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Cultura

Minha Berlinale: as virtudes que o cinema tem para ensinar

Cinema não é só diversão: ele pode fazer de nós seres humanos melhores. Sobretudo no contexto de uma verdadeira maratona física e intelectual, como o Festival Internacional de Berlim. Um balanço pessoal.

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A hora do Urso

Em seu ensaio em forma de filme The pervert's guide to the cinema (Guia do pervertido para o cinema), o filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Žižek explica que o cinema não nos dá o que desejamos, ele nos ensina como desejar. Por isso, seria a quintessência da arte perversa.

Embora, em princípio, concordando com Žižek, também tenho certeza que a sétima arte tem outras lições para dar, no mínimo tão edificantes quanto essa. Especialmente logo após haver sobrevivido à minha primeira Berlinale: uma superdose de impressões, imagens, histórias, sons, ideias, visões de mundo, além de uma maratona no sentido físico do termo. E a oportunidade de aprimorar uma série de virtudes pessoais. Eis algumas delas:

As quatro dimensões do tempo

Deutschland Film Berlinale Filmfestspiele 2010 Due vite per caso

Espera, raiva e ações: 'Talvez duas vidas'

Ao comentar seu Due vite per caso (Talvez duas vidas), o diretor Alessandro Aronadio afirmou que, na Itália de hoje, uma quarta e frustrante dimensão do tempo se uniu à clássica trindade – passado, presente e futuro: a dimensão da espera. É justamente a sensação de estar condenado – como toda sua geração – a esperar por algo que talvez nunca venha, que desencadeia no protagonista Matteo a raiva que o levará a decisões irrevogáveis.

Mesmo para quem esteja munido de uma miraculosa credencial de imprensa, paciência é uma virtude essencial num evento como o Festival Internacional de Cinema de Berlim. Espera-se nas filas para pegar entradas, espera-se ao chegar ao cinema, caso se queira obter um bom lugar. E quem não conseguiu pegar a tempo seu tíquete de imprensa também pode se preparar para uma longa e incerta espera. Pois agora você depende da boa vontade de quem controla a porta, para deixá-lo entrar no último minuto, caso a sala não fique lotada.

Hora e lugar certos

Filmstill aus A woman, a Gun and a Noodle Shop Berlinale 2010

Cena de 'Uma mulher, um revólver...'. Zhao é o 2º a partir da esquerda

O garçom Zhao é uma figura secundária, porém central para a trama do chinês San qiang pai an jing qi (Uma mulher, um revólver e uma casa de macarrão), de Zhang Yimou. Balofo e desastrado, seu problema é não se decidir na hora certa. O patrão não lhe paga o salário devido, há um cofre, e Zhao sabe a combinação. Ele hesita, desiste, discute com sua companheira. Até que resolve agir – em má hora e pior companhia.

Confiar na própria intuição é essencial ao atravessar um festival que oferece quase 400 filmes em 11 dias. Por mais que se esteja bem informado, um press-release brilhante não garante um bom filme, as possibilidades são incontáveis, os caminhos entre algumas das salas são longos e muitos horários se superpõem, forçosamente.

Então: vou para a estreia daquele filmão mainstream do diretor de que tanto gosto ou arrisco esse obscuro documentário low budget, de tema interessantíssimo? Vou dormir mais cedo para pegar o primeiro filme de amanhã ou arrisco ainda essa última sessão? É preciso decidir rápido e ter senso de oportunidade, pois não sobra muito espaço para tentativa e erro.

Questão de equilíbrio

Tanzträume (Sonhos de dança) traz os últimos registros cinematográficos e a última entrevista com a coreógrafa alemã Pina Bausch. Os diretores Anne Linsel e Rainer Hoffmann acompanharam em 2008 os ensaios para uma remontagem especial da peça de teatro-música Kontakthof, 30 anos após sua estreia. As dificuldades para os não-dançarinos entre 14 e 18 anos, da cidade de Wuppertal, pareciam quase intransponíveis: ao longo de um punhado de ensaios, passar de seres desajeitados, que mal sabiam caminhar, a monstros do movimento – expressivos, graciosos, ferozes, fascinantes. Uma trajetória tão emocionante quanto dolorosa.

