Tom Tykwer: narrador ambicioso | Especiais e séries de reportagens da Deutsche Welle Brasil | DW | 18.10.2005
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages
Publicidade

Especial

Tom Tykwer: narrador ambicioso

Acaso, destino ou forças inexplicáveis? Milésimos de segundo podem mudar tudo. Tom Tykwer, o diretor alemão jovem mais conhecido fora do país, experimenta com o tempo, rompendo fronteiras da linguagem cinematográfica.

Tykwer: mestre de ritmos

Tykwer: mestre de ritmos

Já faz cem anos que a sétima arte dava seus primeiros passos, com Georges Miliès enviando seus trenzinhos de papelão para a Lua. Exércitos de anjos dourados iriam, daí a pouco, tomar conta das telas, pois nenhuma outra narrativa era mais amada pelo público que a bíblica. E que lugar poderia despertar maior curiosidade do espectador de então do que o próprio paraíso? Graças ao cinema temos uma idéia exata de como seria o "além". Uma idéia que também chegou às telas em fevereiro de 2002, com a estréia de Paraíso, o longa de Tom Tykwer.

Ares metafísicos

Szene aus dem Film Heaven

Cena de 'Paraíso'

O mito no qual Paraíso se baseia tem uma relação irônica com o conteúdo do filme. O roteiro veio, por assim dizer, "do além", pois foi encontrado no acervo deixado por um dos mais importantes diretores da história do cinema: o polonês Krysztof Kieslowski.

Uma viagem que termina no céu deve ter, para Tykwer, seu início num lugar profano: Turim, o símbolo da Itália moderna, mas que mantém algo de metafísico. É aí que, apesar de tudo, se cultua uma mortalha de Cristo, se pensa nos futuristas e no realismo elegante de Visconti em Rocco e seus Irmãos.

As imagens aéreas de Tykwer que conduzem ao local da narrativa são geométricas e pálidas. Philippa, uma jovem professora de inglês (Cate Blanchett), coloca uma bomba no lixo de um edifício comercial. Ela é cuidadosa o suficiente para fazer com que a secretária saia da sala na hora, mas as razões divinas – ou do acaso – são inexplicáveis.

Virtuosismo na montagem

Tom Tykwer und Cate Blanchett auf der Berlinale

Tom Tykwer e Cate Blanchett (atriz de 'Paraíso', durante Festival de Cinema de Berlim

Numa seqüência montada com virtuosismo, o diretor de Lola, Corre, Lola – o filme alemão com maior repercussão internacional nos últimos anos – percorre o caminho da bomba dentro de um carrinho de limpeza até um elevador, onde um pai e seus dois filhos se transformam nas futuras vítimas da faxineira.

Ao ser interrogada, ela, que havia sido detida há pouco, desmaia ao saber do erro fatal que cometeu. O atentado havia sido ordenado por um chefão da máfia – um homem que, com a cobertura dos carabinieri, leva uma vida dupla. Agora, porém, é ela quem se sente responsável pela morte de inocentes. Aparentemente indiferente, mas tocado pelo problema, um policial-intérprete traduz os depoimentos da mulher do inglês para o italiano.

Porém, a verdadeira odisséia desse Filippo tranqüilo, aparentemente solitário, está apenas começando: primeiro ele salva a mulher da prisão, levando-a para o sótão da sede da polícia. Em seguida, convence-a de que está apaixonado e, mesmo assim, deixa que ela leve sua missão homicida até o fim.

Temporalidade sonâmbulo-dançante

Der Krieger und die Kaiserin von Tom Tykwer

'A Princesa e o Guerreiro', de Tom Tykwer

Quem quiser contar uma parábola não deve ter medo da simplicidade. Pode-se chamar esta simplicidade de ingênua em sua forma, mas não em sua execução. O que o filme anterior de Tykwer, A Princesa e o Guerreiro, já anunciava como problema formal é levado aqui adiante com extremo virtuosismo: a compreensão do cinema como temporalidade sonâmbulo-dançante .

Os relógios das nossas vidas estão acertados há muito tempo? Em todos os seus filmes até agora – Maria Mortal, Inverno Quente, A Princesa e o Guerreiro e Paraíso – Tom Tykwer parece fascinado pelo poder de qualquer milésimo de segundo obstinado, capaz de mudar tudo: não importa que se chame a isso de acaso, destino ou providência divina.

Ao lado disso, está simplesmente uma esperança que liga Tykwer aos grandes narradores cinematográficos românticos. A superabilidade de todos esses poderes fatídicos através do amor. Neste momento, aparecem elementos de interseção entre este mundo e o além: a queda livre pelo ar e o mergulho na água marcam o limiar da transcendência.

