Vitória da China contra o coronavírus é posta em dúvida | Notícias internacionais e análises | DW | 28.03.2020
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Coronavírus

Vitória da China contra o coronavírus é posta em dúvida

Crescimento econômico chinês é prioridade absoluta após fim da pandemia. Liderança em Pequim quer espalhar confiança, mas especialistas temem que perigos existentes possam estar sendo ignorados.

Funcionários sentam longe durante a pausa em fábrica da Honda em Wuhan

Na fábrica da Honda em Wuhan, funcionários respeitam distância mínima durante a pausa

Em 4 de abril, a China celebra o tradicional Festival Qingming, em memória dos mortos. Os familiares varrem as sepulturas de seus entes queridos, trazem flores e queimam simbolicamente dinheiro de papel, para que os ancestrais permaneçam "capitalizados", mesmo na vida após a morte.

Em 2020, porém, o festival – assim como outras festividades chinesas – está sendo ofuscado pela pandemia de coronavírus, pois em parte ainda vigoram quarentenas e proibições de reunião.

Por outro lado, a situação na China está mais relaxada. O número de novas infecções pelo Sars-Cov-2 continua a diminuir. Na província central de Hubei, onde os primeiros casos de covid-19 foram confirmados no fim de dezembro, o isolamento está sendo gradualmente suspenso.

Políticos de alto escalão aparecem publicamente sem máscara em todo o país: às vezes em conversa com investidores, às vezes em reunião partidária ou em sessão fotográfica numa lanchonete. A mensagem é: a normalidade voltou, já está mais do que na hora de retomar o crescimento.

A questão crucial é se isso realmente acontecerá. Na última semana de março, o maior banco de investimentos do país, o China International Capital Corporation, cortou em mais da metade sua previsão de crescimento para 2020, de 6,1% para 2,6%. No entanto especialistas e autoridades chinesas concordam que um crescimento de 6% é o patamar mínimo para a paz social e a segurança de emprego.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores em Pequim, o presidente chinês, Xi Jinping, pediu maior cooperação econômica em conversa telefônica com a chanceler federal alemã, Angela Merkel. As cadeias de suprimentos devem ser rapidamente revitalizadas, e um "novo potencial de cooperação" entre os dois países, em outros setores, deve ser identificado.

No modelo de crescimento chinês, ainda orientado pela economia planejada, todas as províncias sempre tentam atender às exigências das lideranças partidárias. A normalidade nos negócios deve ser restabelecida o mais rápido possível, e as restrições no cotidiano, encerradas.

Medo de novas infecções

Mas a desconfiança em relação ao governo é grande. Um usuário da rede social WeChat adverte: "A suspensão do isolamento não é necessariamente uma coisa boa para os cidadãos comuns. O governo não quer comprometer o crescimento e agora precisa finalmente mostrar sucesso."

O raciocínio por trás é: muitos infectados apresentam sintomas leves ou nenhum, e não sabem que portam o coronavírus. Depois que a quarentena nacional for suspensa, o vírus ainda altamente contagioso se espalharia novamente.

Homem trabalhando em fábrica de automóveis em Wuhan

Indústria automotiva em Wuhan voltou a produzir

Essa apreensão é apoiada por um estudo recente publicado pela revista Nature. Através de um modelo de cálculo, uma equipe liderada por Wu Tangchun, especialista em saúde da Universidade de Ciência e Tecnologia Huazhong em Wuhan, concluiu que até 60% das infecções na cidade não haviam sido descobertas no final de fevereiro.

À revista China News Weekly, Wu declarou: "Nenhum de nossos modelos de cálculo foi perfeito. Era matemática, não um estudo de campo." No entanto, os valores de base foram muito cautelosos, advertiu o especialista, portanto um novo surto é bastante possível.

Até agora, a metrópole de Wuhan, ponto de partida da epidemia, registrou mais de 2.500 mortes pelo coronavírus. Apenas uma nova infecção foi relatada na terceira semana de março.

Na quarta-feira, 63 dias após o início da quarentena, todas as 171 linhas de ônibus voltaram à operação normal. E neste sábado (28/03), seis das sete linhas de metrô voltaram a funcionar. Passageiros de trem também já podem viajar novamente para Wuhan, especialmente os muitos trabalhadores migrantes que, após visitarem suas famílias em outras partes do país, não conseguiram retornar ao trabalho.

Para poder usar o transporte público, todo passageiro precisa de um "passe" digital pessoal na forma de um código QR. Esse Código Nacional de Proteção contra Infecção e de Saúde contém os números do documento de identidade e do celular, e dados sobre o estado de saúde do portador. Antes de cada viagem de ônibus e trem, o código é digitalizado e o perfil de movimentação do passageiro é registrado.

Ceticismo sobre números oficiais

Apesar das medidas de precaução, alguns moradores continuam céticos. "Mesmo a geração aposentada leal ao partido não acredita nessa bobagem", escreve um blogueiro de Wuhan. "Acima de tudo, a China quer mostrar esse zero [de novas infecções] ao Ocidente. Não há nada mais do que uma manchete por trás disso."

Fang Zhouzi, blogueiro e bioquímico crítico do regime, que vive nos Estados Unidos, fez duras críticas no Twitter aos números oficiais chineses: "As estatísticas das autoridades locais mentem em prol do crescimento, não se pode acreditar nelas."

Ele acrescentou que, só quando o Congresso Nacional do Povo (CNP) e a Conferência Consultiva Política do Povo Chinês se reunirem novamente, haverá um sinal de um fim real da epidemia, porque "a vida do povo não é tão valiosa quanto a dos representantes do povo". As reuniões do CNP e da Conferência Consultiva, marcadas para março, como de costume, foram adiadas até segunda ordem, devido à pandemia.

Por outro lado, Zhong Nanshan, principal combatente contra o coronavírus na China, desfruta de alta credibilidade entre o povo chinês. O epidemiologista, que já combatera com sucesso a doença infecciosa Sars em 2003, hoje lidera a luta contra o Sars-Cov-2.

Em videoconferência com virologistas europeus na quarta-feira (25/03), ele alertou contra uma segunda onda de contágio: "As atuais medidas de isolamento e quarentena devem ser mantidas, é necessário cuidado especial para quem retorna de áreas de alto risco."

Atualmente a China também está desaconselhando viagens à Alemanha. Pequim anunciou na quinta-feira que proibiria a entrada de cidadãos estrangeiros, mesmo com visto ou autorização de residência válidos.

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