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Cultura

Sinistro trajeto pela Auguststrasse

A 4ª Bienal de Arte de Berlim ocupa, até 28 de maio, uma rua de Mitte como microcosmo da sociedade.

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Gillian Wearing: 'Drunk' (vídeo), 1999

Um painel para indicar o horário de trens em estações ferroviárias pende na parede de uma igreja. De quando em quando, os eixos rotatórios com letras e algarismos giram por alguns segundos, soando como uma revoada pela igreja vazia. Só que o painel é inteiramente preto, sem letras nem algarismos. Lá fora, na rua, uma pomba voa, ecoando o barulho do painel.

A rua é a Auguststrasse, repleta de galerias de arte e lojas de designers, em Berlim-Mitte. A igreja é a de São João Evangelista, um dos 12 locais de exposição da Bienal de Arte de Berlim, espalhados pela mesma rua. E o painel preto de metal é obra do artista belga Kris Martin, intitulada Mundi III (2003).

Berlin Biennale Cantor Freies Bildformat

Mircea Cantor: 'Deeparture' (filme), 2004

O sinistro da cena, em parte casual pela inesperada intervenção de uma pomba, faz parte da concepção desta 4ª edição da Bienal de Berlim, que destaca a "força enigmática da arte" e enfoca "a vida como seqüência de traumas individuais e coletivos".

A aparição da ave faria até jus ao moto da mostra, derivado de um romance de autoria de John Steinbeck, publicado em 1937: Of Mice and Men. Só que, ao contrário da intenção de crítica social do escritor norte-americano, as obras expostas problematizam o limite entre humano e animal, racional e corporal, consciente e inconsciente.

Membros decepados, vagões de trem

São muitas as obras que abordam a integridade do corpo, mostrando imagens super-realistas de um parto, mutilações, formas híbridas entre o humano e o animal, membros decepados.

Complexo de castração e fantasias com o corpo materno seriam os impulsos recalcados a retornarem nos momentos sinistros, acompanhando a argumentação freudiana sobre o conceito ( das Unheimliche).

Os traumas coletivos insinuados na mostra remetem, em grande parte, à localidade escolhida para esta Bienal, bem no centro do bairro judaico de Berlim. Grande parte das obras está exposta na antiga escola judaica feminina, fechada pelos nazistas em 1942 e reutilizada depois da Segunda Guerra na Alemanha Oriental, mantendo-se em atividade até 1996.

As associações com o Holocausto – intencionais por parte do artista ou geradas pela curadoria de Maurizio Cattelan, Massimiliano Gioni e Ali Subotnick – podem ser despertadas por um vagão de trem reconstruído, uma câmara de vento frio e quente ao qual o visitante é exposto de súbito, ou o som Klezmer ouvido na desolação dos estábulos do antigo Departamento de Correios. O sinistro como "algo assustador que remete a coisas conhecidas e familiares", neste caso a memória coletiva.

Espaços desfamiliarizados

Em vez de se restringir a espaços definidos desde o início como âmbito artificial para se apreciar ou consumir obras de arte, a Bienal ocorre em espaços de usos variados: igreja, escola, moradias particulares, estábulo, galeria de arte, salão de baile, contêiner, cemitério. A idéia era tornar a Auguststrasse um "microcosmo de toda uma sociedade e um cenário ficcional de um romance".

Entrar num apartamento desconhecido, desertado para abrigar objetos de exposição muitas vezes desconfortáveis, significa não dissociar a apreciação de arte de rituais cotidianos, como tocar a campainha, procurar o apartamento, subir as escadas – com isso, a curadoria cria o contexto necessário para a revelação do sinistro, unheimlich, derivado de Heim (casa).

4. Berlin Biennale Paul McCarthy Installation

Paul McCarthy, 'Bang-Bang Room' (instalação), 1992

O espaço de moradia também é foco de diversos trabalhos. A irritação de luzes intermitentes acendendo e apagando em corredores vazios. Cômodos desfigurados por paredes dissociadas do piso. Maquetes de uma arquitetura regional típica simbolizando idílios inexistentes. Imagens de um apartamento em chamas e os moradores desempenhando calmamente suas tarefas cotidianas.

Vitória da figuração

O próprio cenário de Berlim-Mitte – onde ainda se conservam artificialmente os restos da pitoresca desolação anterior à restauração do bairro nos anos 90, contrastantes com o brilho polido do comércio de luxo e as galerias de arte adjacentes – já seria um ready-made da mostra, manifestação espontânea do sinistro.

4. Berlin Biennale Reynold mit Jolley Feuer

Reynold Reynolds e Patrick Jolley: 'Burn' (filme), 2001

Entre as obras selecionadas para esta Bienal, é de se notar um grande afastamento dos princípios de criação da arte conceitual. Com exceção de alguns poucos veteranos incluídos na mostra, como Bruce Nauman e Bruce Conner, Michael Schmidt e Thomas Bayrle, as obras expostas – em grande maioria de artistas jovens, nascidos de meados da década de 60 à de 70 – optam por um forte apelo ao figurativo, simbólico e patético.

Além das instalações e outros trabalhos encomendados para a Bienal, são raras as obras que apelam conscientemente ao entorno ou refletem o contexto de apreciação da arte. Esta tarefa foi assumida pela própria curadoria.

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