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Refugiados no Brasil retornam à Ucrânia em guerra

27 de março de 2023

Mesmo com conflito em andamento, grupo de ucranianos volta ao país natal depois de viver um ano no Brasil por meio de programa organizado por rede de igrejas. Retorno é marcado por apreensão e saudades dos familiares.

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Irina Shevchenko (e.) e Alla Hrechana (d.) sentadas em banco em praça de São José dos Campos e segurando uma bandeira da Ucrânia.
"A guerra é muito assustadora", comenta Alla Hrechana (d.), que voltou para a Ucrânia com a também refugiada Irina Shevchenko (e.) depois de um ano em São José dos Campos. "Eu me apaixonei pelo Brasil, mas o coração está na Ucrânia."Foto: Nádia Pontes/DW

Depois de um ano no Brasil, Irina Shevchenko tem esperança de reencontrar a família na sua volta à Ucrânia. Separada do marido nesse período, Shevchenko viajou à Europa na última semana, mas não sabe exatamente quando irá à cidade de onde partiu.

As notícias que ela tem são que Kharkiv, grande centro urbano no noroeste da Ucrânia, foi fortemente atingido pelos ataques mais recentes de foguetes russos. A comunicação com os que ficaram lá por vezes era interrompida por dias devido aos bombardeios e cortes de energia.

"Desejo voltar, meu marido está lá. Eu espero que essa guerra acabe logo. Mas não devo voltar agora para a minha cidade", disse à DW dias antes de embarcar rumo à Polônia.

Shevchenko e seus dois filhos chegaram ao Brasil por meio de um programa da Global Kingdom Partnerships Network, GKPN, uma rede internacional formada por 105 mil igrejas de 108 países.

Com duração prevista de um ano, a iniciativa trouxe cerca de 270 ucranianos ao país. Shevchenko e outros 33 refugiados foram encaminhados a São José dos Campos, interior de São Paulo. Sete ainda permanecem na cidade sem data de retorno.

Com o mapa do Brasil pendurado no pescoço como um pingente, Alla Hrechana diz ter perdido muitos amigos, jovens que lutaram no front da guerra, iniciada em 24 de fevereiro de 2022.

"A guerra é muito assustadora", comenta Hrechana durante a entrevista concedida à DW, numa manhã ensolarada. "Eu me apaixonei pelo Brasil, mas o coração está na Ucrânia com toda minha família e com meu marido", explica.

Com o encerramento do programa da GKPN, Hrechana optou pelo retorno ao seu país de origem. "O Brasil, um país que eu não conhecia, tão distante, mostrou para nós o que é o amor e nos recebeu. Um país que nós tínhamos como irmão, que nasceu junto com a Ucrânia, está nos mostrando o oposto", comenta sobre o conflito iniciado pela Rússia.

Quem decide ficar

Quem faz a tradução durante a entrevista é Gilmar Tadeu, pastor e treinador de futebol. Nascido em São Paulo, ele vivia na Ucrânia há quinze anos quando a Rússia invadiu o território em 2022. Ele tem o desejo de voltar ao país europeu, mas não sabe quando.

"Parte do meu coração está lá. Sou casado com uma ucraniana, um filho nasceu lá, meu sogros, cunhados estão lá", justifica, adicionando que, nesse meio tempo, a família cresceu – o casal teve um outro filho no Brasil.

Levado ao país europeu pela profissão de futebol, ele permaneceu num clube em Lviv até a guerra estourar. Em São José dos Campos, Tadeu, fluente em russo, ficou próximo aos refugiados para auxiliar também no cotidiano.

O pastor e treinador de futebol Gilmar Tadeu segura bandeira da Ucrânia em praça em São José dos Campos (SP).
Gilmar Tadeu, pastor e treinador de futebol, vivia na Ucrânia há 15 anos quando a Rússia invadiu o país, em 24 de fevereiro de 2022.Foto: Nádia Pontes/DW

"Todos foram alocados no mesmo bairro, em apartamentos alugados e custeados pelos parceiros do programa. Eu ajudo com o idioma, eles estudaram português, mas não conseguem falar ainda, então usamos o russo. E ajudo também com questões referentes à cultura da vida brasileira", afirma Tadeu.

Além da família do treinador, cerca de 30 ucranianos que chegaram ao país em 2022 via GKPN decidiram ficar. "A maioria está no estado do Paraná. Mas os refugiados que trouxemos também foram para Minas Gerais, além de São Paulo", diz à DW Elias Dantas, pastor fundador da rede internacional.

Ucranianos em fuga

Dados da Agência das Nações Unidas para Refugiados, Acnur, indicam que 8,1 milhões de ucranianos buscaram refúgio em países europeus desde o início da guerra. A estimativa é que 5 milhões estejam desabrigados dentro da Ucrânia.

No Brasil, o Ministério da Justiça informou à DW que recebeu 24 solicitações de refúgio de ucranianos no último ano. Dessas, três foram arquivadas por não comparecimento à entrevista; nove foram reconhecidas e 12 seguem em análise.

Segundo Elias Dantas, todas pessoas trazidas ao Brasil pelo programa da GKPN tinham a documentação em dia, inclusive autorização para trabalhar. "Todo esse trabalho foi feito em coordenação com o Itamaraty, as embaixadas na Polônia e da Ucrânia no Brasil", detalha Dantas à DW.

A iniciativa teria levado cerca de 74 mil refugiados do país invadido pela Rússia a vizinhos europeus como Polônia, Escócia, Suíça, Itália e Portugal, afirma Dantas.

Futuro convívio problemático

Irina Shevchenko diz que deixa o Brasil impressionada com o acolhimento que recebeu. "Vim para um país desconhecido, que tem uma mentalidade mais aberta e foi muito bom", afirma.

No período, os filhos, de 15 e 12 anos, frequentaram a escola. A filha mais velha conheceu seu primeiro namorado no Brasil e disse à mãe que não queria ir embora. Já o caçula teve mais dificuldades de aprender português e sentia muita saudade dos familiares.

Alla Hrechana chegou ao Brasil com duas filhas e duas netas. A mais velha, de 32 anos, retornou à Ucrânia há alguns meses para reencontrar o marido na cidade de Poltava, mais distante do conflito com os russos. Agora o restante da família está a caminho.

Ela se diz ansiosa para rever o marido, que permaneceu em Poltava e participou em alguns trabalhos do Exército, ajudando a manter a segurança da cidade. As sirenes, diz ela, sempre tocam avisando sobre o risco de dia e de noite.

Ansiosa pelo fim da guerra, Hrechana admite que o futuro convívio com os russos será difícil. "A nossa região sempre recebia russos, era sempre alegre, sentávamos à mesa juntos para comer. Quando a guerra acabar, não sabemos como será", declara.

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