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Feira do Livro de Frankfurt
Presença de livrereiros de ultradireita já havia causado controvérsia em 2017Foto: Sebastian Gollnow/dpa/picture alliance

Editora de ultradireita na Feira de Frankfurt gera polêmica

Sabine Oelze
21 de outubro de 2021

Autores cancelam participação no tradicional evento do mercado editorial devido à presença de extremistas. Direção da Feira do Livro rejeita alegações e diz que defende liberdade de expressão.

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O diretor da Feira do Livro de Frankfurt, Jürgen Boos, invocou a liberdade de expressão em declarações na quarta-feira (20/10) ao defender a participação da editora alemã Jungeuropa no evento, considerado o maior encontro do mercado editorial do mundo.

A Jungeuropa, que montou seu estande no Hall 3.1 da feira, tem sede em Dresden e é dirigida pelo ultradireitista Philip Stein. Atualmente, ele é responsável pelo grupo "Um por cento pelo nosso país", que propaga ideias nacionalistas e contra a presença de refugiados na Alemanha.

Atualmente, o acesso ao "Um por cento" está bloqueado no Facebook, Instagram e YouTube. Um relatório do Departamento de Proteção à Constituição da Alemanha apontou evidências de intenções inconstitucionais por parte do grupo.

Stein também já participou de eventos que reuniram neofacistas na Itália. Sua editora costuma republicar títulos de autores ultranacionalistas ou extremistas, como os colaboracionistas fascistas franceses Pierre Drieu la Rochelle (1893-1945) e Robert Brasillach (1909-1945).

O ultradireitista Philip Stein
O ultradireitista Philip SteinFoto: picture alliance/dpa/M. Reichel

Nem todos concordam com a opinião do diretor Boos, sobre liberdade de expressão. É o caso da autora negra Jasmina Kuhnke, que cancelou a participação na ARD Book Night, na qual planejava apresentar seu romance de estreia Schwarzes Herz (Coração negro). No Twitter, ela expressou indignação com a forma como a questão foi abordada pela direção da feira.

"Não há espaço para nazistas perto de mim, e é por isso que não participarei da feira deste ano", escreveu Kuhnke, antes do início do evento em Frankfurt nesta semana.

A escritora alemã disse que a emissora pública ARD a convidou para um painel de discussão que não foi anunciado com antecedência porque só poderia acontecer com medidas de proteção, como resultado de "ameaças da direita". Ela também descobriu que a Jungeuropa iria expor livros não muito longe do palco.

A escritora Jasmina Kuhnke
A escritora Jasmina Kuhnke: "Não falo com nazistas. Não ouço nazistas. Não leio livros de nazistas"Foto: Marvin Ruppert

Segundo Kuhnke, Philip Stein já escreveu publicamente que ela deveria ser deportada. Ela também afirma temer que extremistas de direita visitem a Feira do Livro como resultado da participação da Jungeuropa, o que representaria uma ameaça a sua integridade física.

A escritora vem afirmando que dar espaço para nazistas se apresentarem na feira é intolerável. "Não falo com nazistas. Não ouço nazistas. Não leio livros de nazistas", escreveu ela no Twitter. Mesmo que isso signifique menos publicidade para seu livro, ela decidiu cancelar suas aparições na feira, afirmando que tudo o que pode fazer para se proteger como mulher negra é boicotar o evento.

Nenhuma lei violada, diz feira

"Desde que as opiniões não violem nenhuma lei, todos devem poder participar da troca de opiniões na feira", afirmou o diretor Boos à rádio Deutschlandfunk. Ele ainda disse lamentar que Kuhnke tenha abandonado sua participação. "As medidas de segurança na Feira do Livro de Frankfurt são extremamente altas", garantiu.

Ele acrescentou que o encontro do setor editorial sempre foi uma plataforma para o discurso político. "Há brigas por toda parte. Isso faz parte do DNA da Feira do Livro."

Kuhnke, no entanto, disse que estava apenas pressionando por mais segurança, não por censura. "O fato de a Feira do Livro decidir repetidamente permitir que esses extremistas de direita se exibam na feira não é compreensível para mim", afirmou. "Por esse motivo e também porque, como mulher negra, estou ameaçada exatamente por esses extremistas, não tive outra opção a não ser boicotar a feira."

Outros seguem o exemplo

Após a autora cancelar sua participação, outros seguiram o exemplo. Os escritores Nikeata Thompson, Annabelle Mandeng e Riccardo Simonetti anunciaram no Instagram que decidiram não participar mais do evento. Um restaurante também cancelou parceria com a feira.

Já o Centro Educacional Anne Frank em Frankfurt expressou solidariedade a Jasmina Kuhnke. "É um desastre para nossa cultura de debate aberto quando as pessoas afetadas pelo racismo, antissemitismo e misantropia se retiram da Feira do Livro de Frankfurt porque não se sentem seguras lá", disse o diretor da organização, Meron Mendel.

O diretor da Feira de Frankfurt, Jürgen Boos
O diretor da feira, Jürgen BoosFoto: Michael Debets/picture-alliance/Pacific Press

Segundo Mendel, episódios como o atentado de Halle e o assassinato do político Walter Lübcke há dois anos deixaram bem claro que a ideologia venenosa da extrema direita representa um perigo concreto para vidas humanas. Ainda segundo o ativista, dar a eles uma arena em plataformas cívicas proeminentes como a Feira do Livro de Frankfurt "contribui para normalizar e espalhar o ódio".

A participação da editora também repercutiu no meio político. "A Feira do Livro de Frankfurt não deve oferecer um palco a essas editoras, nem mesmo no canto mais distante", disse Michael Müller, porta-voz de política cultural da bancada parlamentar do partido A Esquerda na cidade de Frankfurt, acrescentando que banir Stein da feira não significaria restringir o direito fundamental de liberdade de expressão na Alemanha.

Debate antigo

O debate sobre a participação de editoras de ultradireita na Feira do Livro não é novo. A questão já havia sido abordada na preparação para a edição de 2017. Na ocasião, a Fundação Amadeu Antonio, que atua contra o extremismo de direita, chegou a fazer uma vigília contra a presença do ativista de extrema direita Götz Kubitschek no evento.

As feiras de livros sempre se viram como um lugar de troca e liberdade de opinião. Mas onde traçar a linha entre a liberdade de expressão e o incitamento ao crime? Há quatro anos, o diretor Boos já havia deixado claro que não havia base legal para proibir as editoras de ultradireita.

"Uma ideia não desaparece ao ser banida", disse Boos à DW na época. "Se levarmos a sério a liberdade de expressão, devemos também concedê-la àqueles cujos valores e opiniões não compartilhamos, na verdade, cujas opiniões consideramos perigosas", concordou Heinrich Riethmüller, chefe da Associação Alemã de Editores e Livreiros.

A Feira do Livro de Frankfurt abriu suas portas na quarta-feira ao público empresarial, e a partir de sexta-feira estará aberta ao público geral. O evento termina no domingo, com a entrega do Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão a Tsitsi Dangarembga, escritora zimbabuana de 62 anos.