Relações Alemanha-Israel passaram de inexistentes a profundas | Notícias internacionais e análises | DW | 18.04.2018
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Mundo

Relações Alemanha-Israel passaram de inexistentes a profundas

Em 70 anos, relações entre os dois países passaram por várias situações tensas, mas evoluíram para a normalização e a parceria. Elas sempre serão, porém, marcadas pela sombra do Holocausto.

Benjamin Netanyahu ao lado da chanceler alemã, Angela Merkel, em Berlim

O atual premiê israelense, Benjamin Netanyahu, ao lado da chanceler federal alemã, Angela Merkel

O Estado de Israel inicia nesta quarta-feira (18/04) as comemorações pelos 70 anos de sua criação, em 14 de maio de 1948 (pelo calendário hebraico, a data recai este ano em 19 de abril). Um ano depois, em 23 de maio de 1949, era constituída a República Federal da Alemanha.

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No histórico abaixo, entenda como evoluíram as relações entre Alemanha e Israel desde as criações dos dois Estados.

David Ben Gurion e Konrad Adenauer

David Ben Gurion (e) aperta a mão do primeiro chanceler da República Federativa da Alemanha, Konrad Adenauer

Anos 1950: o início

A antiga Alemanha Ocidental foi formada após a derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que Israel foi fundado em parte por causa dos horrores do Holocausto. A criação do Estado judeu foi proclamada em 14 de maio de 1948, enquanto a República Federal da Alemanha foi constituída com a adoção da Lei Fundamental, em 23 de maio de 1949.

Dada a imensa sombra lançada pelo Holocausto, surgiram muitos questionamentos sobre que tipo de relacionamento essas duas jovens nações poderiam ter.

Durante um longo discurso em 1951, o primeiro chanceler da Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, reconheceu que a Alemanha tinha cometido crimes inomináveis contra o povo judeu. No ano seguinte, houve encontros entre o primeiro-ministro israelense, David Ben-Gurion, e Adenauer e negociações com a Jewish Claims Conference (JCC), associação de organizações judaicas fundada em 1951 e que representa os pedidos de indenização de sobreviventes do Holocausto. Como resultado, a Alemanha concordou em pagar bilhões em reparações a vítimas da perseguição e do genocídio nazista, bem como a seus herdeiros.

Esse dinheiro foi fundamental para Israel conseguir se estabelecer como nação, mas houve protestos e até rebeliões no Estado judeu contra a ajuda da Alemanha. "Por duas horas, a praça diante da Knesset (Parlamento israelense) e as ruas adjacentes se transformaram num 'campo de batalha'", relatou o jornal israelense Haaretz.

E o estabelecimento de relações diplomáticas ainda demoraria uma década e meia.

Rolf Friedemann Pauls

Ex-oficial da Wehrmacht Rolf Friedemann Pauls (e.) demorou para ser aceito como embaixador alemão em Israel

Anos 1960: normalização da diplomacia

Lentamente, Israel superou sua compreensível relutância em cooperar com a Alemanha Ocidental. Em 12 de maio de 1965, os dois países estabeleceram oficialmente relações diplomáticas.

"A decisão dos nossos dois governos foi tomada diante de um pano de fundo histórico sombrio e um político tempestuoso", escreveu Levi Eshkol, o então primeiro-ministro israelense, na carta de seu país à Alemanha. "Compartilho da nossa esperança de que a nossa decisão em comum mostrar-se-á um passo importante em direção a um futuro melhor", diz o texto.

Rolf Friedemann Pauls foi designado primeiro embaixador da Alemanha Ocidental para Israel, novamente desencadeando protestos acalorados. Apesar de não ter apoiado os nazistas, Pauls era ex-oficial da Wehrmacht, as Forças Armadas alemãs durante o período nazista (1935-1945). Ele acabou sendo aceito e serviu como embaixador em Israel por três anos.

"Não se pode 'forçar' a normalização das relações entre alemães e judeus", diz uma citação atribuída ao diplomata. "Essas relações precisam crescer. E este é um processo árduo que vai levar gerações."

Anos 1970: período de crise e terrorismo

No início dos anos 1970, as visitas oficiais de Estado entre os dois países já haviam se tornado regulares, mas as relações teuto-israelenses enfrentaram uma duríssima prova em 1972, quando terroristas palestinos mataram 11 membros da equipe de Israel durante os Jogos Olímpicos de Munique. A conexão dos terroristas com o grupo de esquerda RAF e acusações de que as autoridades alemãs não providenciaram segurança suficiente para os atletas elevaram ainda mais a tensão causada pelo "massacre de Munique".

