″PSDB errou ao se omitir em momentos cruciais da história recente″, diz Bruno Covas | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 17.02.2020

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Entrevista

"PSDB errou ao se omitir em momentos cruciais da história recente", diz Bruno Covas

Prefeito de São Paulo afirma que tucanos falharam ao não jogar luz no caso Aécio Neves, cuja permanência no partido lhe incomoda. Para Covas, PSDB deve focar parcerias com setor privado e redução da desigualdade.

Bruno Covas, prefeito de São Paulo

Diagnosticado com câncer, Brunos Covas mantém atividades profissionais enquanto se submete ao tratamento

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, de 39 anos, é hoje um dos tucanos que tentam renovar a imagem do PSDB como legenda de centro viável, em busca do espaço entre a extrema direita de Jair Bolsonaro e a centro-esquerda liderada pelo PT.

Após ter recebido apenas 4,8% dos votos na eleição presidencial de 2018 e ver sua bancada na Câmara encolher de 49 para 29 deputados, o PSDB se debate entre migrar à direita para aproveitar a onda Bolsonaro, como fez o governador de São Paulo, João Doria, ou investir no centro, como faz outro líder tucano jovem, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, de 34 anos.

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Alçado ao comando de uma cidade com 12,2 milhões de habitantes após a renúncia de Doria para disputar o governo estadual, Covas busca construir uma imagem de moderação e articula sua campanha à reeleição em outubro.

Em entrevista concedida à DW Brasil no seu gabinete na última sexta-feira (14/02), ele afirmou que o PSDB precisa ter um discurso "firme" de parceria com o setor privado, ao mesmo tempo em que foca a "redução da desigualdade social".

Enquanto o atual governador fez campanha no segundo turno de 2018 com o slogan "BolsoDoria", Covas declarou ter votado nulo para presidente, e em janeiro a prefeitura organizou um festival em oposição à política cultural do governo federal.

Quando o assunto é a participação do PSDB na queda da ex-presidente Dilma Rousseff, o prefeito paulistano diz que seu partido não errou ao questionar o resultado das urnas na eleição presidencial de 2014 nem ao assumir o protagonismo do impeachment ou embarcar no governo de Michel Temer. Mas afirma que a legenda errou ao não se afastar da gestão do peemedebista quando escândalos de corrupção vieram à tona e, especialmente, ao não expulsar o então senador e presidente do partido Aécio Neves após ele ter sido flagrado em áudio pedindo dinheiro ao dono da JBS, Joesley Batista.

Questionado sobre a gestão Bolsonaro, ele avalia que as posições de extrema direita do presidente atrapalham a aprovação de reformas, mas não enfraquecem as instituições democráticas.

O prefeito também anuncia que São Paulo terá, a partir de junho, um plano de adaptação às mudanças climáticas com a meta de tornar a cidade neutra na emissão de carbono até 2050 – como já fizeram outras grandes cidades do mundo, como Londres e Boston.

Diagnosticado em outubro de 2019 com um câncer no sistema digestivo, Covas mantém as atividades profissionais enquanto se submete ao tratamento, e neste mês concluiu as oito sessões de quimioterapia previstas. Nesta terça-feira, será internado para realizar uma bateria de exames, que indicarão a evolução do tumor e se será necessário realizar cirurgia.

DW Brasil: Como o senhor avalia o governo Bolsonaro?

Bruno Covas: Se tem uma coisa de que não podemos acusar Bolsonaro é estelionato eleitoral. Ele faz aquilo que sempre defendeu e acreditou, questões que me levaram, inclusive, a não votar nele. Dizer que não houve ditadura, que índio [daqui] mais um pouco vira gente. Posições que não permitiram que o país avançasse mais nas reformas. Espero que, pelo menos do ponto de vista econômico, o país possa avançar. Mas que essa agenda mais conservadora seja barrada pelo Congresso, como tem sido.

Há um debate entre acadêmicos e políticos sobre se Bolsonaro está enfraquecendo as instituições democráticas. Qual a sua opinião?

Acho que ele não consegue fazer isso. As instituições da Constituição de 1988 estão bem firmes, e mesmo que possam sofrer discursos contrários de um ou outro membro do governo, você não vê redução do papel do Congresso. Muito pelo contrário, esse papel está muito mais ativo do que já esteve, [assim como] o Supremo [Tribunal Federal] e o Ministério Público.

Quais são os princípios norteadores do PSDB hoje?

O PSDB precisa ter um discurso cada vez mais firme de parceria com o setor privado. Isso não é novidade, em 1989, na candidatura presidencial, o então senador Mário Covas [avô do prefeito] propôs um choque de capitalismo. No governo Fernando Henrique, foi a privatização da telefonia que democratizou o acesso à informação. Aqui no estado de São Paulo, teve a concessão das rodovias e a parceria na administração dos hospitais.

Esse tipo de parceria para que o governo possa focar o que é o essencial, que é a redução da desigualdade social e políticas na área da educação, saúde, cultura, esporte, habitação. Temos que deixar clara a nossa diferença com a esquerda clássica, que não acredita na parceria com o setor privado e acha que tudo tem que ser público, e com a direita clássica, que entende que o papel do Estado é basicamente preservar a segurança e não ter outro tipo de política social.

Nesse espectro, onde o senhor se considera em relação a João Dória?