A 60ª Berlinale transcorreu durante o mais duro inverno alemão das últimas décadas. À noite, as temperaturas chegavam facilmente a uma dezena de graus negativos, e locomover-se entre uma locação e outra se tornava uma verdadeira aventura. Na melhor das hipóteses, os caminhos para pedestres estavam liberados, e o obstáculo era só a neve fofa, onde a gente se atolava até o tornozelo.

Temerário mesmo é quando a temperatura oscila rapidamente, a neve derrete, para logo em seguida tornar-se gelo sólido e escorregadio, e a municipalidade ainda não teve tempo de tomar providências. Aí, todo equilíbrio é pouco, e espectadores apressados resvalando, caindo ou voando alguns metros era uma visão comum.

Berlinale 2010 Tanzträume Flash-Galerie

'Tanzträume' registra últimas imagens de Pina Bausch

Negação como estado de graça

How much does your building weigh, Mr. Foster? (Quanto pesa o seu edifício, Mr. Foster?), de Norberto Lopez e Carlos Carcas, é um documentário ambicioso. Não só apresenta, em imagens estonteantes, as obras de Norman Foster por todo o mundo e traça uma biografia detalhada do celebrado arquiteto inglês, como se propõe revelar o homem por trás do gênio. E não há como deixar de admirar sua força e tenacidade, por exemplo, ao enfrentar o câncer e a doença cardíaca. Desenganado mais de uma vez, Foster ignorou os prognósticos dos médicos e chegou a completar uma maratona no gelo pouco após um infarto. Seu comentário: "um estado de negação ( denial) é às vezes um estado de graça".

Reichstagskuppel

A moderna cúpula do Reichstag em Berlim é projeto de Norman Foster

Resistência: em certas situações é preciso ignorar a adversidade e tentar o impossível. Quem disse que não vou conseguir chegar ao outro lado da cidade em dez minutos? E que não aguento mais essas três horas de cinema hoje? O que importa se há mais de cem pessoas na minha frente, o frio é cortante e a bilheteria fecha em uma hora?

Sem falar que algumas das mais inesquecíveis experiências cinematográficas podem vir na contramão da opinião dos outros e mesmo da crítica especializada. Em caso de dúvida, sempre seguir a própria intuição (ver acima).

Lixo e luxo

Lixo extraordinário ( Waste Land), de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley, conquistou o Prêmio do Público do festival de Berlim. O filme registra o misto de projeto artístico e ação social do artista Vik Muniz. Primeiro, ele fotografa, em poses de quadros célebres, catadores do maior aterro de lixo do mundo, no Rio de Janeiro. Com o auxílio de alguns deles, faz traçar com os dejetos o contorno das imagens, em proporções gigantescas, e volta a fotografar o resultado. As fotos de grande porte são leiloadas, a milhares de libras e dólares, e a renda reverte para os próprios catadores de materiais recicláveis.

Berlinale 2010 Waste Land

Lixo e esperanças em 'Waste Land'

Mas como eles vão lidar com toda essa notoriedade súbita, esse vislumbre de outra vida, o salto do lixo total para o luxo? Um documentário tocante e otimista, mas que também deixa sentimentos ambivalentes.

Estar num festival assim inspira humildade – diante do talento dos inúmeros realizadores e participantes; da coragem daqueles que abordam temas explosivos em condições semi-suicidas; diante daqueles para os quais estas mesmas condições são insuportável dia-a-dia.

Mas a experiência também evoca outras formas de humildade, como a de quase poder tocar o mundo do glamour, mas saber que se está a quilômetros de distância dele. Às vezes, a tentação é grande de se juntar às massas que se acotovelam diante dos tapetes vermelhos e das saídas dos hotéis, aguardando a aparição do próximo VIP, esperando aspirar o ar de outros planetas. Quem sabe se ajoelhar diante de um ídolo pessoal ou outro?

Mas também pode acontecer de você esbarrar numa Julianne Moore ou num Leonardo di Caprio e nem notar. Pois, assim como a beleza e a riqueza, fama é uma coisa relativa. E esta é mais uma lição da "minha" Berlinale.

Autor: Augusto Valente
Revisão: Alexandre Schossler

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