benguela porque é onde vivenciei esta situação.

Portanto, digo que quando se diz que a DISA foi o carrasco, eu tenho dito sempre que quem foi o carrasco foi o sistema. Bem sabendo que, em matéria de jurisprudência, essa resposta não "colhe" – mas é a minha opinião. Portanto, grande parte dos efetivos da DISA, naquela altura, foram também vitimados na reação da direção do MPLA em relação ao 27 de maio.

DW África: O que é preciso para se encontrar uma reconciliação nacional em Angola?

IPG: Ficamos sempre numa certa incredulidade: como é que a direção do MPLA, até hoje, não tomou uma posição? Não está correto que, [durante] todos esses anos, se mantenha em silêncio, como se nada se tivesse passado, na verdade.

Se o MPLA achar que não tem culpa, então que faça uma declaração e atire as culpas para o outro lado, para permitir que o outro lado também faça o mesmo. Enfim, de forma a se enterrar esta questão de uma vez para sempre, para que os nossos mortos, todos os que foram apanhados nesta situação, possam enfim descansar em paz.

Autor: Nelson Sul d'Angola (Benguela)
Edição: Renate Krieger/Johannes Beck

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27 maio 1977 - Isomar Pedro Gomes - DISA - MP3-Mono

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