Me considero um político de centro, não mais ou menos do que A, B ou C.

Qual a sua avaliação sobre o protagonismo do PSDB no impeachment de Dilma e a participação do partido no governo Temer?

Não vejo nenhum grande problema nas duas questões. O impeachment era um clamor popular, as pessoas foram às ruas pedir isso, e como responsável pelo impeachment o partido precisava ajudar o governo Temer. Mas errou na hora que não soube desembarcar do governo quando ele se mostrou vinculado às mesmas políticas de formação de maioria e uso da máquina pública que tinham no governo do PT.

Os principais erros do PSDB se devem, especialmente, às omissões que o partido teve em momentos cruciais da história recente. A pior omissão do partido é não jogar luz no caso do Aécio Neves, pego em um áudio pedindo dinheiro ao dono da JBS.

Logo após a eleição de 2014, Aécio, então presidente do PSDB e candidato derrotado na disputa pelo Palácio do Planalto, questionou o resultado das urnas e pediu uma auditoria. Como o senhor avalia essa decisão do partido?

Acho que isso não influenciou em nada para a população. Questionar, levar à frente qualquer tipo de dúvida que você tenha, não tem nenhum problema.

Como o senhor avalia permanência de Aécio no PSDB até hoje?

Um incômodo. Fico muito incomodado de estar no mesmo partido que Aécio Neves.

O PSDB está no governo estadual há 25 anos, tirando duas exceções de menos de um ano, quando vices assumiram. No último dia 3 de fevereiro, ao falar sobre as enchentes, o vice-governador Rodrigo Garcia (DEM) mencionou que o governo paulista estava trabalhando para "resolver parte do problema que nós herdamos". Qual é o grau de responsabilidade da classe política sobre o caos provocado pelas enchentes da semana passada?

Sobre o governo do estado, pergunte ao governador João Dória. Na prefeitura, a gente fez tudo que estava ao nosso alcance. No ano passado, gastamos 85% do previsto, um orçamento de 681 milhões de reais. Entregamos oito novos piscinões e vamos entregar mais cinco. E nenhum piscinão transbordou na cidade [durante a última enchente].

Há quem argumente que a intensidade dessas chuvas está relacionada às mudanças climáticas. Está nos seus planos estabelecer uma meta global para reduzir ou zerar a emissão de carbono em São Paulo?

Em 5 de junho, Dia do Meio Ambiente, devemos lançar o Plano Municipal de Mudanças Climáticas, com a expectativa de zerar as emissões até 2050. Aqui, um dos principais focos é o setor de transportes: em torno de 60% das emissões são derivadas desse setor. E a grande responsabilidade do município são os ônibus, um terço dos deslocamentos na cidade são feitos de ônibus, é a maior frota de ônibus do planeta. Grandes cidades têm uma rede de trem e metrô muito maior do que a de São Paulo. No ano passado, assinamos um novo contrato [do setor de transporte], estabelecendo a necessidade de redução de 50% das emissões de CO2 [de origem fóssil] em dez anos, e depois de vinte anos zerar essas emissões no setor de transporte de ônibus.

Pesquisa Ibope divulgada em janeiro apontou que a violência é a principal preocupação do paulistano. Segurança pública é uma competência estadual, mas o poder municipal é o mais próximo da população. O que o senhor faz para reduzir esse problema?

São três ações. A primeira são ações conjuntas da Guarda Civil Metropolitana com a polícia estadual – só para ter uma noção, por fim de semana são 200 ações para conter pancadão na cidade. Iluminação pública é outra. Depois de inúmeros anos de idas e vindas, assinamos a PPP [Parceria Público-Privada] da iluminação e a prioridade de ruas iluminadas, que são onde estão os focos de violência. E a terceira ação é câmera, vigilância e monitoramento. Já são mais de três mil câmeras da prefeitura, e todos os dados são compartilhados com o governo do estado.

Qual é o principal problema do Brasil e o que o senhor faria para reduzi-lo?

Hoje é a falta de crescimento econômico, que está gerando ainda mais desigualdade, cujo custo social quem paga são os municípios. Aqui na cidade explodiu em 50% o número de moradores de rua, e aumentou a quantidade de pessoas que tinham plano de saúde e hoje dependem exclusivamente do SUS. O país deveria aprofundar as reformas, recuperar a credibilidade e reduzir a relação dívida/PIB, para que possa voltar a ter investimento. E aplicar a Lei de Responsabilidade Fiscal também ao governo federal.

Como está o seu tratamento contra o câncer, e isso impactou o modo como o senhor vê a atividade política?

Fiz as oito sessões de quimioterapias da primeira e segunda etapas do tratamento. Na próxima semana [18 e 19 de fevereiro], me interno para uma nova bateria de exames e decidir a terceira etapa do tratamento. Tenho respondido bem à quimioterapia, um dos oncologistas que me atende disse que é a primeira vez que não teve que diminuir a dosagem durante as oito sessões, normalmente se diminui porque o paciente não aguenta – em cada sessão foram 30 horas de quimioterapia.

O inaceitável é que, por eu ter um plano de saúde, tenho um atendimento com agilidade, e as pessoas que não têm plano de saúde às vezes ficam dias esperando. Por isso lançamos o Corujão do Câncer, para poder zerar a fila tanto dos exames preventivos quanto do que é responsabilidade do município no atendimento.

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