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Ratzinger (e): braço direito de João Paulo IIFoto: dpa

Ratzinger "pode ser o próximo papa"

Geraldo Hoffmann
25 de março de 2005

Influência do cardeal alemão aumenta com a debilidade da saúde de João Paulo II, que, pela primeira vez em seu pontificado, não participa das cerimônias da Semana Santa.

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A ausência do papa João Paulo II nas cerimônias da Semana Santa reativou as especulações sobre seu estado de saúde e sua possível sucessão. Em entrevista à Rádio Vaticano, nesta quinta-feira (24/03), o cardeal alemão Joseph Ratzinger, garantiu que, "apesar das dores corporais, o papa trabalha com absoluta clareza de espírito e continua liderando a Igreja Católica. Ele sente uma responsabilidade única que só Deus lhe pode tirar".

As declarações de Ratzinger, considerado o braço direito de João Paulo II, são interpretadas pela mídia européia como tentativa de tranqüilizar os católicos, cada vez mais preocupados com o estado de saúde do papa. A Igreja Católica alemã reza para que João Paulo II se recupere e ainda possa participar da Jornada Mundial da Juventude, de 16 a 21 de agosto de 2005, em Colônia.

Quebra de tabu

Kardinal Angelo Sodano
Cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado do VaticanoFoto: dpa

Houve um tempo (no papado de Bonifácio III) em que era ameaçado de excomunhão quem se aventurasse a especular sobre a sucessão papal. Há três anos, no entanto, o próprio Ratzinger, prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício), quebrou um tabu ainda maior, ao se tornar o primeiro importante clérigo a falar em uma possível renúncia do papa.

Um repórter de um jornal religioso de Munique perguntou se Ratzinger sabia o que o papa pensava sobre um eventual recolhimento. "Eu ainda não lhe perguntei nada sobre isso, mas, se ele percebesse que não poderia absolutamente [continuar], com certeza ele renunciaria", disse o cardeal em maio de 2002.

À medida em que diminuem as aparições públicas de João Paulo II, após a recente traqueostomia (operação na garganta), aumenta o número de clérigos e críticos da Igreja que pedem abertamente a renúncia do papa. O teólogo alemão Hans Küng, por exemplo, considera que a Igreja Católica se encontra em uma "profunda crise, causada pela ausência física do papa enfermo e aparentemente sem poder de decisão".

Líder dos papáveis?

Kardinal Giovanni Battista Re
O cardeal Giovanni Battista Re comanda quatro mil bispos católicosFoto: AP

O poder no Vaticano – dizem os observadores - na atual situação é exercido por um quarteto de cardeais: Ratzinger e os italianos Angelo Sodano (secretário de Estado), Giovanni Battista Re (prefeito da Congregação para os Bispos – ao todo, quatro mil) e Camillo Ruini (vigário de Roma).

O vaticanista John L. Allen Jr, colaborador do jornal The New York Times, autor do livro Conclave (Editora Record) e da biografia Cardinal Ratzinger: The Vatican's Enforcer of the Faith (Cardeal Ratzinger: O Defensor da Fé do Vaticano), inclui o clérigo alemão numa lista de 19 cardeais que considera papabili, entre eles, também o arcebispo de São Paulo, dom Cláudio Hummes.

Kardinal Camillo Ruini
Cardeal Camillo Ruini, vigário de RomaFoto: AP

Dependendo da fonte, Ratzinger até lidera a lista dos "candidatos" à sucessão de João Paulo II, seguido por cardeais latino-americanos, como os colombianos Dario Castrillón Hoyos (prefeito do Clero) e Alfonso López Trujillo (prefeito do Conselho Pontifício para a Família), e o mexicano Javier Lozano Barragán, que preside a área de Pastoral.

"Conservador cordial"

Joseph Ratzinger nasceu em Marktl, na diocese alemã de Passau, em 16 de abril de 1927. Recebeu a ordenação sacerdotal em 29 de junho de 1951, a episcopal em 1977 e, no mesmo ano, foi nomeado cardeal no consistório convocado por Paulo VI. Sob João Paulo II, tornou-se um dos homens mais influentes do Vaticano. Ele personifica a voz da ortodoxia católica, sendo conhecido no Brasil, sobretudo, como adversário da Teologia da Libertação.

Kardinal Joseph Ratzinger
Cardeal Joseph Ratzinger: "conservador cordial"Foto: AP

Segundo Stefan Kempis, da Rádio Vaticano, a imagem do cardeal como "clérigo conservador, reservado e até frio não corresponde à sua cordialidade e até calor humano que mostra às pessoas que trabalham com ele ou o visitam". "Em um conclave, Ratzinger obteria a maioria dos votos na primeira votação", disse o chefe da redação alemã da Radio Vaticano, padre Ebehard von Gemmingen, em entrevista à DW-WORLD.

Diante da longa duração do papado de João Paulo II, não são poucos os que desejam um pontificado mais curto para seu sucessor. Como o cargo de papa é vitalício, uma opção para um pontificado mais curto seria eleger um cardeal idoso, um critério que favoreceria Ratzinger, com 77 anos de idade. Segundo a revista Time, caso fosse eleito, o cardeal alemão estaria disposto a "renunciar ao cargo depois de um tempo prudente, quando ainda estivesse com plenas faculdades". Isso, sim, seria uma revolução na Igreja Católica.