Alemanha devolve Bíblia e chicote de herói da Namíbia | Internacional – Alemanha, Europa, África | DW | 01.03.2019
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Internacional

Alemanha devolve Bíblia e chicote de herói da Namíbia

A Alemanha devolveu à Namíbia dois objetos da época colonial com um grande significado para o país: uma Bíblia e um chicote, que pertenceram a Hendrick Witbooi, um importante líder do povo Nama.

Os objetos foram entregues oficialmente esta quinta-feira (28.02) pelo estado alemão de Baden-Württemberg ao Presidente namibiano Hage Geingob, numa cerimónia que contou com a presença de milhares de namibianos, incluindo o fundador do país, Sam Nujoma.

A devolução dos artefactos é um gesto que, segundo o Governo alemão, deve ser entendido como prova de que a Alemanha, "não podendo apagar o seu passado colonial, está a enfrentá-lo".

Roubados pelos alemães em 1893, estes objetos estavam em exposição no Museu Linden, em Estugarda, desde 1902.

"Esta devolução tem um grande significado simbólico, porque Hendrik Witbooi é uma figura importante na Namíbia. Queremos estabelecer um diálogo próximo com os nossos parceiros", afirmou Sandra Ferracuti, curadora deste museu.

Hendrik Witbooi

Herói do povo Nama, Hendrik Witbooi

Polémica

Há já vários anos que o Governo da Namíbia pedia à Alemanha a devolução destes dois objectos, que seguem agora para o arquivo nacional do país, até que seja construído um museu na cidade natal de Witbooi, Gibeon. No entanto, nem todos concordam.

A Associação de Líderes Tradicionais Nama entende que a Bíblia e o chicote pertencem aos herdeiros de Witbooi e não ao Governo da Namíbia.

"Estes objetos pertenciam a um indivíduo. Se eram parte do património da família, teriam de ser devolvidos à Igreja ou à família, e a família teria decidido o que fazer com eles. Mas as coisas foram decididas por pessoas que não têm relação direta ao assunto", diz o secretário-geral da associação, Lázaro Kairabeb.

Assistir ao vídeo 00:41

Alemanha devolve à Namíbia dois objetos simbólicos

No país, a desconfiança de associações como esta face ao Governo é grande. O Executivo é maioritariamente composto por membros da etnia Ovambo. Os povos Herero e Nama, que representam, atualmente, apenas 12% da população, acusam Windhoek de não representar o suficiente os grupos étnicos que foram perseguidos, afirmando mesmo que a "História tem estado a ser sufocada" no país. Nas escolas, por exemplo, pouco se fala sobre o genocídio, diz Lazarus Kairabeb.

Mas o Executivo refuta as acusações. "O Governo tem mantido a porta [do diálogo] aberta. Os namibianos que não fazem parte das negociações devem ser persuadidos a participar, porque o objetivo não passa por beneficiar apenas algumas pessoas", comenta Peter Katjavivi, porta-voz da Assembleia da Namíbia.

Ouvir o áudio 03:45

Alemanha devolve Bíblia e chicote de herói da Namíbia

Namíbia espera pedido de desculpas

Para além da entrega dos artefactos pertencentes a Hendrick Witbooi, Berlim doou à Namíbia 1,2 milhões de euros destinados a projetos de investigação e museus no país.

Estima-se que, entre 1904 e 1908, cerca de 100 mil pessoas das tribos Herero e Nama tenham sido assassinadas pelas forças coloniais alemãs, naquilo a que o Governo alemão reconheceu, em 2015, ter sido um genocídio, o primeiro do século XX. Apesar das negociações entre os dois países, a Namíbia continua à espera de um pedido de desculpas oficial por parte da Alemanha.

No ano passado, em Berlim, a Alemanha devolveu à Namíbia os restos mortais de membros das tribos Herero e Nama, mortos durante o genocídio. Recentemente, o ministro alemão do Desenvolvimento, Gerd Müller, disse estar otimista de que os dois países possam chegar a acordo sobre compensações pelo genocídio, até ao final do ano.

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