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TeatroAlemanha

"Primeiro a barriga, depois a moral": a atualidade de Brecht

Augusto Valente
14 de agosto de 2006

De 14 de agosto de 1956 até hoje muita coisa aconteceu: novas guerras, fim do bloco comunista, novos "ismos". Será que a poeira cobriu de vez a obra deste autor? Uma seleção de citações brechtianas, para conferir.

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Bertolt Brecht
"O que é o assalto a um banco comparado à fundação de um banco?" é uma das mais famosas citações de BrechtFoto: picture-alliance/akg

O que nos ensinou este mais de meio século sem/com Bertolt Brecht? A simples menção a seu nome ainda evoca conceitos intimidadores: "dialética", "técnica de distanciamento", "teatro didático", "épico" ou, pior ainda, "arte engajada". Uma bagagem incômoda, para quem só queria uma noite divertida no teatro.

Parte da culpa cabe ao próprio Brecht. A certa altura de sua trajetória, ele considerou importante teorizar sobre seu trabalho no palco, e teoria assusta os pobres mortais. O autor jamais escondeu que boa parte de suas inovações eram, na realidade, revisões (revisitações!) de momentos anteriores do teatro, pré-realismo, pré-Stanislavski.

Afinal, o palco elisabetano já ostentava refinadas "técnicas de distanciamento", assim como a commedia dell'arte, a ópera de Pequim e o nô japonês, todas estas fontes de inspiração declaradas para Brecht. Um fato que não torna menos inovadoras e geniais as conseqüências que o dramaturgo alemão tirou dessas "velhas" formas, o modo como soube instrumentalizá-las para seus fins.

"A coisa não é tão séria assim"

Não obstante, o rótulo de "revolucionário" – com todo o potencial de "difícil", "hermético", "sério demais", "inteligente demais" que implica – paira como uma maldição sobre a obra brechtiana. "Materialista" e "marxista" tampouco soam especialmente convidativos. Afinal, quanto de política, idéias, mensagem, agitação, doutrinação há em Brecht, e quanto de arte?

Jan Knopf, um de seus principais estudiosos, afirma: "Durante toda a vida o supostamente tão político Brecht esteve mais ocupado com seu impacto artístico e como se impor em público do que com política". Embora crítico social, ele nunca quis se comprometer com uma determinada visão de mundo, afirma o professor de Literatura.

Numa conversa com o filósofo Walter Benjamin, o dramaturgo em pessoa confessou: "Muitas vezes imagino um tribunal me interrogando. 'Como é, então? O senhor leva a coisa mesmo a sério?' Aí tenho que reconhecer: não é tão sério assim. Penso demais no lado artístico, no que é bom para o teatro. Então não posso estar levando a coisa tão a sério assim".

Em seus últimos anos, na Alemanha comunista, à frente do recém-fundado Berliner Ensemble, ele reduziu o tempo para discussões a apenas três minutos, no espaço de duas semanas de ensaios. Em se tratando de teatro, Brecht estava mais disposto a fazer do que a refletir e teorizar.

Um nosso contemporâneo

Tudo isso dito, é inegável que a maior parcela da obra brechtiana, cênica e lírica, é voltada a comunicar conteúdos e incitar mudanças. Brecht se indigna, delata injustiças, exploração e guerra, critica políticos e poderosos. Mas também confessa a dificuldade de sincronizar intenções e atos, de se comunicar, fala de auto-enganos e equívocos, fala do humano, demasiadamente humano.

Brecht é comovente, cômico, poético, grotesco, compreensivo, agridoce, cruel. Seu leitor precisa estar preparado para a ironia. Em vez de bradar ultraje e fornecer fórmulas mágicas, faz parte da dialética brechtiana adotar o discurso mesmo do inimigo, expondo as contradições de dentro para fora. Isso torna os vilões brechtianos tão eloqüentes e sedutores: cabe ao espectador separar o joio do trigo.