Clique ao lado para continuar lendo.

Franka Potente in 'Lola rennt'

Franka Potente em 'Corra, Lola, Corra'

Referências ao mundo das fábulas

Em A Princesa e o Guerreiro, uma enfermeira (interpretada por Franka Potente, a estrela de Corra, Lola, Corra e com quem Tykwer viveu por muitos anos) salva a vida de um ladrão ocasional. Juntos, eles pulam do telhado de uma clínica caindo num atoleiro, que abre para os dois as portas para uma nova vida. Um espírito bom e invisível protege Joãozinho e Maria, desencadeando desta forma as referências às fábulas alemãs.

Mesmo levando em conta que Tykwer, neste longa, utiliza até ferramentas estilísticas dos filmes de terror, não se deve considerar A Princesa e o Guerreiro uma obra melancólica. E o realismo amoroso dos figurantes não chega a fazer da Clínica Psiquiátrica Birkenhof um Reino sobrenatural, como o da série de Lars von Trier.

Tecno e lounge

Roman Das Parfum wird verfilmt

Tykwer entre o produtor Bernd Eichinger (esq.) e o ator Dustin Hoffman: preparando as filmagens de 'O Perfume'

O sucesso de público Lola, Corra, Lola foi freqüentemente comparado ao ritmo da música tecno. Se este não fosse o título de outro filme anterior, é provável que o longa de Tykwer, segundo o próprio, tivesse se chamado Speed. Mais tarde o bate-estaca dos clubes entrou em decadência, para dar lugar a um house suave e ao lounge.

Ou seja, A Princesa e o Guerreiro ditou, neste sentido, as tendências do futuro. Outra vez: se o título não tivesse existido antes, é provável que o filme viesse a se chamar Speed 2. A forma inovadora de lidar com o tempo é sua principal característica. Antes dele, foram raríssimas as vezes em que se pôde presenciar um filme comercial arriscando tanto e experimentando de forma tão tadical com a lentidão.

Iconografia privada da província

Tom Tykwer começou sua carreira como operador cinematográfico na cidade de Wuppertal. Uma função que o permitia testemunhar que o grande milagre do cinema é seu poder sobre o tempo. Como nenhuma outra arte, o cinema é capaz de fazer com que o tempo passe rápido e fugaz ou de forma lenta e preciosa.

Tom Tykwer não perdeu a admiração por isso. Como Wim Wenders – que, em 1974, rodou Alice nas Cidades exatamente em Wuppertal, o cenário de A Princesa e o Guerreiro – Tykwer volta o olhar para a iconografia privada da província. A solução talvez mais radical encontrada em seus filmes é provavelmente um dos momentos mais emocionantes de A Princesa e o Guerreiro. Durante um assalto a banco, a dupla de heróis se reencontra.

Os dois movidos, obviamente, pelo poder do acaso. Indo contra todas as convenções dramatúrgicas, o diretor faz essa cena se sobressair através de tomadas longas e estáticas. Além de fazer uso de uma trilha sonora que serve de contraponto, criando uma tensão real. Para isso, Tykwer inclui uma peça solo minimalista para piano do compositor estônio Lepo Sumera.

"O amor, como sempre"

"Quem somos? De onde viemos?", pergunta um contador de histórias no início de Corra, Lola, Corra. Algumas questões são demasiado amplas para um único filme. Tykwer, em seus trabalhos anteriores, já vinha tratando das utopias e da realidade do amor. Depois dos curtas Because e Epilog, ele rodou Maria Fatal, em 1993. Uma mulher solitária foge da realidade através de uma amizade mantida através de cartas e tem nos rituais do dia-a-dia o consolo para sua situação.

No cenário complexo dos personagens de Inverno Quente, pode-se detectar um bom número de modelos de experiências emocionais e de formas de lidar com o mundo. Todas "sob o mesmo teto". Os filmes de Tykwer se interessam pelas grandes dificuldades que se pode ter com isso. E contam, sem condescendência, como objetos podem servir de construções emocionais auxiliares. Nos filmes do diretor, é possível que seja a fotografia que ajude os personagens a gerenciar suas lembranças, desejos e fracassos.

Depois de sua estréia no cinema,Tom Tykwer, então com 28 anos, foi questionado a respeito dos assuntos que pretendia abordar daí em diante. "O amor, como sempre", foi sua resposta lacônica. "E sobre como ele funciona mal." O céu, no cinema, sempre se manteve distante da Terra por uma escada espetacular. Tom Tykwer, o narrador ambicioso do cinema alemão, parece que encontrou outro caminho para chegar lá.

Páginas 1 | 2 | Texto completo

Leia mais