Periferia francesa pouco mudou, cinco anos após protestos de jovens | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 08.10.2010
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Mundo

Periferia francesa pouco mudou, cinco anos após protestos de jovens

Depois de um acidente fatal, em outubro de 2005, começaram as revoltas dos jovens em Clichy sous Bois, na periferia de Paris, quando foram incendiados milhares de carros. Cinco anos mais tarde, pouco mudou.

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Grades cercam escola de Clichy sous Bois

"É claro que vai haver confusão de novo aqui, o mais tardar quando o novo posto policial for aberto", diz o jovem negro e alto, que quase bate com a cabeça no teto do estúdio de som. Entre suas falas, ele canta, com o jeito de falar dos moradores da periferia, sobre o conflito com os "tiras". E também sobre suas decepções e problemas familiares, num misto de raiva e esperança. Canon, o apelido do jovem de 18 anos, é um dos rappers de Clichy sous Bois.

Em 2005, muitos carros foram incendiados nessa região localizada nos arredores de Paris. Jovens jogaram coquetéis molotov em policiais e atiraram pedras. A polícia, por sua vez, fez uso de violência. O saldo dos tumultos foi nada menos que 4 mortos, 217 policiais feridos, quase 5 mil detenções, mais de 10 mil carros incendiados e 500 edificações danificadas.

O presidente francês Nicolar Sarkozy, que, em 2005, já havia, na condição de ministro do Interior, chamado os jovens das periferias de "escória", perpetuou sua política repressora. E o extremismo de direita ganhou coro contra os imigrantes.

Postos policiais no lugar de empregos

Rapper im Tonstudio

Rapper do Grupo GDH no estúdio de som em Clichy

Sarkozy promete hoje, acima de tudo, segurança. Entre os conjuntos habitacionais decadentes dos anos 1970, foi criado em Clichy um novo posto policial. Algo "que só piora as coisas", segundo Canon.

O governo conservador aboliu o sistema de "policiamento da vizinhança", instalado pelo governo socialista anterior. No lugar de policiais que moravam na região, circulavam de bicicleta pelo bairro e conheciam os jovens que ali vivem pelo nome, agora esses locais são patrulhados pela Polícia Nacional, sob a coordenação da administração de Clichy e de outros bairros da periferia de Paris considerados "difíceis".

"Talvez um pouco complicados, mas completamente normais"

"Quando cantamos rap, pelo menos as pessoas ouvem", dizem Canon e seus amigos. "Quando falamos alguma coisa, isso não interessa a ninguém", reclamam os jovens. Clichy, segundo eles, "é uma cidade como qualquer outra, talvez um pouco mais complicada, mas, no fundo, completamente normal".

Ipek, uma amiga de Canon, por exemplo, acha que tem tudo ali. A moça de 17 anos se incomoda acima de tudo com os preconceitos que os jovens dos banlieues sofrem. A mídia noticia somente a respeito da violência, criminalidade e tumultos. Aí os jornalistas somem de novo.

Ipek quer, para fazer frente a essa situação, tornar-se jornalista. E espera que seus filhos não venham a crescer em Clichy, como ela. "Quero que eles frequentem uma universidade e possam pedir emprego com um endereço que facilite mais as coisas, como um dos bairros centrais de Paris, por exemplo".

Escolas gradeadas

No Colégio Alfred Nobel, em Clichy, que fica bem em frente ao novo posto policial, Ipek vai concluir o ensino médio. A escola é cercada por uma grade de quase três metros de altura, que separa a área escolar da rua. Um segurança controla quem passa pelo estreito portão de entrada.

Straßen im Regen

Tristeza da paisagem colabora com ira dos jovens

A grade serve para proteger a escola da violência de jovens da região, que procuram transpor seus conflitos para dentro do ambiente escolar, explica a diretora. Ela garante que, com exceção desse detalhe, tudo é normal ali. No entanto, a escola de Clichy tem suas peculiaridades: "As crianças daqui têm que ajudar em casa, fazer compras, cuidar dos irmãos. Elas não têm tempo nem espaço para se dedicarem á escola", conta Julia Selge, professora de alemão da escola. Alguns pais ou mães são analfabetos, diz ela.

