Senador flagrado com dinheiro ″entre as nádegas″ deixa vice-liderança do governo | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 15.10.2020

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Brasil

Senador flagrado com dinheiro "entre as nádegas" deixa vice-liderança do governo

Diário Oficial oficializa saída de Chico Rodrigues. Governo tenta se distanciar de aliado de primeira hora de Bolsonaro no Senado. STF determina afastamento de senador por 90 dias.

Chico Rodrigues

Político veterano de Roraima, Chico Rodrigues se aproximou de Bolsonaro logo no início do governo e chegou a empregar um agregado da família do presidente

O presidente Jair Bolsonaro exonerou nesta quinta-feira (15/10) o senador Chico Rodrigues (DEM-RR) da vice-liderança do governo no Senado. A saída ocorre menos de 24 horas depois de o parlamentar ser alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga fraudes na aplicação de recursos para combater a pandemia de covid-19.

O escândalo foi agravado por detalhes bizarros do caso, que envolveram agentes flagrando o senador com dinheiro escondido "entre as nádegas". No total, mais de R$ 30 mil foram apreendidos.

A saída de Rodrigues foi oficializada em edição extra do Diário Oficial da União nesta tarde, apontando que a dispensa ocorreu a pedido do senador.

"Nos termos do art. 66-A do Regimento Interno dessa Casa do Congresso Nacional, em atenção ao pedido do Senhor Senador Francisco de Assis Rodrigues, solicito providências para a sua dispensa da função de Vice-Líder do Governo no Senado Federal", aponta o despacho.

De acordo com vários jornais brasileiros, Bolsonaro se envolveu pessoalmente para convencer Rodrigues a solicitar a saída. 

Pouco depois da dispensa de Rodrigues do cargo de vice-líder, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o afastamento por 90 dias do senador.

O ministro enviou o caso para deliberação do Senado, a quem cabe decidir pela manutenção ou não do afastamento do parlamentar. Na decisão, Barroso apontou que o afastamento é necessário para evitar que Rodrigues use o cargo para dificultar as investigações.

"A gravidade concreta dos delitos investigados também indica a necessidade de garantia da ordem pública: o senador estaria se valendo de sua função parlamentar para desviar dinheiro destinado ao enfrentamento da maior pandemia dos últimos 100 anos, num momento de severa escassez de recursos públicos e em que o país já conta com mais de 150 mil mortos em decorrência da doença", aponta o ministro.

Barroso também relevou detalhes sobre a apreensão do dinheiro, afirmando que o senador havia escondido maços que somaram mais de R$ 30 mil "na cueca" e "próximo às suas nádegas".

"Ao fazer a busca pessoal no senador Chico Rodrigues, num primeiro momento, foi encontrado no interior de sua cueca, próximo às suas nádegas, maços de dinheiro que totalizaram a quantia de R$ 15.000,00", diz a decisão. (...) O senador foi indagado se havia consigo mais alguma quantia de valores em espécie. Ao ser indagado pela terceira vez, com bastante raiva, o senador Chico Rodrigues enfiou a mão em sua cueca, e sacou outros maços de dinheiro, que totalizaram a quantia de R$ 17.900,00", escreveu Barroso.

Político veterano de Roraima que já passou por quase uma dezena de partidos, Rodrigues já cumpriu mandatos como deputado e governador. Eleito para o Senado em 2018, ele logo se transformou num dos mais fiéis aliados do presidente Bolsonaro, assumindo a vice-liderança do governo no Senado em março de 2019, muito antes da aproximação entre o Centrão e o Planalto. Ele também chegou a empregar no seu gabinete um agregado da família do presidente, Léo Índio, uma figura próxima do vereador Carlos Bolsonaro. 

Rodrigues também havia sido escalado, com articulação do Planalto, como um possível relator no Senado da indicação de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para o cargo de embaixador em Washington. Em um vídeo antigo que circula nas redes sociais, Bolsonaro aparece elogiando o senador e afirmando que tem "quase uma união estável" com Rodrigues.

Mas após o escândalo, o Planalto tentou se desvincular do parlamentar. Falando a apoiadores nesta quinta-feira, Bolsonaro tentou usar o caso como uma suposta prova de que seu governo combate a corrupção. 

"Parte da imprensa [está] me acusando de o cara [Rodrigues] ser meu amigo, [que] eu [o] coloquei como vice-líder, [que] em consequência eu não combato a corrupção. Essa operação da PF de ontem foi em conjunto com a CGU [Controladoria-Geral da União], cujo ministro é o capitão Wagner Rosário. Essa operação foi desencadeada conjuntamente [entre] CGU e PF: ou seja, nós estamos combatendo a corrupção, não interessa quem seja a pessoa suspeita", disse Bolsonaro.

O vice-presidente Hamilton Mourão também tentou distanciar Rodrigues do governo, afirmando que o agora ex-vice-líder não fazia parte do governo. "Todos aqueles que estão dentro do Parlamento e que trabalham em favor do governo, ocupando cargos de vice-liderança e até mesmo fazendo parte da base, são uma linha auxiliar. Ele não é um membro do Executivo", disse o vice-presidente.

Deflagrada pela PF e pela CGU, a operação que acabou chegando a Rodrigues foi batizada como Desvid-19. O foco das investigações envolve suspeitas de desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares destinadas ao combate à pandemia.

Ao todo, foram cumpridos sete mandados de busca e apreensão em Boa Vista, expedidos pelo ministro Roberto Barroso. Um dos alvos foi o senador Rodrigues, que estava em sua casa na capital de Roraima quando os agentes bateram à porta.

A operação em si já seria motivo suficiente de constrangimento para o governo, mas o escândalo acabou sendo amplificado após a revista Crusoé apontar que agentes da PF flagraram o senador escondendo dinheiro vivo "entre as nádegas". 

O caso rapidamente se juntou a uma coleção de antigos escândalos brasileiros que envolveram a ocultação de dinheiro por meios pouco ortodoxos, como bíblias, cueca, lixeiras, meias, entre outros. Nas redes sociais, usuários fizeram piadas com o episódio.

Em nota, Rodrigues disse que irá provar que não tem envolvimento com qualquer ato ilícito e reclamou de ter o "lar invadido".

"(...) Tive meu lar invadido por apenas ter feito meu trabalho como parlamentar, trazendo recursos para o combate à covid-19 na saúde do estado. Tenho um passado limpo e uma vida decente. Nunca me envolvi em escândalos de nenhum porte. Se houve processos contra minha pessoa no passado, foram provados na Justiça que sou inocente", disse.

JPS/ots

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