Senado chama Araújo para explicar presença de Pompeo em Roraima | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 22.09.2020

Conheça a nova DW

Dê uma olhada exclusiva na versão beta da nova DW. Sua opinião nos ajudará a torná-la ainda melhor.

  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages
Publicidade

Brasil

Senado chama Araújo para explicar presença de Pompeo em Roraima

Para grupo de senadores, secretário de Estado dos EUA usou Brasil como palanque eleitoral e para atacar presidente de nação vizinha. Audiência está marcada para esta quinta-feira, mas não está claro se Araújo irá.

O secretário Mike Pompeo e o ministro Ernesto Araújo em Roraima

O secretário Mike Pompeo e o ministro Ernesto Araújo em Roraima

A Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou nesta segunda-feira (21/09) um convite para que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, preste esclarecimentos sobre a visita do secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, a Roraima, na sexta-feira passada. A audiência está marcada para esta quinta-feira, mas não está claro se Araújo vai comparecer ao Senado, pois se trata de convite e não de convocação. Os senadores também aprovaram uma nota de repúdio aos ataques do secretário americano à Venezuela. 

Na segunda-feira, um grupo de senadores tentou derrubar as reuniões da comissão para sabatinar diplomatas indicados para embaixadas brasileiras como retaliação à visita de Pompeo, classificada por eles como um desrespeito à soberania brasileira e uma afronta à Venezuela. Após debate, o colegiado decidiu manter as sabatinas, mas convidar Araújo a dar explicações, além de emitir a nota de repúdio.

Na sexta-feira, em visita a um centro de acolhida de refugiados em Roraima, Pompeo fez duras críticas ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro, a quem chamou de um traficante de drogas que destruiu o país. Ele ainda afirmou que não pode responder quando Maduro vai cair, "mas que esse dia chegará".

Durante a visita, Pompeo também se encontrou com Araújo. Antes do Brasil, o americano visitou a Guiana e o Suriname e, depois, seguiu para a Colômbia. Parte da imprensa americana interpretou o giro pela América do Sul como um gesto para conquistar votos para o presidente Donald Trump entre o eleitorado de origem latina da Flórida, considerado decisivo nas eleições presidências dos EUA, marcadas para novembro.

Visita como palanque eleitoral

O pedido para ouvir Araújo partiu do senador Telmário Mota (Pros-RR). Para ele, agora que Roraima conseguiu "pacificar" a sua situação migratória, os Estados Unidos trazem transtorno para a região ao usar o estado de palanque para a campanha eleitoral de Trump. "Na hora do pico da crise migratória, os Estados Unidos não ajudaram. Agora que resolvemos, chega o seu Pompeo e oferece uma migalha de 30 milhões de dólares. E de lá detona dizendo que vai derrubar o Maduro. O Brasil não é colônia dos Estados Unidos. Isso fere a nossa soberania", criticou.

O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), afirmou que as preocupações de Telmário são legítimas, mas apontou, antes da decisão por converter o requerimento em um convite, que existiam outros meios de discutir a visita de Pompeo. "Precisamos ter nossos representantes posicionados para que a gente possa defender os nossos mercados e os empregos para milhares de brasileiros. As preocupações do senador Telmário podem ser amparadas por esta comissão. Existem outros remédios, outros caminhos para que possamos aprofundar e debater essa questão da relação do Brasil com a Venezuela e com os Estados Unidos", afirmou.

Para ele, a visita de Pompeo ao Brasil foi apenas mais uma etapa de uma viagem pela América do Sul. "A passagem teve por objetivo reafirmar a parceria estratégica entre os dois países", disse.

Autor de um pedido de moção de censura à visita de Pompeo, o senador Jaques Wagner (PT-BA) disse que o governo brasileiro permitiu o uso do solo nacional para que os Estados Unidos ameaçassem um país vizinho. "Ele fez questão de ir bem pertinho, na fronteira do Brasil com a Venezuela, e usar o solo nacional para bravatas. Não somos nem concessão nem base militar dos Estados Unidos", criticou.

A senadora Kátia Abreu (PP-TO) chamou a presença de Pompeo de inadmissível. "Independentemente de quem governa ou não governa a Venezuela, independentemente do mérito do que está acontecendo lá, nós temos acordos internacionais e regras rígidas impostas pela nossa Constituição quanto à intromissão na vida de outro país. Ficou muito clara para todos nós a interferência desse cidadão americano no Brasil para se aproveitar da situação em um período eleitoral nos Estados Unidos, usando o território brasileiro, o governo brasileiro, para fazer favorecimento ao candidato Trump, candidato a presidente nos Estados Unidos. Isso é inadmissível para todos nós", disse.

Humberto Costa (PT-PE) defendeu a transformação de convite em convocação, o que obrigaria a ida do chanceler ao Senado. "Eu preferiria que votássemos a convocação. O fato de ele ter aceitado o convite não quer dizer que ele irá comparecer. Acho importante que esse cidadão compareça porque ele está levando o Brasil a uma posição de pária, de vergonha para a nossa população em razão da condução que ele dá à política de relações exteriores", pontuou.

O presidente da comissão, Nelsinho Trad (PSD-MS), destacou que o chanceler costumar atender aos convites dos senadores.

Ex-ministros contrários à visita

A visita de Pompeo a Roraima foi alvo de críticas, também, do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que declarou que a vinda do americano não era apropriada às vésperas da eleição nos EUA.

"A visita do Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, nesta sexta-feira, às instalações da Operação Acolhida, em Roraima, junto à fronteira com a Venezuela, no momento em que faltam apenas 46 dias para a eleição presidencial norte-americana, não condiz com a boa prática diplomática internacional e afronta as tradições de autonomia e altivez de nossas políticas externa e de defesa", afirmou Maia.

A crítica foi endossada por um grupo de seis ex-ministros, liderados pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e também formado por José Serra, Aloysio Nunes, Celso Amorim, Celso Lafer e Francisco Rezek.

"Responsáveis ​​pelas relações internacionais do Brasil em todos os governos democráticos desde o fim da ditadura, condenamos o espúrio uso de terras nacionais por país estrangeiro como plataforma de provocação e hostilidade para uma nação vizinha", disseram os ex-chanceleres.

Tanto o presidente Jair Bolsonaro quanto Araújo refutaram essas críticas e afirmaram que Brasil e Estados Unidos trabalham juntos para restaurar a democracia na Venezuela.

Refugiados venezuelanos no Brasil

Estimativas das Nações Unidas indicam que mais de 250 mil venezuelanos fugiram para o Brasil nos últimos anos, tentando escapar da ruína econômica e da turbulência política no país vizinho. Mas apenas um quinto desse total recebeu o status de refugiado. Dezenas de milhares de pedidos seguem em análise.

Os EUA e o Brasil não reconhecem Maduro como presidente. Em 2018, o venezuelano foi reeleito para mais um mandato presidencial em um pleito marcado por acusações de fraude e intimidação. Em 2019, Brasil, EUA e dezenas de outros países reconheceram Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, como presidente em exercício do país. 

LE/asn/efe/abr

Leia mais