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Pandemia reaquece polêmica sobre hospitais na Alemanha

Andreas Becker av
22 de abril de 2020

Em estudo de 2019, economistas de saúde aconselhavam que se reduzisse o número de clínicas no país de 1.400 para bem menos de 600. O bom desempenho alemão na crise do coronavírus parece ser forte argumento contra.

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Enfermeira mexe em aparelhos em hospital em Schwerin, na Alemanha
Foto: picture-alliance/dpa/J. Büttner

Ainda há pouco a Alemanha se perguntava quando suas capacidades hospitalares esbarrariam em seus limites, no contexto da pandemia de covid-19. Agora, diante do recuo, em parte drástico, da lotação, as clínicas exigem um retorno ao funcionamento normal. E observadores estrangeiros se perguntam como o país tem conseguido atravessar tão bem a crise do coronavírus.

O número de mortes pelo vírus tem sido muito menor na Alemanha do que em outros países com um número semelhante de contágios. E não ocorreu uma sobrecarga do sistema de saúde, como, por exemplo, na Itália, onde há carência de leitos e respiradores artificiais.

Entre os motivos para tal têm sido mencionadas as grandes capacidades dos hospitais alemães. Segundo cálculos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o número de vagas para tratamento intensivo por habitante na Alemanha é o dobro do da França, e quase quatro vezes o da Itália ou da Espanha.

No entanto, pouco tempo atrás economistas da saúde utilizavam as comparações internacionais para, acima de tudo, acusar o país de manter um excesso caro e desnecessário de leitos hospitalares. "Na Alemanha há hospitais demais", declarava a Fundação Bertelsmann ainda em meados de 2019, aconselhando que a maioria das clínicas fosse fechada.

"Uma forte diminuição do número de clínicas, das atuais 1.400 a bem menos de 600, melhoraria a qualidade de tratamento para os pacientes e reduziria os atuais gargalos em termos de médicos e enfermeiros", recomendava a fundação, ao apresentar a pesquisa realizada por encomenda.

Também a Academia Nacional de Ciências Leopoldina, que aconselha o governo federal alemão no contexto da atual pandemia, criticava em 2016 um "sistema desnecessariamente inflacionado, com hospitais demais", embora sem citar números concretos.

UTI em Dresden, Alemanha
Alemanha tem 33,9 leitos de UTI a cada 100 mil habitantes, enquanto França tem 16,3, e Itália, 8,6Foto: picture-alliance/dpa/R. Bonss

Conselhos funestos?

"Se tivéssemos implementado o que o estudo da Bertelsmann aconselhava na época, estaríamos hoje numa situação muito pior no atendimento aos pacientes do coronavírus", conclui Georg Baum, diretor-gerente da Sociedade Alemã de Hospitais (DKG). "Teríamos uma pior disponibilidade de clínicas e, com certeza, menos vagas de tratamento intensivo."

A Fundação Bertelsmann foi também severamente criticada nas redes sociais por seus conselhos de cortes da época. Ela se recusou a responder à DW se reveria suas recomendações diante da pandemia da covid-19, alegando ser "cedo demais para, a partir de uma crise imprevisível, tirar conclusões de base para a futura estrutura hospitalar".

Um dos coautores do estudo se mostra menos fechado: "À luz da pandemia, nosso estudo é duramente criticado, e se afirma que os resultados não são sustentáveis. Não concordo em absoluto", rebate Martin Albrecht, diretor do Instituto de Pesquisas Sociais e de Saúde (Iges), uma firma privada de consultoria de Berlim.

Segundo ele, o atendimento dos casos graves de covid-19 antes confirma do que rechaça a tese central da pesquisa da Bertelsmann. "Nosso estudo é um apelo para que os hospitais se concentrem nos casos graves. Por isso, precisam estar mais bem providos de pessoal e equipamento."

Em suma, ele e a fundação teriam reivindicado uma "concentração de serviços": um número menor de grandes clínicas, atendendo a mais pacientes e dispondo de médicos especialistas e aparelhos ultramodernos, prontos a serem acionados 24 horas por dia.

Especificamente a oxigenação artificial dos enfermos de covid-19 é altamente complexa e exige não só respiradores, mas também especialistas experientes, prossegue Albrecht. "Portanto precisamos de pessoal que disponha da experiência necessária. No entanto, isso não é possível em mil locais ao mesmo tempo: nesse ponto, faria sentido concentrar capacidades e expertise."

Segundo a Bertelsmann, os numerosos pequenos hospitais, mal equipados e deficitários,deveriam ser fechados. Além disso, muitos serviços poderiam ser prestados em regime ambulante, ou seja, por médicos licenciados. E os alemães procuram excessivamente os hospitais: "Cerca de um quarto dos casos tratados hoje nas clínicas alemãs não precisariam ser atendidos em regime estacionário", afirmava a fundação em seu estudo.

Charitè de Berlim, o maior hospital da Alemanha
Charitè de Berlim é o maior hospital da Alemanha, com capacidade para internar 3 mil pacientesFoto: picture-alliance/AP Photo/M. Schreiber

Entre saúde e economia

A controvérsia, contudo, é se a Fundação Bertelsmann defende um atendimento médico melhor ou apenas mais econômico. Georg Baum, da DKG, considera um erro colocar acima de tudo para lotação e eficiência no setor de saúde, pois os hospitais conseguiram funcionar na crise justamente por dispor de reservas.

"Essas capacidades ociosas são justamente o seguro de vida para muitos cidadãos e para o sistema de saúde alemão como um todo", afirma. Além disso, um sistema com poucas grandes clínicas é muito mais vulnerável em tempos de uma pandemia virótica: "Nem pensar o que aconteceria se um desses grandes hospitais não pudesse receber mais pacientes por uma problemática de contágio."

Albrecht concorda serem necessárias reservas para tais casos, e que as estruturas "não podem estar calculadas para 100% de eficiência". No entanto, o planejamento das reservas não pode se guiar no dia a dia por um cenário extremo, como a pandemia de covid-19. "Nenhum sistema de saúde pode financiar isso, é caro demais."

Já Baum recorda os danos causados pelo coronavírus. "Em tempos assim, a doença acarreta custos à economia mundial na casa dos bilhões. Comparativamente, é mais barato manter alguns excedentes de capacidade no atendimento hospitalar."

Seja como for, ele espera que a discussão sobre o sistema de saúde mude fundamentalmente após a crise. Antes, os políticos eram "totalmente vulnerável" às teses da Fundação Bertelsmann, mas ele crê que "haverá uma reavaliação total", já que "agora também os políticos compreenderam o alto valor de nossas capacidades hospitalares existentes".

Por sua vez, Albrecht insiste que não se deve reverter a "privatização e mecanismos de mercado no setor de saúde", já que "as discussões dos últimos anos estavam corretas".

Fica em aberto em que resultará a situação. O que está certo desde já, é que após a crise do coronavírus haverá, nos cofres públicos e privados, menos dinheiro à disposição do que antes.