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'Land of Plenty': o que foi feito da América utópica?Foto: 2003 Reverse Angle International / IFC All Rights Reserved

Wenders: América revisitada por um europeu

sm
11 de outubro de 2004

Wim Wenders fala à imprensa alemã sobre a relação com seu país de nascença, a Alemanha, e seu país de escolha, os EUA, tema de seu último filme, "Land of Plenty".

https://www.dw.com/pt-br/wenders-am%C3%A9rica-revisitada-por-um-europeu/a-1356111
Wim Wenders
Wim WendersFoto: AP

Em seu mais recente filme, Land of Plenty, o cineasta alemão Wim Wenders (59) retrata os Estados Unidos de forma mais crua do que em filmes anteriores. Os EUA pós-11 de setembro, sob o governo Bush, já não representam mais a tela de projeção para o American dream de um europeu, como em Paris, Texas, por exemplo. Desta vez, Wenders mostra o outro lado da moeda, destacando não só a pobreza entre a população, mas também a crise da identidade norte-americana.

América após caubói George W.

Land of Plenty representa uma reação de Wenders ao desaparecimento da sua América utópica, conforme o cineasta declarou em entrevista ao jornal Die Zeit: "Eu teria insistido o maior tempo possível na utopia política por trás deste mito, na idéia americana de democracia e liberdade que eu sempre vi neste país e gostaria de continuar vendo".

"Eu acharia fácil demais afirmar que tudo está indo por água abaixo e o país mais poderoso é governado apenas por algumas corporations, cujas rédeas ainda estão de certa forma nas mãos de Dick Cheney, enquanto o caubói chamado George W. se encarrega de meter a espora. O que eu queria com Land of Plenty era repudiar de alguma forma esta traição. Inclusive pessoalmente, pela traição a tudo o que restou do mito da minha infância."

Pode ser o fim de uma longa amizade

Filmszene Land of Plenty von Wim Wenders
'Land of Plenty', Michelle Williams no papel de LanaFoto: 2003 Reverse Angle International / IFC All Rights Reserved

Residente na Califórnia desde 1996, Wenders considera Land of Plenty, protagonizado por uma americana retornada do Oriente Médio e pelo tio veterano do Vietnã, o último filme em que ele ainda expressa alguma confiança nos Estados Unidos: "Estou me preparando para a despedida. Afinal, se este país realmente se tornar o que ameaça no momento, não tenho mais nada a perder".

"Após Land of Plenty, rodei um outro filme nos EUA – Don't Come Knockin' –, escrito junto com Sam Shepard. Uma história que se passa em Montana, Nevada e Utah, ou seja, paisagens que ainda mantêm uma certa 'inocência' e resistem a qualquer inversão. É a tentativa de uma história de família americana mais apolítica possível, mas com uma postura política na narrativa, como exige Godard. Talvez este já seja o filme de despedida. Mas Land of Plenty ainda não. Trata-se de um filme que ainda insiste em lutar, na esperança de que não precise haver esta despedida."

A despedida incipiente dos EUA se manifesta até no retorno consciente a técnicas mais artesanais do cinema de autor europeu, o reverso de Hollywood: "Em certas cenas, nos aproximamos do estilo dos vídeos amadores, rodando quase sem cortes e com todo o caos em volta. Certas cenas ficaram parecendo um documentário, justamente o que eu queria. Não queria que a morte tivesse um efeito heróico. No cinema, a violência infelizmente parece atraente demais", declarou Wenders em entrevista ao diário Berliner Zeitung.

Alemanha redescoberta

O mito América marcou a trajetória do cineasta nascido em Düsseldorf no último ano da guerra. O papel dos Estados Unidos como país libertador do nazismo gerou entre a primeira geração do pós-guerra alemão um mito específico da América, segundo explica Wenders: "Nasci num monte de ruínas, num mundo de adultos onde ninguém era culpado e não existia nenhuma forma do passado, só do presente e futuro. Quando criança, sentia que alguma coisa estava errada e num dado momento me pareceu útil ter um outro mundo. Para mim, ainda criança, este mundo era a América. Crescemos com a nostalgia e a prontidão de incorporar uma outra coisa".

Wim Wenders Film Land of Plenty
'Land of Plenty', dirigido por Wim Wenders

Não só a escalada do conservadorismo militarista nos EUA leva Wenders a criar uma distância em relação ao seu país de escolha. De certa forma, conforme confessa, o cineasta redescobriu o seu vínculo com a Alemanha: "Só com a idade, as coisas mudaram. Inconscientemente eu sempre quis me tornar um americano e fazer filmes americanos. Mas houve uma hora em que ficou claro que eu tinha que permanecer um alemão no coração e que isso era o que eu queria no final das contas. Mas isso durou quase 50 anos. Tive que percorrer um caminho tortuoso para aceitar em paz a alma alemã".