Lidas em voz alta, certas passagens soam surpreendentemente contemporâneas. Mais do que nunca, em nossos tempos de liberalismo selvagem, em que a mentira e o impensável ocupam os noticiários dia após dia, em que guerra e miséria (dos outros) ameaçam tornar-se normalidade. Onde em Brecht o contexto era europeu, leia-se global; onde havia referência a uma ditadura, pensemos em outra, exótica ou assustadoramente próxima.

Diga-se o que disser, Bertolt Brecht se encontra longe de estar obsoleto. E boa parte da culpa é nossa. Com a palavra, o dramaturgo e poeta.

Passagens selecionadas da obra brechtiana

Certezas

O que é seguro não é seguro/ Assim como está, não permanece.
(A mãe)

Entre as coisas certas/ O que há de certo é a dúvida.
(Homem é homem)

Corrupção

O que é um pé-de-cabra comparado a uma ação da bolsa? O que é o assalto a um banco comparado à fundação de um banco?

Pois alguns estão no escuro/ E os outros na luz/ E vemos os que estão na luz/ Quem está no escuro, não se vê.
(A Ópera dos Três Vinténs)

"Democracia" da Alemanha Oriental

Não seria/ Tão mais fácil, se o governo/ Dissolvesse o povo e/ Elegesse um outro?
(A solução)

(Des)obediência

General, o homem é muito útil/ Ele sabe voar e sabe matar/ Mas tem um defeito:/ Ele sabe pensar.

Os de cima dizem:/ Rumo à glória/ Os de baixo dizem:/ Rumo à cova.
(Cartilha alemã da guerra 1937)

Vocês, que amam a própria pança e nossa obediência/ Aprendam de uma vez por todas/ Como quer que virem e torçam/ Primeiro vem a barriga, depois vem a moral/ Primeiro é preciso também os pobres/ Terem a sua fatia do grande pão.
(A Ópera dos Três Vinténs)

Quem diz "a" não precisa dizer "b". Ele pode também reconhecer que "a" estava errado.
(Aquele que diz sim, aquele que diz não)

Deus

Numa tarde cinzenta/ Em meio ao uísque/ Deus chegou a Mahagonny/ Em meio ao uísque/ Notamos Deus em Mahagonny.
(Ascensão e queda da cidade Mahagonny)

Guerra

Vê-se que já faz tempo demais sem uma guerra por aqui. De onde vai vir a moral, pergunto eu? A paz é farra pura, só a guerra traz a ordem. [...] Como tudo o que é bom, também a guerra é difícil de fazer, no início. Mas também quando floresce, ela é resistente; aí as pessoas fogem da paz, como um apostador do fim de seu vício, pois é chegada a hora de contar o que se perdeu. Mas no começo fogem da guerra. É algo de novo para elas.

Então tua guerra deve comer os caroços e cuspir a pêra? Tua cria deve engordar na guerra, sem pagar juros? A guerra que veja como se vira, não é? Teu nome é Coragem, hein? E tens medo da guerra, teu ganha-pão?

Não vou deixar que vocês estraguem a minha guerra. Dizem que ela extermina os fracos, mas na paz eles também estão perdidos. Só que a guerra alimenta melhor nossa gente.

A guerra não é nada além de um negócio/ E em vez de queijo, é com chumbo.
(Mãe Coragem e seus filhos)

As pessoas que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue./ Pode-se ver isso nas mãos depois.
(Os fuzis da senhora Carrar)

Heroísmo

Infeliz a nação que não tem heróis... Não. Infeliz a nação que precisa de heróis.
(A vida de Galileu)

Impaciência

Não gosto de estar lá de onde venho./ Não gosto de estar aonde eu vou./ Por que observo a troca do pneu/ Com impaciência?
(A troca do pneu)

Da insuficiência dos esforços humanos

O homem vive pela cabeça/ A cabeça não lhe basta/ Experimenta só, de tua cabeça/ Vive no máximo um piolho./ [...] Sim, corre atrás da sorte/ Mas não corras demais!/ Pois todos correm atrás da sorte/ E a sorte vem correndo atrás./ [...] Pois para esta vida/ O homem não é bom que baste/ Portanto dá-lhe mesmo/ Na cabeça, com vontade.
(A Ópera dos Três Vinténs)

