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Foto mostra Bolsonaro falando ao microfone e gesticulando com as mãos. Ao fundo, uma bandeira do Brasil.
Bolsonaro deve visitar a cidade no Norte italiano em 1º de novembroFoto: Mateus Bonomi/AA/picture alliance
PolíticaItália

Sob polêmica, cidade italiana aprova homenagem a Bolsonaro

25 de outubro de 2021

Câmara de vereadores de Anguillara Veneta decidiu conceder título de cidadão honorário ao presidente brasileiro, mesmo diante de protestos de parte da sociedade. Cidade é a terra natal de um dos bisavôs de Bolsonaro.

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Sob muita polêmica e resistência de parte da sociedade, a câmara de vereadores de uma pequena cidade no norte da Itália decidiu nesta segunda-feira (25/10) conceder o título de cidadão honorário ao presidente Jair Bolsonaro.

Foram nove votos a favor, três contra e uma abstenção. Durante a votação, houve protestos contra a homenagem do lado de fora da câmara. Uma petição online com mais de 2.600 assinaturas reivindicava que a honraria não seja concedida.

Políticos locais, ativistas e até grupos religiosos foram contra a homenagem, num momento em que o líder brasileiro é acusado de crimes contra a humanidade e outros delitos pela CPI da Pandemia no Senado.

A ideia de conceder o título a Bolsonaro partiu da prefeita de Anguillara Veneta, Alessandra Buoso, do partido ultradireitista Liga, o mesmo de Matteo Salvini.

O pequeno município de apenas 4 mil habitantes fica localizado na região do Vêneto. A 80 quilômetros de Veneza, a cidade é terra natal de um bisavô de Bolsonaro.

O mandatário viajará à Itália para participar da Cúpula do G20 em Roma, em 30 e 31 de outubro, acompanhado dos ministros da Economia, Paulo Guedes, e das Relações Exteriores, Carlos França, devendo estar em Anguillara Veneta em 1º de novembro. Além de receber o titulo de cidadão honorário, ele pretende visitar o cartório local, onde estão os registros de seus antepassados.  

Prefeita diz que homenagem não é política

Buoso defendeu que a homenagem não tem motivação política. "Pensei nas pessoas da minha cidade que emigraram para o Brasil e construíram uma vida até chegar à Presidência, levando o nome de Anguillara Veneta para o mundo", disse a prefeita em entrevista à agência de notícias italiana Ansa, poucos dias atrás.

Questionada sobre os crimes imputados a Bolsonaro pela CPI da Pandemia, a política italiana afirmou não estar ciente das acusações. O relatório final da comissão no Senado brasileiro foi apresentado na última quarta-feira, mesmo dia em que Buoso assinou a proposta.

A opinião da política é endossada por Luciano Sandonà, do Conselho Regional do Vêneto. "O título de cidadão honorário é um gesto para enfatizar as origens vênetas de um presidente e muitos descendentes de emigrantes, não para expressar julgamentos sobre seu trabalho", disse, segundo o portal de notícias italiano Telenuovo.

Reação da classe política local

A homenagem provocou indignação em parte da classe política local. A parlamentar Vanessa Camani, integrante da assembleia legislativa regional do Vêneto, lançou uma campanha nas redes sociais contra o título de cidadão a Bolsonaro: "Não à cidadania a um racista, misógino e negacionista", protestou a integrante da direção nacional do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda.

"Faz arrepiar a proposta da prefeita de Anguillara Veneta de conferir a cidadania honorária a Bolsonaro, conhecido pelos elogios à ditadura militar, pelo desprezo e ofensas a mulheres e homossexuais, pelas ameaças de prisão aos adversários políticos, ou pelas grotescas acusações contra ONGs pelos incêndios que devastaram a Amazônia", escreveu a deputada no Facebook.

Na postagem, Camani também condena a "obscena gestão de emergência da covid-19, que colocou Bolsonaro entre os protagonistas do negacionismo mundial". "Por favor, nos explique, prefeita de Anguillara, por qual desses motivos Bolsonaro merece ser cidadão honorário?", ironizou.

O secretário regional do Partido Democrático, Alessandro Bisato, também se pronunciou sobre a proposta da prefeitura: "Tal como aquele soldado japonês na ilha do Pacífico, sem saber do fim das hostilidades, a administração do município na área de Pádua não entende o declínio do populismo", declarou o político, citado pelo jornal Il Fatto Quotidiano.

"Pior, pressiona pelo reconhecimento público de um político alérgico à democracia e aos direitos civis, um negacionista da covid-19 e antivacina. Graças à política de Bolsonaro, os brasileiros hoje estão mais pobres, menos seguros e nas garras da covid."

Religiosos e ativistas também condenam

A nomeação também foi alvo de críticas de grupos religiosos e ativistas antibolsonaristas na Itália. Em carta à prefeita de Anguillara Veneta, padres missionários italianos baseados no Brasil manifestaram seu repúdio.

"Como cidadãos italianos que trabalham no Brasil há anos a serviço do povo brasileiro e da Igreja Católica brasileira (somos missionários, religiosos e 'Fidei Donum'), nos sentimos profundamente entristecidos e desconcertados. Nós nos perguntamos sobre quais méritos? Como um homem que durante anos, e continuamente, desonra seu país pode receber honra na Itália?", diz o texto, citado pelo portal de notícias UOL.

"Jair Bolsonaro é um presidente que está massacrando a vida do povo, especialmente dos mais pobres; ele criou uma política anti-covid (e ainda continua a fazê-lo) que produziu milhares de mortes, promove a destruição e vende as terras da Amazônia. Como pode um presidente que colabora com a destruição da Floresta Amazônica receber honras numa nação que luta pela preservação do planeta?", continua a carta.

Os padres seguem pedindo, então, que a cidade italiana não conceda o título. "Estamos profundamente ofendidos e exigimos a revogação desta honra. Não a Bolsonaro e sua política violenta e genocida!"

le/ek/av (ots)