EUA ou Irão: Quem vencerá a "prova de resistência" em Ormuz?
5 de junho de 2026
Disfuncional e perigoso. É assim que, cada vez mais, o impasse no Estreito de Ormuz é descrito. Já no quarto mês, a crise ao largo da costa do Irão é marcada por bloqueios mútuos.
Teerão tem cobrado aos navios até 2 milhões de dólares (1,73 milhões de euros) pela passagem segura pelo estreito, enquanto os Estados Unidos impõem um bloqueio naval, mandando de volta os navios que transportam exportações de petróleo iraniano.
Estes bloqueios concorrentes não conseguiram produzir resultados decisivos. Alguns navios iranianos continuam a passar e algumas empresas de navegação asiáticas concordaram em pagar portagens, apesar de tais taxas violarem o direito marítimo internacional.
Entretanto, as frágeis negociações entre os EUA e o Irão para reabrir o Estreito de Ormuz têm fracassado, aumentando o risco de uma escalada para um conflito regional mais alargado.
Qual dos lados cederá primeiro?
Dania Thafer, diretora executiva do think tank Gulf International Forum (GIF), com sede em Washington, acredita que as ameaças militares intermitentes do Presidente dos EUA, Donald Trump, destinadas a aumentar a sua influência sobre o Irão, podem ter saído pela culatra.
"A resposta iraniana sugere o contrário", afirmou Thafer à DW. "Eles interpretam isso como uma falta de vontade dos EUA de intensificar a guerra", acrescenta.
Trump enfrenta uma pressão crescente, tanto a nível interno como externo, para evitar novas ações militares, com aliados do Golfo, como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar, a apelarem à contenção.
A subida dos preços do petróleo e o aumento da inflação interna estão a agravar a tensão política antes das eleições intercalares dos EUA, em novembro.
Receitas petrolíferas do Irão a esgotar-se
Entretanto, oIrão está a perder cerca de 435 milhões de dólares por dia em comércio, dos quais quase dois terços provêm de exportações, principalmente de petróleo bruto, estimou em abril Miad Maleki, investigador sénior da Fundação para a Defesa das Democracias (FDD).
Com o bloqueio, as finanças públicas do Irão já sofreram uma perda estimada em 17 mil milhões de dólares. Segundo Maleki, isto vem somar-se aos cerca de 144 mil milhões de dólares em danos económicos causados pelos ataques dos EUA e de Israel nas primeiras semanas da guerra.
No entanto, apesar dos esforços de mediação liderados pelo Paquistão e de um memorando de uma página proposto com o objetivo de pôr fim às hostilidades e reabrir o Estreito de Ormuz, nenhum dos lados parece disposto a ceder primeiro.
Burcu Ozcelik, investigadora sénior do Royal United Services Institute (RUSI), com sede em Londres, considera que o Irão pode ter conseguido uma "influência desproporcionada" através dos ataques com mísseis contra navios e vizinhos do Golfo, mas está agora a ser "duramente atingido" pela perturbação das suas próprias exportações de petróleo. "A economia iraniana não é imune ao bloqueio", disse Ozecelik à DW.
Estados do Golfo apanhados no fogo cruzado
Os especialistas descrevem o impasse como um perigoso jogo de espera. Tanto os EUA como o Irão acreditam que têm o tempo a seu favor. No entanto, os Estados do Golfo são muito mais avessos ao risco e estão economicamente mais expostos.
A sua frustração com o impasse transformou-se numa pressão coordenada para um avanço diplomático. Os Estados do Golfo instaram Trump a arquivar os planos de novos ataques e a dar mais tempo às negociações.
Em privado, alertaram que um conflito comprometeria os planos de transição das suas economias. Os Estados do Golfo estão a gastar centenas de milhares de milhões de dólares em projetos industriais e turísticos ambiciosos.
Apoiam fortemente as conversações mediadas pelo Paquistão e uma iniciativa conjunta EUA-ONU para reabrir o Estreito de Ormuz sem portagens iranianas ou reivindicações de controlo.
Irão procura hegemonia da segurança regional
Como potência que se vê a remodelar a região do Médio Oriente, o Irão também está a usar a guerra para pressionar por ganhos a longo prazo. Thafer, do GIF, considera que as ambições do Irão vão muito além da vitória na guerra e visam "inverter a ordem regional a seu favor" a longo prazo.
"Querem que os Estados do Golfo expulsem os EUA e coloquem a região sob um quadro de segurança iraniano", disse à DW, acrescentando que esta abordagem não é do interesse dos Estados do Golfo, apesar das suas frustrações com Washington.
Embora se mantenha cautelosamente otimista quanto a um avanço nas negociações, Washington insiste na reabertura total do Estreito, no fim de todas as atividades de enriquecimento nuclear iranianas e na não suspensão das sanções sem concessões significativas. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, já advertiu que a ação militar continua a ser uma opção caso o Irão não ceda.
"O desafio é que não existe um alvo mágico que os EUA possam atingir e que se traduza imediatamente na rendição do regime", disse Ozcelik à DW. "Se as infraestruturas civis forem alvo de ataques, isso poderá levar Teerão a executar uma retaliação mais severa contra os Estados do Golfo", acredita.
Sofrimento agrava-se
Teerão diz que se manterá firme, apesar das crescentes dificuldades enfrentadas pelos iranianos comuns, que provavelmente não irão diminuir em breve.
"As várias propostas de Teerão para cobrar taxas pelo trânsito no Estreito de Ormuz são indicativas da constatação, por parte de algumas vozes pragmáticas em Teerão, de que a economia iraniana e o seu povo enfrentam um período prolongado de dificuldades, mesmo que se chegue a um acordo para o alívio das sanções", afirmou Ozcelik.
A inflação anual no Irão subiu para mais de 54% e os preços de alguns produtos alimentares mais do que duplicaram.
"Enquanto Trump vê isto [ganhar a guerra] como parte do seu legado presidencial, os iranianos encaram-no como uma questão de sobrevivência do regime e do futuro do seu país", sublinhou Thafer.