Relato de ex-nazista põe em xeque incêndio no Reichstag em 1933 | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 27.07.2019
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Alemanha

Relato de ex-nazista põe em xeque incêndio no Reichstag em 1933

Descoberto agora, depoimento de ex-oficial lança dúvidas sobre versão nazista de que comunista ateou fogo no prédio do Parlamento alemão. Crime foi usado por Hitler para reprimir seus oponentes e se consolidar no poder.

Prédio do Parlamento alemão, em Berlim, sob chamas em 27 de fevereiro de 1933

Chamas destruíram o plenário em Berlim em 27 de fevereiro de 1933

O incêndio que atingiu o prédio do Parlamento alemão (Reichstag) em 1933, considerado um duro golpe na democracia alemã, pode não ter ocorrido da forma como pregaram as autoridades nazistas da época. O depoimento de uma testemunha, datado de mais de 60 anos atrás e descoberto somente agora, reavivou um mistério sobre o incidente.

O fogo, que destruiu o edifício em Berlim, é descrito por historiadores como um momento crucial na tomada de poder por Adolf Hitler. O Partido Nazista usou o evento para justificar um decreto de emergência e reprimir os comunistas, responsabilizados pelo incêndio.

Nesta sexta-feira (26/07), a imprensa alemã teve acesso a uma declaração juramentada em 1955, recém-descoberta nos arquivos de um tribunal em Hannover, que muda a versão defendida pelos nazistas de que um comunista holandês estava por trás do crime.

No relato em questão, Hans-Martin Lennings, ex-membro da força paramilitar nazista Sturmabteilung (SA), conta ter levado o holandês Marinus van der Lubbe até o Reichstag na noite do incêndio.

Segundo o depoimento, quando Lennings e sua equipe da SA chegaram ao prédio da Parlamento com Van der Lubbe, eles notaram "um estranho cheiro de queimado, e havia nuvens de fumaça flutuando pelos cômodos".

Marinus van der Lubbe

Marinus van der Lubbe foi condenado pelo incêndio no Reichstag e executado em 1934

Não está claro por que a unidade da SA teria transportado Van der Lubbe de uma enfermaria para o Reichstag naquele dia, mas o depoimento sugere que o fogo já havia começado quando eles chegaram.

O comunista holandês foi mais tarde culpado pelo incidente, condenado por incêndio criminoso e executado após admitir ter cometido o ato sozinho. À época, ele afirmou que provocou o incêndio para unir os comunistas contra o fascismo. Outros quatro réus no julgamento foram absolvidos, uma decisão que irritou Hitler.

Lennings, que morreu em 1962, disse ainda em seu depoimento que ele e seus colegas chegaram a protestar contra a prisão de Van der Lubbe, à época com 24 anos.

"Estávamos convencidos de que Van der Lubbe não poderia ter sido o incendiário, porque, de acordo com a nossa observação, o Reichstag já estava pegando fogo quando o deixamos lá", afirmou o ex-oficial da força paramilitar.

Lennings alegou ainda que ele e outras testemunhas foram detidas e forçadas a assinar um documento negando qualquer conhecimento sobre o incidente. Mais tarde, quase todos eles foram executados. Lennings disse que foi previamente alertado e, por isso, conseguiu fugir para a antiga Tchecoslováquia.

O ex-membro da SA teria pedido que seu depoimento fosse certificado em 1955, para o caso de o incêndio do Reichstag voltar a ser julgado.

Oficialmente, até hoje permanece um mistério quem iniciou o fogo em 1933. Desde o fim do regime nazista, a culpa de Van der Lubbe tem sido repetidamente questionada. A maioria dos historiadores concorda que o holandês agira sozinho, enquanto alguns acusam autoridades nazistas de terem provocado o incêndio deliberadamente para justificar uma repressão a seus oponentes.

Em 2008, a Alemanha perdoou postumamente Van der Lubbe, sob uma lei introduzida em 1998 para suspender condenações de pessoas que cometeram crimes durante o regime nazista.

Incêndio abriu caminho para os nazistas

O incêndio ocorreu em 27 de fevereiro de 1933. Naquele momento, os nazistas ainda não haviam se consolidado no poder, pois somente em 30 de janeiro de 1933 é que o presidente do Reich, Paul von Hindenburg, havia nomeado Hitler para o cargo de chanceler.

Hitler não tinha a menor intenção de deixar o poder, e seu grande receio era uma possível insurreição dos comunistas. Com o Reichstag em chamas, ele viu um suposto fundamento para suas preocupações, e chegou a insistir que uma conspiração comunista estava por trás de tudo.

No dia seguinte, 28 de fevereiro, foi assinado o Decreto do Presidente do Reich para a proteção do povo e do Estado, que eliminava a liberdade de expressão, de opinião, de reunião e de imprensa. O sigilo do correio também era abolido. Além disso, o governo em Berlim ganhava poderes para "intervir" nos estados, a fim de garantir "a paz e a ordem".

Com o Decreto do Incêndio do Reichstag, como ele ficou conhecido a seguir, os nazistas passaram a dispor da ferramenta decisiva para combater seus inimigos. Sem provas nem controle jurídico, eles podiam deter qualquer um que lhes fosse desconfortável. O decreto pavimentou, assim, o caminho para a ditadura de Hitler.

EK/dw/afp/dpa

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