Quatro anos depois, um grupo de terroristas palestinos e de esquerda alemães sequestraram um avião e mantiveram 94 israelenses reféns em Entebbe, no Uganda. Forças especiais israelenses foram bem-sucedidas na libertação da maioria dos reféns e mataram os sequestradores. A Alemanha Ocidental apoiou o ação contra os terroristas, diplomaticamente e com forças especiais, definindo-a como uma ação de autodefesa.

Do ponto de vista diplomático, as relações entre a Alemanha e Israel estavam normalizadas, mas elas continuavam carregadas com o peso do passado durante os governos do chanceler federal alemão Helmut Schmidt e do primeiro-ministro israelense Menachem Begin, que atacou Schmidt, dizendo que este havia "servido voluntariamente nas Forças Armadas alemãs que assassinaram milhões" e chamando as indenizações alemãs de "dinheiro manchado de sangue". Schmidt, por sua vez, chegou a se referir a Israel como "a maior ameaça à paz mundial".

Atirador se posiciona no telhado da Vila Olímpica em Munique, em 1972: no dia 5 de setembro, durante a realização dos jogos, terroristas palestinos sequestraram atletas israelenses. O resgate fracassado resultou na morte de 17 pessoas

Ataque terrorista à equipe israelense nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, chocou o mundo

Anos 1980 e 1990: a reunificação alemã

A queda do Muro de Berlim e o fim oficial da Guerra Fria, em 1989, apresentaram um dilema para Israel. Por um lado, os israelenses viam com bons olhos o fim da Alemanha Oriental comunista, que sempre havia sido hostil para com Israel. Mas o primeiro-ministro israelense da época, Yitzhak Shamir, também demonstrou apreensão em relação a uma Alemanha reunificada – preocupações que acabaram por se revelar infundadas. Nos anos que se seguiram à Reunificação, os laços teuto-israelenses se estreitaram cada vez mais, com uma sucessão de estreias.

Em 1992, Yitzhak Rabin se tornou o primeiro chefe de governo israelense a visitar a Alemanha reunificada e, em 1996, o então presidente israelense, Ezer Weizman, foi o primeiro chefe de Estado estrangeiro a discursar no Parlamento da Alemanha reunificada.

Em 1994, Israel foi o primeiro país estrangeiro a ser oficialmente visitado pelo então presidente alemão, Roman Herzog, e o primeiro-ministro israelense Ehud Barak foi o primeiro líder estrangeiro a ser recebido quando o governo alemão foi transferido de Bonn para Berlim, em 1999.

Desde então, mais e mais jovens israelenses passaram a visitar e, em alguns casos, a se mudar para a nova capital alemã.

De 2000 ao presente

Apesar de as diferenças entre Alemanha e Israel persistirem – por exemplo a questão sobre o eventual reconhecimento de Jerusalém como capital israelense, ou os polêmicos assentamentos judaicos em territórios palestinos –, as relações entre os dois países se aprofundaram durante os governos da atual chanceler federal alemã, Angela Merkel.

Em 2000, o então presidente alemão, Johannes Rau, discursou em alemão diante do Knesset, pedindo perdão em nome do povo alemão. Em 2008, no aniversário de 60 anos da fundação de Israel, Merkel se tornou a primeira chanceler federal alemã a falar diante do Parlamento israelense.

A chanceler alemã Angela Merkel discursa diante do Knesset, em 2008

Merkel discursa diante do Knesset, em 2008: "Responsabilidade para com Israel é parte da razão de Estado da Alemanha"

"Todos os governos da Alemanha e todos os chanceleres alemães que me precederam estiveram comprometidos com a responsabilidade histórica especial da Alemanha em relação à segurança de Israel", disse Merkel, na ocasião. "Essa responsabilidade histórica da Alemanha é parte da razão de Estado do meu país. Isso significa que, para mim, como chanceler alemã, a segurança de Israel jamais será negociável."

Após aquele discurso, o então premiê israelense, Ehud Olmert, definiu Merkel como "uma líder europeia e mundial muito importante e uma grande amiga de Israel".

Quando Heiko Maas assumiu o posto de ministro alemão do Exterior, há cerca de um mês, ele destacou que "foi por causa de Auschwitz que decidi entrar para a política". Depois, Maas incluiu Israel no roteiro de uma de suas primeiras viagens internacionais. Ao se encontrar com o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, em Jerusalém, ele afirmou que o lugar da Alemanha "sempre será ao lado de Israel".

Berlim pode até não ser uma "nova Jerusalém", nem a Alemanha é uma Shangri-lá para israelenses insatisfeitos, como é noticiado às vezes. Mas, segundo o governo alemão, cerca de 33 mil israelenses receberam a cidadania alemã entre 2000 e 2015. A estatística diz muito sobre o progresso feito rumo ao estabelecimento de relações positivas entre a Alemanha e Israel, apesar do peso do passado.

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