Medo

Não temas tanto a morte, mas sim a vida sem significado!
(A mãe)

Mudanças

Só tendo com a realidade como mestra podemos/ Mudar a realidade.
(A medida)

Objetividade

Na semana passada você achou perfeitamente objetivo que a percentagem dos cientistas judeus não seja tão grande assim. É sempre com a objetividade que tudo começa.
(Terror e miséria do Terceiro Reich)

Otimismo

Prezado Público, não te aborreças:/ Bem sabemos que esta não é uma conclusão que preste./ [...] Nós mesmos estamos desapontados e vemos consternados/ A cortina fechada e as perguntas todas em aberto./ [...] A única saída deste aperto seria/ Tu mesmo pensares, aqui e agora,/ De que maneira se pode ajudar a alma boa/ A chegar a um final feliz/ Prezado Público, vai, procura tu mesmo a conclusão!/ Tem que haver uma boa, tem, tem, tem que haver!
(A alma boa de Setsuan)

Pátria

Oh Alemanha, pálida mãe/ Como sentas imunda entre os povos/ Entre os maculados/ Chamas a atenção.

Que outros falem/ De sua vergonha, eu falo da minha.
(Alemanha)

Não poupem graça nem esforços/ Nem paixão nem raciocínio/ Para que uma boa Alemanha floresça/ Como um outro país bom.
(Hino infantil)

Poesia, para quê?

Em mim lutam/ O entusiasmo pela macieira em flor/ E o pavor com os discursos do pintor de paredes/ Mas só este último/ Me impele à escrivaninha.
(Maus tempos para poesia)

De fato, vivo em tempos obscuros!/ A palavra inocente é tola. Uma testa lisa/ Demonstra insensibilidade. Aquele que ri/ Ainda não recebeu/ A terrível notícia.

Que tempos são estes, onde/ Uma conversa sobre árvores é quase um crime/ Por incluir um silêncio sobre tantos delitos!
(Aos que vão nascer)

Prazer e vício

Não sejam tão preguiçosos e molengas,/ Pois, por Deus, gozar não é fácil!

Todos os vícios servem para algo/ E o homem também, diz Baal, que os pratica/ Os vícios são úteis, quando se sabe o que quer/ Escolham dois: um é demais!
(Baal)

Dinheiro faz ficar sensual.
(Ascensão e queda da cidade Mahagonny)

Retaliação

Só a violência ajuda, onde reina a violência e/ Só os homens ajudam, onde há homens.
(Santa Joana dos Matadouros)

E no entanto sabemos:/ Também o ódio contra a baixeza/ Deforma as feições.
(Aos que vão nascer)

Solidariedade

Em frente e não esqueçam/ Onde está nossa força!/ Na fome e na fartura/ Em frente e não esqueçam/ A solidariedade.
(Canção da solidariedade)

Ao teu lado alguém tem sede: fecha depressa os olhos!/ Tapa teu ouvido: alguém geme junto a ti!/ Detém o teu pé! pois te pedem ajuda!/ Ai de quem se deixa levar! Ele/ Dá de beber a um homem, e/ Quem bebe é um lobo.
(A exceção e a regra)

Pois de que vive o homem?/ De – hora a hora –/ Torturar o homem, explorar, atacar, sufocar e devorá-lo/ O homem só vive de, tão inteiramente,/ Conseguir esquecer que afinal ele é um homem.
(A Ópera dos Três Vinténs)

Pois toda criatura precisa da ajuda de todos.
(Sobre a infanticida Marie Farrar)

Pois como se faz a cama, assim se deita/ Ninguém cobre o outro/ E se alguém chuta, sou eu/ E se alguém é chutado, és tu.
(Ascensão e queda da cidade Mahagonny)

Verdade

Toma cuidado ao atravessares a Alemanha levando a verdade debaixo da camisa.

Com a verdade no saco/ A língua na bochecha/ Ele se calou oito anos, e aí perdeu a paciência./ Verdade, segue o teu caminho.

Quando a verdade é fraca demais para se defender, ela precisa partir para o ataque.
(A vida de Galileu)