Relações entre rebeldes irão marcar destino da Líbia pós-Kadafi | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 23.08.2011
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Mundo

Relações entre rebeldes irão marcar destino da Líbia pós-Kadafi

Vencer a guerra pode ser mais fácil do que administrar a paz. Comunidade internacional está preocupada que os rebeldes fracassem em preencher o vácuo político criado pela partida de Kadafi.

Clima entre insurgentes é de euforia

Clima entre insurgentes é de euforia

É improvável que o fim da luta pela paz, segurança e estabilidade na Líbia coincida com a queda do regime de Muammar Kadafi. Para o Conselho Nacional de Transição (CNT) pode ser mesmo tão difícil conquistar a paz quanto tem sido vencer a guerra.

Com desconfiança de longa data e discórdia quanto à divisão dos papéis dentro do poder ameaçando esfacelar as frouxamente aglutinadas facções rebeldes, circula até o temor de que as salvas de tiros comemorativas em breve passem a ser redirecionadas contra os rivais, na briga pelo controle sobre os destroços da Líbia pós-Kadafi.

No momento, o CNT, reconhecido por 32 países como representante único da Líbia, não dispõe de um gabinete de governo. O último foi dissolvido por Mustafa Abdul Jalil, um juiz que renunciou ao cargo de ministro da Justiça, após o início do levante, e agora é presidente do conselho de transição. A causa da dissolução foi o fracasso das investigações em torno do assassinato do comandante rebelde Abdul Fatah Younis, em julho.

O caso Younis

Abdel Fatah Younis

Abdel Fatah Younis

A misteriosa morte do oficial do Exército e ex-ministro do Interior da Líbia abriu profundas fendas na já fragmentada rebelião. Younis fora um braço direito de Kadafi, e mais tarde um dos mais proeminentes desertores do regime. As facções rivais lançaram-se acusações mútuas, e Jalil aparentemente mostrou-se pouco cooperativo ao ser confrontado com perguntas sobre o papel de seu governo no assassinato.

"Existem discórdias entre os insurgentes que desertaram do regime Kadafi e os que nunca estiveram integrados nele", explicou à Deutsche Welle Kristian Ulrichsen, especialista no Norte da África e Oriente Médio pela London School of Economics. "O homicídio de Younis em julho expôs as fissuras e a desconfiança básica entre esses dois grupos."

O crime exacerbou a confusão sobre quem recebe ordens de quem, a natureza caótica das operações e as ineficazes estruturas de comando dentro do movimento rebelde – as quais frustraram muitas de suas primeiras ofensivas. Ele também acirrou os atritos e difamações entre os grupos rivais, muitos dos quais rechaçam a alegação do CNT de que seria o governo de todos os líbios.

Exigências de recompensa

Essa divergência é um dos principais problemas que o Conselho deverá enfrentar, caso assuma o poder após a queda de Kadafi. Enquanto Jalil apresenta o CNT como única voz verdadeira da Líbia livre, tanto para a população nacional quanto para a comunidade internacional, este é um ponto que causa irritação entre os insurgentes de Misrata, terceira maior cidade líbia, assim como entre os dos Montes Nafusa.

Em Misrata, os rebeldes acusam o CNT de ser desorganizado e extremamente ineficiente durante os combates. A tal ponto que afirmaram à imprensa que não mais receberão ordens do governo de transição.

Um outro fator igualmente debilita o controle de Jalil sobre a situação nacional: os oposicionistas de Misrata e dos Montes Nafusa foram os principais responsáveis pelo avanço sobre a capital, através das cidades estrategicamente importantes de Zawiya, Garyan e Zlitan – e isto sem recorrer à ajuda das forças do leste, comandadas por Jalil.

Caso esses grupos consigam capturar Tripoli, é possível que, no futuro, venham a pressionar o CNT e seu líder, exigindo papéis de destaque no governo da nova Líbia, como recompensa por seus atos de heroísmo.

Ataques contra a residência de Kadafi

Ataques contra a residência de Kadafi

População sob alta pressão

Além de atender às demandas de seus aliados, o CNT terá que aplacar e policiar uma sociedade irada, subitamente liberada da opressão, muitas vezes brutal, que sofreu nos últimos 42 anos. Ao enfrentar essa tarefa, o governo tem que, acima de tudo, evitar repetir os erros do passado.

