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Entrevista

9 de junho de 2009

Na maioria dos países árabes, não houve um debate crítico aberto sobre o nazismo e o Holocausto. Em seu livro "O vilarejo do alemão", o autor argelino Boualem Sansal alia o fato ao estabelecimento do islamismo radical.

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Boualem Sansal pede que árabes debatam o HolocaustoFoto: MERLIN

Ocasionalmente, alemães em viagem pelo Cairo ou por Damasco são cumprimentados pelo fato de terem tido Adolf Hitler, enquanto é negado o assassinato de milhões de judeus e não judeus. Na maioria dos casos, atrás dessas declarações não se encontra má intenção, mas insegurança e desconhecimento.

Até o momento, somente poucos intelectuais árabes ousaram tratar abertamente desse tema que se tornou um tabu. Entre esses intelectuais, está o romancista argelino Boualem Sansal, que traz uma mensagem bem clara em seu último romance Le Village de l'Allemand (O vilarejo do alemão, 2008).

Para Sansal, a falta de discussão, nos países árabes, sobre o Holocausto e sobre o totalitarismo do século 20 ajudou àqueles que querem instaurar um regime totalitário: os islamitas radicais. Até agora, seu livro não pode ser vendido na Argélia. Boualem Sansal está em tour pela Alemanha para apresentar a tradução do seu romance para o alemão Das Dorf des Deutschen.

Imagem distorcida

O escritor argelino vive em Boumerdès, próximo à capital, Argel. Como em todo o país, há guindastes por todos os lados. Em entrevista à Deutsche Welle, Sansal explicou que devido aos preços do petróleo e do gás natural, a economia da Argélia se recuperou, nos últimos anos. Para muitos argelinos, no entanto, o bem-estar proveniente do petróleo ainda não chegou, criticou o escritor.

Zweiter Weltkrieg - Afrikafeldzug, Tobruk
Nazistas na África: alguns voltaram após 1945Foto: dpa

Segundo Sansal, o presidente argelino, Abdelaziz Bouteflika, teria conseguido mostrar para o exterior a imagem de um país em plena expansão econômica. "Mas, internamente, a situação é bem diferente. Bouteflika está a caminho de instalar uma ampla ditadura, como é o caso da Tunísia. Não existe mais liberdade política. Ao mesmo tempo, o nível de desemprego ainda é muito alto e somente uma pequena classe lucra com o desenvolvimento econômico, enquanto drogas, prostituição e criminalidade em geral estão em expansão", explicou.

Boualem Sansal é um escritor tardio. Somente aos 50 anos de idade, em 1999, ele publicou seu primeiro romance. Seguiram-se então quatro outros romances, oito novelas e alguns livros de não ficção. Devido às duras críticas à classe política argelina, seus livros são em parte proibidos, como também seu último romance.

Passado paterno

O personagem principal do romance é um nazista alemão chamado Hans Schiller, que teve participação nos assassinatos em massa de Auschwitz e que, através de caminhos tortuosos, acabou entrando no Exército de Libertação Nacional da Argélia após 1945. Como criminoso de guerra internacionalmente procurado, Schiller se estabeleceu e constituiu família na Argélia. Seus dois filhos, que nada sabiam sobre o passado do pai, foram enviados cedo para a França.

Somente quando o velho nazista e sua esposa argelina morrem em um atentado terrorista na Argélia, nos anos de 1990, a verdade vem lentamente à tona. Um dos filhos volta à Argélia para procurar pistas. No jazigo dos pais, todavia, ele encontra mais perguntas do que respostas.

No romance, o filho se pergunta: "As autoridades sabiam do passado de papai? (...) Eu poderia jurar que os pequenos manda-chuvas de hoje nada sabem, ele foram instruídos sob o culto da mentira e sob a disciplina do esquecimento..."

Nazistas na Legião Francesa

O romance trata de mitos primordiais e de tabus enraizados na sociedade argelina. A imagem ideal de um Exército de Libertação Nacional (ELN) esquerdista, antifascista e íntegro não deve, na medida do possível, ser manchada.

Está claro que também nas fileiras do ELN houve mortes e torturas. Em casos isolados, foram recrutados antigos nazistas para missões especiais ou como instrutores, caso não houvesse outros à disposição. Um debate aberto sobre o lado obscuro do passado não foi, até agora, desejado, criticou Boualem Sansal.

Desta história faz também o fato de, na Argélia, nazistas terem lutado na Legião Estrangeira ao lado da França, contra os argelinos. Para Boualem Sansal, não se trata de denegrir de forma geral o movimento de libertação argelino como simpatizante do nazismo.

O escritor exige, no entanto, que seus conterrâneos e os árabes comecem, finalmente, a se ocupar do Holocausto, que eles se perguntem por que diversos criminosos nazistas do alto escalão encontraram refúgio em países árabes, em vez de receberem a merecida condenação.

Boualem Sansal é da opinião que, somente quando essas questões forem discutidas abertamente, se poderá enfrentar de forma eficaz a ameaça proveniente de novas formas de totalitarismo.

Autora: Martina Sabra

Revisão: Roselaine Wandscheer