Cheias em Moçambique: ONG alerta para "fome aguda"
22 de janeiro de 2026
Moçambique está em alerta para o risco iminente de fome aguda no sul do país, na sequência das cheias que destruíram campos agrícolas e dizimaram milhares de cabeças de gado. A organização não-governamental Observatório do Meio Rural (OMR) avisa que, sem reforço da ajuda humanitária, os próximos meses poderão ser marcados por desemprego, precariedade e instabilidade social, numa altura em que centenas de milhares de pessoas já foram afetadas pelas inundações.
"É preciso atender as populações com alimentos e com abrigos. Porque grande parte das pessoas nem sequer tem lonas para se poder cobrir da chuva", afirma João Feijó em entrevista à DW. O investigador do OMR sugere estratégias para mitigar situações idênticas no futuro.
DW África: Quando o Observatório do Meio Rural fala em "fome aguda" já a partir do próximo mês, de que nível de gravidade estamos a falar - e quais são os sinais concretos que apontam para esse cenário no sul do país?
João Feijó (JF): Há vários aspetos aqui que concorrem para uma situação dramática. Em primeiro lugar, a própria crise que já se vem arrastando na última década, que se agravou durante o cenário pós-eleitoral. Depois, as ameaças da Mozal de fazer o shutdown, que vai provocar ainda mais desemprego direto e indireto. E toda a crise que existe em virtude da dificuldade de pagamento em dólares e, por esse motivo, em relação à importação de bens e serviços de fora, inclusivamente até combustível e produtos alimentares de primeira necessidade, como o trigo, por exemplo. Todas estas dificuldades da economia refletem-se depois no emprego.
Quando temos estas cheias que provocam graves consequências na população rural, isto vem agravar [a situação] nas machambas, [fazendo com que as pessoas fiquem sem alimentos.]
DW África: Comparando com as cheias do ano 2000, o que torna a situação atual potencialmente mais grave do ponto de vista social e económico?
JF: A situação é mais grave, em primeiro lugar, porque o nível destas cheias em alguns locais foi mais elevado do que nas cheias de 2000. Por outro lado, porque a população, entretanto, duplicou e a resposta internacional teve uma função paliativa, na altura.
DW África: Agora, com menor foco internacional na crise humanitária em Moçambique, que tipo de resposta urgente deveria ser priorizada pelo Governo e pelos parceiros para evitar o agravamento da fome e da instabilidade social?
JF: Num período imediato, é preciso atender as populações com alimentos e com abrigos. Porque grande parte das pessoas nem sequer tem lonas para se poder cobrir da chuva. E mesmo questões de cólera que é preciso agora começar a prevenir - questões de água e de saneamento.
DW África: Que alternativas precisam ser tomadas ao longo prazo para evitar situações de crise como essa?
JF: Moçambique não pode fazer isso sozinho. Tem de ser uma resposta global. Mas a nível nacional há mudanças que têm de ser realizadas: É preciso reabilitar as barragens, comportas e diques, e é preciso tentar melhorar a gestão de recursos hídricos. Futuramente, quando houver futuras cheias, é preciso melhorar a estratégia de combate e de prevenção.
DW África: Mencionou que as pessoas não têm seguros para as cheias. O que significa isso concretamente? Seguros que possam ser pagos com antecedência para, quando haja alguma situação de risco, elas possam ter algum auxílio financeiro?
JF: São poucas as agências seguradoras que apoiam nestas grandes catástrofes. Mas, pelo menos, pode haver linhas de crédito, mecanismos que compensem ou ajudem depois os privados a reerguerem as suas atividades económicas, com impactos imediatos na geração de emprego e circulação de dinheiro, contribuindo depois para para novas atividades económicas e para o restabelecimento da economia e dos mercados. Portanto, o Estado ou as agências internacionais têm de dar uma injeção de apoio.