"Será um gigantesco desafio reinstaurar a ordem pública, sem recorrer à força indiscriminada, nem cair na tentação de perpetrar atos de vingança contra os sequazes de Kadafi", antecipou à Deutsche Welle Thorsten Benner, especialista em segurança do Instituto Global de Políticas Públicas (GPPI em inglês) de Berlim.

"Há um enorme perigo de que o novo governo empregue os lucros com o petróleo para servir a seus próprios camaradas, em vez de à massa da população", acrescentou. "Também é enorme a tentação de encenar processos sensacionalistas, em vez de lentamente fundar um sistema judiciário independente."

"Roadmap" da democracia

Mustafa Abdul Jalil, presidente do Conselho de Transição

Mustafa Abdul Jalil, presidente do Conselho de Transição

Embora a constituição de qualquer governo pós-Kadafi, por mais que seja fragmentado, continue sendo uma tarefa complexa, o CNT parece dispor de planos, pelo menos de curto prazo. Estes incluem assegurar que o fornecimento e os serviços públicos sigam operando, depois de o controle haver mudado de mãos; assim como a apresentação de um roteiro contendo sua versão da passagem da Líbia à democracia, num prazo de 20 meses.

Outros tópicos são a transferência da liderança da cidadela rebelde Benghazi para Trípoli, num prazo de 30 dias a partir da ocupação da capital; e a ampliação do Conselho Nacional de Transição, tornando-o mais inclusivo, com a integração de representantes de todo o país. O governo de transição prevê ainda, num prazo de oito meses, a realização de eleições para um congresso nacional interino, contando 200 membros.

Apesar desse plano, o receio na Líbia e no restante do mundo é o CNT estar tão fragmentado e dividido em facções, que não esteja sequer apto a decidir quem assumirá o poder executivo para supervisionar o roadmap da democratização. Para muitos, Jalil é incapaz de unificar o país, já que não consegue nem mesmo harmonizar sua própria administração.

Lição negativa do Iraque

A comunidade internacional está seriamente preocupada que os rebeldes venham a vencer a guerra, mas fracassem em preencher o vácuo político criado pela partida de Kadafi, expondo a Líbia a rixas e rivalidades sectárias – como as que sucederam à remoção de Saddam Hussein do poder, no Iraque. "Novas explosões de violência são um perigo, em especial se elementos ligados ao novo regime se sentirem excluídos da ordem política pós-Kadafi", alerta Kristian Ulrichsen.

Dentro de tal cenário, a Otan corre o risco de se encontrar no papel imposto aos Estados Unidos: um poder militar responsável – no caso da Líbia, até certo ponto – pela deposição de um ditador, e "atolado" em meio à guerra civil que ajudou a criar. Há temores que a Organização do Tratado do Atlântico Norte fique atada a outro compromisso complicado e de longo termo, como no Afeganistão.

"A Otan não pode se colocar na posição de ter que assumir partido dentro do conflito interno, como acabou sendo forçada a fazer no conflito do Afeganistão", diz o pesquisador da London School of Economics. Os resultados naquele país asiático "demonstram que isso mina a possibilidade de alcançar qualquer tipo de ordem política duradoura, e deve-se esperar que seja evitado na Líbia".

Rebeldes na capital Trípoli

Rebeldes na capital Trípoli

Limites do mandato da Otan

Thorsten Benner, do GPPI, acentua que é vital a Aliança Atlântica reconhecer que estabilização política não é sua especialidade.

"A Otan teve um mandato da ONU muito restrito para a Líbia, o qual extrapolou sistematicamente. Portanto, ela deve agora reduzir seu envolvimento, deixando que a ONU e organizações regionais como a União Africana e a União Europeia assumam o leme na frente internacional."

Num mundo ideal, acrescenta, os líbios deveriam tomar seu destino nas próprias mãos, com o aconselhamento da comunidade internacional. "Organizações globais e regionais podem oferecer assessoria em questões de formação de Estado, através de uma missão política. Embora não se deva contar que um novo governo movido pela riqueza do petróleo venha a ser um bom ouvinte", comenta o especialista em segurança.

Autoria: Nick Amies (av)
Revisão: Carlos Albuquerque

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