Clichy é uma comunidade pobre. Os aproximadamente 30 mil habitantes da cidadezinha localizada na periferia norte de Paris têm que sobreviver com uma média de 9 mil euros por ano. A média no país é de 28 mil. Os problemas aumentaram no decorrer dos anos. Na década de 1960, chegaram muitos imigrantes da ex-colônias francesas, em busca de trabalho.

A indústria precisava de mão-de-obra e por isso foram construídos enormes conjuntos habitacionais nos arredores de Paris, pois dentro da cidade os custos com moradia eram muito altos, além da falta de espaço. A ideia era construir o mais rápido e o mais barato possível. No entanto, as novas edificações de então desgastaram-se rapidamente. A infraestrutura não cresceu proporcionalmente ao número de habitantes e faltam hoje centros comerciais, cinemas, teatros e transporte rápido até a região central de Paris.

"A pobreza se alastra como um câncer"

A viagem de Clichy a Paris dura em média uma hora e meia – isso para um trecho inferior a 20 quilômetros. Quem pode, sai da região, enquanto só ficam os mais pobres. "A pobreza se alastra como um câncer na sociedade. O câncer é assim: você passa muito tempo sem percebê-lo, mas, no fim, ele acaba te matando", diz o médico Claude Dilain, prefeito de Clichy.

Nos conjuntos habitacionais decadentes vivem hoje apenas famílias de imigrantes árabes ou africanos, a maioria com vários filhos. Clichy é, assim, uma região de jovens. Metade dos habitantes tem menos de 25 anos e um terço é composto por estrangeiros, ainda que os filhos de imigrantes nascidos na França assumam, pelo menos no papel, a cidadania francesa por ocasião do nascimento.

O rótulo de perdedores está marcado na testa dos moradores dos banlieues. "Muita gente acha que somos criminosos", diz a jovem Linda, de 22 anos. Apesar de ter curso superior completo e algumas especializações, ela não consegue encontrar nem mesmo um estágio.

Na associação Mosaico ela exercita, com outros jovens do bairro, situações de entrevistas para empregos. Os participantes têm três minutos para se apresentar perante uma comissão julgadora. Uma jovem africana do grupo fica tão ansiosa, que não consegue mais abrir a boca. Em prantos, ela interrompe o exercício.

Treinadores experientes comentam o ocorrido e dão dicas para os participantes. "Informem-se detalhadamente na internet a respeito da empresa para a qual vocês estão se candidatando, olhem diretamente para as pessoas que trabalham lá, quando falarem com elas. Tenham autoestima. Vocês têm muito a oferecer", diz Hugue Vanderhague para encorajar os jovens.

Unruhen in Frankreich Clichy

Tumultos em Clichy sous Bois, em outubro de 2005

Vanderhague é executivo em uma multinacional e resolveu, no ano passado, suspender suas atividades por um ano a fim de ajudar jovens em regiões carentes da cidade, acompanhando-os na vida profissional. "Muitos jovens vão ficando nervosos depois de tantas negativas. Eles falam muito de derrotas", diz ele.

O diretor da Associação Mosaico chama-se Said. Seus pais vêm da Argélia. Mesmo assim, ele conseguiu estabelecer-se. "Nunca abdiquei do meu objetivo de estudar administração de empresas. Sempre quis lidar com recursos humanos", conta ele.

Falta reconhecimento

Os jovens dos "bairros carentes" não conhecem as pessoas certas nem se apresentam da forma adequada, analisa Said. "A raiva na periferia vem da decepção. Os jovens se esforçam, trabalham duro, estudam e então só encontram portas fechadas", observa.

Para a cientista social Jacqueline Costa Lascoux, do Centro de Pesquisa Nacional (CRN), falta aos jovens acima de tudo reconhecimento. E como esses jovens já se sentem de qualquer forma rejeitados pela maioria dos franceses, acabam sendo presas fáceis para radicais islâmicos. "Eles prometem o paraíso, dinheiro e reconhecimento".

Autor: Robert Fishman (sv)
Revisão: Carlos Albuquerque

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