Sob Bolsonaro, emissões sobem puxadas pelo desmatamento | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 06.11.2020

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Meio ambiente

Sob Bolsonaro, emissões sobem puxadas pelo desmatamento

Em 2019, emissões de gases do efeito estufa subiram 9,6%, principalmente devido ao desmatamento na Amazônia. Segundo relatório, Brasil se afasta de meta do Acordo de Paris. País é o quinto maior poluidor do mundo.

Área desmatada na Amazônia

Desmatamento e queimadas contribuíram para alta nas emissões

As emissões de gases do efeito estufa voltaram a crescer no Brasil. No ano passado, o país despejou 2,17 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2e) na atmosfera. Em 2018, esse número havia sido de 1,98 bilhão, o que representa um aumento de 9,6%.

A informação foi divulgada nesta sexta-feira (06/11) pelo Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), em sua oitava edição, que reúne cientistas de cinco organizações brasileiras responsáveis pelas análises técnicas e fazem parte do Observatório do Clima.

O maior responsável pela alta em 2019 foi o desmatamento, principalmente na Amazônia. Ele é considerado dentro da categoria "mudanças de uso da terra", que respondeu por 44% do total das emissões. Agropecuária (28%), energia (19%), processos industriais (5%) e resíduos (4%) são as atividades que aparecem na sequência.

As queimadas, que também atingiram índices alarmantes no ano passado, também estão incluídas no setor de "mudanças de uso da terra". Já os incêndios florestais, ou seja, o fogo que atinge mata nativa, não entram no inventário, esclareceu Ane Alencar, uma das pesquisadoras responsáveis.

Ainda assim, o SEEG apresentou essa fonte de emissão de forma separada: foram de 517 milhões de toneladas de CO2e, um aumento de 87% em relação a 2018.

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A tendência de alta das emissões, observada desde 2010, deve continuar. "A expectativa é que em 2020 o aumento, por causa do desmatamento, continue", afirma Tasso Azevedo, coordenador do SEEG, durante a apresentação do relatório.

Segundo o sistema de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os alertas de desmatamento subiram 34% em 2020 em relação a 2019. A expectativa é que os dados do Prodes, que computam dados anuais de corte da floresta, saiam em dezembro.

"Os números ruins são retrato da situação ambiental que o Brasil está enfrentando. Nesse governo, em especial, os números ruins são uma prova do crime, da tragédia que está acontecendo, do aumento do desmatamento, que só traz atraso para o país", opina Márcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Entre os retrocessos citados por Astrini observados durante o governo de Jair Bolsonaro estão a extinção da Secretaria de Mudança do Clima e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, engavetamento dos planos de prevenção e controle do desmatamento, desmonte do sistema de aplicação de multas por crimes ambientais e incentivo da mineração em terras indígenas. 

Metas nacionais e agronegócio

O primeiro compromisso brasileiro relacionado à redução das emissões foi assinado em 2010, com a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC). Segundo essa lei nacional, o país se comprometeu a cortar em 80% o desmatamento. Também se comprometeu a reduzir, até 2020, de 36,8% a 38,9% suas emissões, com base em uma projeção de crescimento da economia que se esperava para os anos seguintes após a aprovação da política, que ocorreu em
2009.

Segundo especialistas, o cenário projetado à época foi inflado, já que se estimativa que o PIB brasileiro cresceria 5% ao ano - o que não se concretizou. Na prática, segundo a PNMC, o país teria que chegar até o fim desse ano com 2,06 bilhões de toneladas de CO2.

Mesmo com esse objetivo "fácil", o país não vai atingir sua própria meta. "Pelo cenário, o Brasil não vai conseguir cumprir a PNMC. É a primeira vez que podemos fazer uma afirmação dessa", conclui Azevedo, do SEEG.

Além do desmatamento, a agropecuária tem uma grande parcela de culpa, mostrou o relatório do SEEG. Ela é a segunda atividade que mais emite gases do efeito estufa no país e teve uma alta de 7% desde 2010 devido ao aumento do rebanho bovino.

"Somando-se as emissões da agropecuária com a parcela das emissões dos demais setores relacionados ao setor agro, o SEEG conclui que a atividade rural – seja direta ou indiretamente – respondeu por 72% das emissões do Brasil no ano passado", mostra o documento.

"A gente tem uma atividade econômica que contribui com 20% do PIB brasileiro, mas que representa quase 73% das nossas emissões", pontua Azevedo.

Ainda assim, o setor tem grande potencial para derrubar esse número. Para isso, seria preciso eliminar o desmatamento e adotar práticas de recuperação de pastagens. "Assim, essa participação do agronegócio nas emissões nacionais pode rapidamente cair", sugere.

Desmatamento por todos os lados

O SEEG também mapeou as emissões por estados brasileiros. Segundo o ranking, o Pará foi o campeão em 2019, com 18,4% do total.  Mato Grosso (10,6%), São Paulo (6,9%), Amazonas (6,8%) e Minas Gerais (6,7%) vêm em seguida.

Azevedo lamentou o fato de o Amazonas aparecer nessa posição pela primeira vez. "Há uma frente de desmatamento muito grande no estado, que cresceu e colocou o Amazonas no top 5", comentou.

Quando se excluiu o desmatamento, São Paulo lidera as emissões nacionais puxadas pelo setor de energia; seguido de Minas Gerais, devido à agropecuária, que é também a atividade de maior peso das emissões de Mato Grosso.

Thelma Krug, pesquisadora que participou da força-tarefa dos inventários do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), classificou o desmatamento como "injustificável" e lamentou a situação observada no Amazonas.

Promessas não cumpridas

Outro compromisso assumido pelo país faz parte do Acordo de Paris. Segundo a promessa brasileira diante do esforço internacional de limitar o aquecimento do planeta a no máximo 2 ºC até 2100, o país reduziria em 37% suas emissões líquidas até 2025 em comparação às taxas de 2005, o que totalizaria uma emissão máxima de 1,3 bilhão de toneladas líquidas de CO2 equivalente (GtCO2e).

"No ritmo que estamos, o país se afasta da meta de 2025", afirma Azevedo.

Além da meta para 2025, o país indicou outra meta para 2030, que seria de 43% de redução. Pelas regras da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), na qual o Acordo de Paris foi negociado, o Brasil teria a obrigação de apresentar uma nova meta ainda neste ano que cobrisse o período até 2030. Até agora, não há informação de que o governo tenha feito isso.

"Existem muitas oportunidades de se reduzir emissões e estar numa trilha muito alinhada com desenvolvimento sustentável e redução da pobreza. Basta sair da atitude de tentar justificar o que não se justifica", comenta Krug. "É preciso sair do passado e ver que estamos entrando numa nova era. O Brasil perdeu a liderança. Mas nunca é tarde demais."

No mundo, o Brasil é quinto maior emissor de gases do efeito estufa, com 3,2% do total, atrás de China, Estados Unidos, Índia e Rússia. Quando se considera o bloco formado pela União Europeia, o país vai para o sexto lugar.

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