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Japonesas protestam com banner "Women's Rights are Human Rights"
Japonesas protestam em 2018 em Tóquio por igualdade de gêneroFoto: Shizuo Kambayashi/AP/dpa/picture alliance
Igualdade de direitosJapão

Por que o Japão pontua tão mal na igualdade de gênero?

Julian Ryall
15 de maio de 2022

Desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho impera no país asiático. Nova regra obriga empresas de capital aberto a divulgar número de mulheres em cargos de chefia e salário médio por gênero.

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A agência reguladora do setor financeiro do Japão editou uma nova regra para estimular as empresas a nomearem mais mulheres para cargos de chefia, embora as japonesas estejam divididas sobre se a mudança terá impacto no mundo empresarial do país, dominado pelos homens.     

A Agência de Serviços Financeiros exigirá que as empresas listadas em bolsa divulguem no relatório anual para os acionistas a proporção de mulheres em cargos de chefia. A nova regra afetará cerca de 4 mil empresas e deverá se tornar obrigatória a partir de abril de 2023, no início do próximo ano fiscal.  

As empresas também deverão divulgar a remuneração média por gênero e a proporção de funcionários do sexo masculino que tiram licença para cuidar dos filhos. O objetivo é proporcionar aos investidores uma melhor visão de como as empresas estão se saindo nas métricas de igualdade de gênero.  

População ativa encolhendo

Desde a virada do século, seguidos governos japoneses, cientes da piora dos desequilíbrios estruturais da população e da necessidade de colocar mais mulheres no mercado de trabalho, aprovaram leis destinadas a ajudar as mulheres a permanecerem no emprego e subirem na carreira após terem filhos.

Em 2014, o então primeiro-ministro, Shinzo Abe, chegou ao ponto de dizer que a sua administração faria as mulheres japonesas "brilharem" no local de trabalho, no mundo político e na sociedade em geral.

Essa ambição, no entanto, não se concretizou.  

De acordo com as estatísticas mais recentes divulgadas pelo Fórum Econômico Mundial, o Japão está em 120º entre 156 nações em termos de desigualdade de gênero, muito abaixo de outras nações do G7.

O país também não está cumprindo suas próprias metas. Em 2003, o governo anunciou que queria ver 30% de todos os cargos de gestão ocupados por mulheres até o ano 2020. Estatísticas oficiais divulgadas em 2021, no entanto, revelaram que apenas 13,2% dos gerentes eram mulheres, bem abaixo da média de 30% a 40% registrada em empresas europeias e americanas.  

"Os regulamentos da agência são muito positivos, especialmente considerando que a Keidanren [Federação Empresarial do Japão] está fazendo pedidos semelhantes para seus membros", disse Tsumie Yamaguchi, executiva da organização Rede do Novo Mundo, sediada em Tóquio.

Yamaguchi disse que havia ficado otimista quando primeiros-ministros anteriores anunciaram metas para as mulheres tanto no ambiente de trabalho quanto na esfera política do Japão, mas posteriormente ficou desapontada com a falta de progresso.

Ela responsabiliza os homens, que pertencem a uma sociedade tradicionalmente dominada por eles no país. "O número de homens na política e nos negócios no Japão é muito maior que o de mulheres e esses homens têm um forte desejo de manter seus cargos", disse à DW. 

Lugar na sociedade 

"Historicamente, os homens japoneses eram ensinados por seus pais e pela sociedade que suas responsabilidades estavam fora da família, mas as mulheres eram ensinadas que tinham que ficar em casa e cuidar do lar", disse ela. "Ainda hoje, esse tipo de atitude existe na mente de muitos."  

Chisato Kitanaka, professora de sociologia na Universidade de Hiroshima, concorda que a nova regulamentação da Agência de Serviços Financeiros é um "desenvolvimento positivo", embora tenha chegado tarde.

"O Japão está muito atrasado em relação a outros países desenvolvidos e ainda hoje é raro encontrar uma mulher que seja chefe de departamento ou divisão em uma companhia", disse. 

"As velhas atitudes e estereótipos ainda permanecem em muitos locais de trabalho", afirmou Kitanaka, especialista em temas do local de trabalho. "Muitas empresas não contratam tantas mulheres quanto os homens, mesmo quando elas têm as mesmas qualificações, e são lentas para promovê-las". 

Uma parte do problema é que, apesar de uma lei de 1986 já garantir a igualdade entre os gêneros para acesso ao emprego, a norma não tem punições para as que não cumprirem as regras, apontou.

A única punição para as empresas que ignoram a lei é a divulgação de seu nome, medida destinada a envergonhar as empresas que descumpram as regras. Até hoje, disse Kitanaka, apenas duas empresas tiveram seus nomes divulgados por violar a norma.

Otimismo ou pessimismo? 

E ela não está otimista de uma mudança significativa no horizonte das mulheres japonesas. 

"É difícil mudar as leis, mas é ainda mais difícil mudar as atitudes", disse Kitanaka. "É fácil para os homens nos mundos dos negócios e da política não fazerem nada em vez de fazerem a coisa certa."

Yamaguchi, da Rede Novo Mundo, porém, é mais otimista sobre o futuro. "Sou otimista porque cada vez mais e mais mulheres jovens têm todas as habilidades e instrumentos que precisam para se sair bem em ambientes de negócios, além de trazerem outros atributos para o local de trabalho", disse, acrescentando que "muitas são mais eficientes, por exemplo, do que os homens e acho que os diretores estão começando a reconhecer isso".  

"Mais empresas vão lentamente perceber que ter mulheres em posições de liderança é um benefício para sua organização e vejo as jovens que se formam nas universidades hoje mais otimistas sobre seu futuro."