Pé na Praia: Saudade da solidão | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 20.07.2016
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Pé na Praia: Saudade da solidão

O jornalista alemão Thomas Fischermann achava que os brasileiros eram as pessoas mais sociáveis do mundo. Até conhecer um pescador que vive praticamente sozinho numa pequena ilha na Baía de Guanabara.

Acabei de aprender mais uma lição. Achava que os brasileiros eram as pessoas mais sociáveis do mundo: de espírito alegre e gregário, quase nunca eram encontrados sozinhos, mas sempre rodeados de família e amigos. Mas eu ainda não conhecia Pedro Enéias dos Santos. O homem de 73 anos tem um desejo na vida: "Quero fugir para um lugar deserto", me disse, "e que me deixem ficar sozinho. Que todo mundo me deixe em paz!"

Nunca poderia imaginar isso: Pedro Enéias já vive praticamente sozinho – em uma ilha minúscula. Três casinhas se erguem na Ilha Mãe Maria, um pequeno grupo rochoso da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. De um lado do terreno construíram uma delas, bonita, grande, com um jardinzinho, varanda e chaminé no telhado. Essa pertence ao irmão de Pedro Enéias, que mora a maior parte do tempo num apartamento à beira-mar e só aparece esporadicamente. Outra casinha pertence à irmã e seus parentes, eles também vêm e vão. Assim moram na ilha, em caráter permanente, ele, Pedro Enéias, e sua mulher. Ele a levou para a ilha quando ele tinha 40 anos e ela, 17. O casal mora em direção ao mar. Seu casebre está mais para construção, um projeto inacabado de tijolos e argamassa.

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"Vim para cá aos seis anos de idade", diz o homem, "e desde sempre vivi aqui". Alguém tinha que ficar tomando conta. A tempestade, diz Pedro Enéias, castiga muito a ilha. Arranca coqueiros, joga entulho sobre as pedras, quebra vidraças.

Pedro Enéias dos Santos é pescador, foi o ofício que aprendeu. Das cinco da tarde até as sete da manhã anda com seu barco através da Bahia, ao redor da ponte Rio-Niterói, onde será a regata de veleiros durante as Olimpíadas. Pescar não é mais um bom negócio. A Baía de Guanabara continua linda, mas na verdade ela está morrendo, por causa do lixo e do esgoto. Apesar de tudo, Pedro Enéias sabe como encontrar nela peixe e frutos do mar. Com o camarão ele ganha 90 centavos por unidade.

Os Jogos Olímpicos? Irritam terrivelmente este homem que gosta tanto de ficar sozinho. Não, ele não tem nada contra os velejadores, os gringos, os esportistas que estão chegando. "Mas há semanas as lanchas da Guarda Costeira não deixam mais os pescadores sossegados", reclama. "Querem ver os documentos. Querem saber se transportamos drogas ou armas." E 20 dias antes da regata não é mais permitido passar com o barco por debaixo da ponte, porque os treinos estão sendo lá!

Assim, Pedro Enéas cansou-se de seu dia a dia – quer ir para outro lugar, desde que esteja sozinho. "Quando se passa a vida toda pescando sozinho, um dia chega o momento em que você não quer ter muito a ver com as outras pessoas." Ele gosta de ver televisão, as notícias e novelas como Velho Chico. Só que na Mãe Maria não tem eletricidade, só um gerador à gasolina pouco confiável. O outro desafio é a geladeira. Pedro Enéas leva carregamentos de sacos de gelo para lá. Mas os refrigeradores adequados, para usar com gelo, quase não tem mais para comprar.

O pescador diz que às vezes ele tem medo do futuro: que acabe tendo de ficar nessa ilha com todos os parentes irritantes. "Estou com os dois joelhos ruins, e já tive hérnia cinco vezes", se queixa. "Não consigo mais andar nem por cinco minutos. Só tomar remédio para dor e ir pescar. Preciso seguir pescando. Senão não posso sobreviver."

Thomas Fischermann é correspondente do jornal alemão Die Zeit na América do Sul. Na coluna Pé na praia, publicada às quartas-feira na DW Brasil, faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens pelo Brasil. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter. Traduzido por Fernanda S. Canelas.