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Resultado não afeta relação com Leste Europeu

Roman Goncharenko (sv)15 de setembro de 2013

As discussões a respeito de valores democráticos e de uma política de reformas têm abalado as relações da Alemanha com a Rússia e com a Ucrânia. Especialistas acreditam que nada mude neste sentido depois do pleito.

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Foto: DW/A. Brenner

Embora a chanceler federal alemã, Angela Merkel, fale russo, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, fale alemão, a chefe de governo nunca conseguiu manter com o líder russo uma amizade como a cultuada pelo social-democrata Gerhard Schröder quando governava a Alemanha. O encontro entre Merkel e Putin em junho último, por exemplo, quase acabou num conflito aberto. Durante uma visita a São Petersburgo, a alemã desmarcou na última hora sua presença na abertura de uma exposição ao lado de Putin.

A recusa de Merkel se deveu à decisão do presidente russo de cancelar os discursos agendados para a ocasião. Por fim, ambos acabaram participando da cerimônia. A premiê alemã, no entanto, tocou no assunto da "arte de botim" – objetos de arte levados da Alemanha para a Rússia depois da Segunda Guerra Mundial. Merkel arriscou falar sobre o tema, mesmo considerando que isso não agradaria Putin.

Desde que assumiu o poder pela primeira vez, a premiê mantém em relação ao Kremlin uma postura vista pelos especialistas como "pragmática". Segundo Fiodor Lukianov, editor-chefe da revista Rússia na Política Global, em entrevista à Deutsche Welle, "Merkel e Putin nunca mantiveram relações pessoais muito próximas". Segundo ele, as posições dos dois políticos são "demasiado diferentes".

E isso não deverá mudar depois das eleições de 22 de setembro, quando, pelo menos de acordo com as atuais enquetes, a União Democrata Cristã (CDU) deverá se manter como a maior força dentro do Parlamento, confirmando Merkel no poder por mais quatro anos. "Eles não deverão ficar mais próximos, muito pelo contrário", acredita Lukianov.

Discrepância de valores aumenta

Desde que Putin voltou ao Kremlin, em maio de 2012, Berlim vem criticando a política russa com mais veemência. Entre os pontos nevrálgicos estão, por exemplo, as novas leis na Rússia, que sob o ponto de vista alemão colocam a sociedade civil e a oposição sob pressão. E também os veredictos contra as ativistas da banda punk Pussy Riot ou a chamada "lei contra a propaganda antigay". Lukianov fala de uma discrepância cada vez maior dos valores defendidos pela Rússia e os defendidos pela Europa Ocidental, inclusive pela Alemanha.

O tom crítico entre Berlim e Moscou chegou a seu ápice, constata Vladislav Belov, diretor do Centro de Estudos sobre a Alemanha da Academia Russa das Ciências. Ele não acredita, contudo, num desgaste da relação entre os dois países. "O que piorou foi a postura em relação a Putin e seu entorno", explica Belov à DW.

Pussy Riot Kirche Flashmob Punk Russland Moskau
Flashmob da banda Pussy Riot numa igreja de MoscouFoto: picture-alliance/dpa

As relações russo-alemãs, de modo geral, segundo ele, não foram afetadas. Isso diz respeito acima de tudo às relações econômicas. O comércio entre os dois países atingiu em 2012 um volume total de mais de 80 bilhões de euros – um novo recorde, de acordo com a comissão de Leste Europeu do empresariado alemão.

Pontos comuns permanecem

Analistas alemães vêm discutindo nos últimos tempos as mudanças da política interna russa e da melhor forma de Berlim reagir a isso. Enquanto alguns defendem que o tom de crítica deva ser mantido, outros se opõem a essa postura.

Especialistas como Hans-Henning Schröder, do Instituto Alemão de Relações Internacionais e de Segurança (SWP, na sigla original), veem a necessidade de uma "nova linha política" com relação a uma Rússia que mudou sensivelmente. Os colegas russos de Schröder, por outro lado, não acreditam que seja necessário reordenar a postura do país com relação a Berlim.

Para os especialistas russos, não importa muito quem vai assumir o governo alemão depois das eleições. Segundo Belov, uma grande coalizão entre CDU/CSU e SPD seria, sob o ponto de vista de Moscou, desejável, uma vez que o tom de crítica à Rússia, neste caso, não seria "tão ofensivo". Caso estivessem no poder, os social-democratas, segundo o jornalista, iriam criticar menos a Rússia publicamente.

Belov vê o prosseguimento da atual coalizão de governo entre democrata-cristãos e FDP como a segunda melhor opção para Moscou. Em suma, contudo, os especialistas não acreditam que haverá mudanças substanciais nas relações russo-alemãs nem mesmo se os verdes, considerados "especialmente críticos a Putin", participassem do governo.

Ucrânia precisa de Berlim para chegar à UE

Na vizinha Ucrânia, por outro lado, as expectativas com relação ao pleito alemão são maiores, pois, ao contrário da Rússia, a Ucrânia pretende ingressar na União Europeia e precisa, para isso, do apoio de Berlim. Kiev pretende assinar já em novembro próximo um acordo de associação com a UE, que prevê inclusive a criação de uma zona de livre comércio.

Especialistas ucranianos, entre eles o vice-diretor do Centro Rasumkov, Valeri Tchaly, acreditam que um "sim" alemão para a questão seria decisivo para Kiev. Segundo Tchaly em entrevista à DW, "a postura de Berlim frente ao Acordo de Associação à UE por parte da Ucrânia" é a razão pela qual diversos especialistas e políticos ucranianos estão acompanhando com atenção as eleições parlamentares alemãs.

Ukraine Demonstration für Julia Timoschenko in Kiew
Manifestações em Kiev em defesa de Julia TimochenkoFoto: dapd

Timochenko: fator que abala relações

Entretanto, as relações entre as lideranças políticas de Berlim e Kiev são ainda mais complexas que as entre Berlim e Moscou. Já transcorreram dois anos, por exemplo, desde o último encontro entre Merkel e o presidente ucraniano, Victor Yanukovitch. A razão de tal distanciamento é o estilo autoritário de Yanukovitch e a chamada "justiça seletiva" contra líderes da oposição no país – uma postura que vem sendo frequentemente atacada pela Alemanha e pela UE como um todo.

Em primeiro plano, o destino da ex-presidente Julia Timochenko é o que mais abala as relações entre os dois países. Timochenko foi condenada no segundo semestre de 2011, num processo altamente criticado no cenário internacional. De acordo com o Ministério alemão do Exterior, caso Timochenko tenha que ficar presa, a Alemanha não irá assinar o acordo de associação entre a UE e a Ucrânia.

A decisão final a respeito, diz Tchaly, deverá ser tomada em Berlim depois das eleições parlamentares. Forças pró-ocidentais em Kiev demonstram predileção pela continuidade de Merkel no cargo, uma vez que os social-democratas são vistos em Kiev como "próximos da Rússia".