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Alemanha

Freud no tubo de ensaio

Publicação francesa tenta matar o pai da psicanálise. Nos países de língua alemã, Freud ainda é intocável. Até que ponto a psicanálise é científica? Esta questão ocupa opositores e defensores da prática psicanalítica.

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O famoso divã de Freud: apenas peça de museu?

Sigmund Freud não passava de um charlatão interessado em dinheiro, suas pretensas descobertas eram mero engodo. Os psicanalistas conseguiram conquistar posições de destaque nas universidades, na mídia e no cenário cultural.

Se no início a psicanálise teve que lutar contra a ortodoxia da psiquiatria para se consolidar, hoje são os próprios psicanalistas que assumem o papel de guardiões de um dogma ultrapassado.

Em se tratando, por exemplo, de autismo, homossexualismo e dependência de drogas, a psicanálise só causou danos com suas posições alienadas, para não falar de sua culpa pelo destino de "milhares de pessoas".

Freud na lista negra

Cover des Buches Livre Noir de la Psychanalyse

Le Livre Noir de la Psychanalyse(Paris, 2005)

Com acusações deste teor, um livro tenta matar o pai da psicanálise na França. O recém-lançado Livre Noir de la Psychanalyse (Paris: Ed. Les Arènes 2005), que vendeu 23 mil exemplares em pouquíssimo tempo, reúne em mais de 800 páginas artigos de 33 autores europeus e norte-americanos críticos à psicanálise.

Por trás da diversidade das armas, ocultam-se combatentes de uma única ala: os defensores das terapias cognitivas e behavioristas.

As críticas ao livro negro não são menos contundentes do que as disparadas contra Freud. A coletânea foi descreditada pela imprensa francesa e por psicanalistas por causa do tom agressivo, por erros factuais e por falta de argumentos convincentes e de aspectos novos.

De fato, muitos dos artigos incluídos neste compêndio já haviam sido publicados anteriormente ou apenas resumem estudos realizados nos Estados Unidos.

Cura medida à régua

Nas duas frentes da chamada "guerre des psys", quem combate são os adeptos de Freud e Lacan, por um lado, e os representantes das terapias importadas dos EUA. O livro negro representa o maior debate ocorrido na França sobre a questão desde 2003, quando o parlamentar Bernard Accoyer propôs que o uso ainda livre do título de psicoterapeuta fosse regulamentado.

Os psicanalistas reagiram com indignação à tentativa de o Estado submeter o ofício deles ao parecer de terceiros, alegando que o grau de eficiência da psicanálise não se deixa quantificar.

Com este argumento, eles conseguiram – por exemplo – obrigar o Institut National de la Santé e de la Recherche Médicale a retirar de seu site, em fevereiro deste ano, um polêmico estudo sobre as vantagens das terapias behavioristas e cognitivas em relação à psicanálise.

Jacques Marie Lacan

Jacques Marie Lacan (1901-1981)

"Não se pode colocar a questão da eficiência da psicanálise da mesma maneira como se avalia um remédio num protocolo científico", declarou o psicanalista Fréderic Bieth ao jornal Libération, em protesto contra as acusações contidas no livro negro.

Na França, dada a forte herança de Jacques Lacan e de seu diálogo com a filosofia, a psicanálise tenta se defender do empirismo, rejeitando argumentos de cientificidade no debate.

Autocrítica de ortodoxia

Dois congressos sobre psicanálise realizados no ano passado nos Estados Unidos – Working at the Frontiers, organizado pela Associação Internacional de Psicanálise (IPA), em Nova Orleans, e Psychoanalyse at the Edge, por uma outra agremiação estadunidense de psicanalistas e psicoterapeutas, em Miami – demonstraram, no entanto, que a busca de maior cientificidade já começou a fazer parte da autocrítica dos herdeiros de Freud.

Os interessados em renovar a prática psicanalítica acusam a ortodoxia vigente, lamentando que a leitura de Freud como bíblia substitua o intercâmbio intelectual.

Longe de desenvolver critérios científicos, segundo os quais seja possível provar a validade de uma determinada teoria, a adequação de um novo conceito ou a eficiência de uma intervenção terapêutica, a discussão é levada em lealdade a determinados grupos, como se fosse uma guerra religiosa. Estas foram as principais autocríticas vindas do outro lado do Atlântico.

Leia a seguir como os países de língua alemã reagem às críticas contra Freud >>>

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