Para analistas, abstenção na questão da Líbia na ONU é estratégia política | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 09.04.2011
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Mundo

Para analistas, abstenção na questão da Líbia na ONU é estratégia política

Alemanha, Brasil, China, Índia e Rússia se abstiveram de votar a resolução sobre a Líbia no Conselho de Segurança da ONU. Para especialistas, o motivo dessa tática esconde interesses que vão além do simples pacifismo.

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Conselho de Segurança discute situação na Líbia

A decisão da Rússia e da China de não impedir a resolução da ONU sobre a Líbia através do veto, mas também de não apoiá-la ativamente, lança muitas perguntas sobre as razões dessa abstenção. Para Khattar Abou Diab, cientista político da Universidade de Sorbonne, em Paris, os motivos não têm a ver apenas com pacifismo ou com fidelidade a Kadafi, devido aos muitos negócios lucrativos realizados com o ditador.

O cientista político acha compreensível a atitude da Rússia e da China de, como potências mundiais, não quererem ser arrastadas para um conflito armado. A Índia e o Brasil também não tiveram interesse em se intrometer, explica. "A grande surpresa", disse Abou Diab, "foi a posição alemã. Neste caso, a Alemanha teve uma opinião diferente de seus parceiros França, Reino Unido e EUA"

"A opinião pública alemã teria rejeitado participar de uma nova missão militar em outra parte do mundo, depois do engajamento alemão nos Bálcãs e da atual missão no Afeganistão", diz o especialista.

Ambições imperialistas?

Libanesischer Resolutionsentwurf gegen Libyen

Nawaf Salam, embaixador libanês no Conselho de Segurança, defende resolução da Líbia

O especialista em assuntos islâmicos Udo Steinbach vê sob outra perspectiva a posição dos países abstinentes. "O Brasil quis ficar fora de um conflito, que considera ser em primeira linha ocidental. Os motivos da Rússia e da China seriam, todavia, outros", ressalta Steinbach.

Segundo o especialista, "existe aqui e ali o receio de que o argumento possa ser utilizado para interferir também na Rússia e na China, já que ali também há repressão contra minorias, como no caso do Cáucaso e do Tibete." Além disso, Steinbach acredita que em ambos os países também haja a descrédito de que a operação seja realmente do interesse do povo líbio.

Para Steinbach, Pequim e Moscou desconfiam que existe nesta intervenção uma pulsão imperialista de antigas potências colonialistas no Oriente Médio, principalmente França e Reino Unido, com o apoio dos EUA. Steinbach considera de importância marginal o fato de um interesse econômico poder ter levado à abstenção dos Estados do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China).

Contratos em perigo

O cientista político Abou Diab tem a mesma opinião. Ainda que ele acredite que certo interesse comercial possa estar presente. "Isso não se aplica à Alemanha, que quis boicotar a importação de petróleo líbio desde o início da revolução", explica.

Nessa questão, Alhadi Shallouf tem outro ponto de vista. Ele é advogado e presidente do oposicionista Partido Líbio da Justiça e Democracia. "Com certeza, o motivo por trás dessa abstenção são os contratos que esses Estados fecharam com o governo de Kadafi. Eles temem que tais contratos percam sua validade, caso um novo regime líbio suba ao poder", opina Shallouf.

Interesses econômicos

Mirage 2000 Kampfjet

Antigas potências colonialistas teriam interesses na Líbia, diz especialista

De fato, existem contratos fechados há não muito tempo. Recentemente, a companhia russa Gazprom investiu 117 milhões de euros na Líbia, comprando um terço das ações do gigantesco campo petrolífero "Elefante". Outro exemplo disso está no comércio de armas.

Segundo a revista alemã Der Spiegel, 90% da tecnologia bélica líbia são originados da Rússia. Mas a Alemanha também possui interesses econômicos. O comércio da Alemanha com a Líbia, quinto principal fornecedor de petróleo para Berlim, alcançou o volume de 4,1 bilhões de euros em 2010.

Como potências econômicas famintas por petróleo, China e índia têm, por sua vez, também grande interesse que a região continue estável, fazendo com que o preço do petróleo não dispare e não desaquecendo, portanto, o crescimento de suas economias.

Possível perda de prestígio

Além das supostas preocupações econômicas e geopolíticas, resta saber que repercussão a posição dos países do Bric e da Alemanha pode ter a longo prazo no mundo árabe. Para Udo Steinbach, a resposta para esta pergunta deve ficar, a princípio, em aberto. O curso dos acontecimentos irá mostrar se foi sábia a decisão de não apoiar a campanha militar.

O cientista político Abou Diab acredita, no entanto, que a simpatia dos povos árabes deverá pender, inicialmente, para os rebeldes líbios. "Mas com o envolvimento da Otan", completa Abou Diab, "e com a continuação das batalhas, muitas partes envolvidas chegam à conclusão de que uma intervenção militar poderia não ser a única solução", diz. Por esse motivo, ele acredita que a popularidade dos países que são contra uma ação militar não será afetada a longo prazo.

Da mesma forma, para o oposicionista Shallouf, o prestígio dos críticos e opositores da resolução na Líbia não está em risco. Pelo contrário, uma futura Líbia sem Kadafi irá manter um bom relacionamento com a Rússia, China e Alemanha, porque tais países serão necessários como parceiros da reconstrução democrática e econômica da Líbia. "Nós não seremos hostis a nenhum desses Estados, mesmo que agora tenhamos reservas em relação à sua abstenção no Conselho de Segurança."

Essas reservas, porém, são comuns nas relações internacionais. E elas mudam, como também os tempos e as metas.

Autor: Nader Alsarras (ca)
Revisão: Marcio Damasceno

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