1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW

Pé na Praia: A violoncelista sem plano B

Thomas Fischermann
4 de outubro de 2017

O colunista conhece uma garota de 19 anos que cresceu numa comunidade de Niterói e que, graças a um projeto social, aprendeu a tocar instrumentos e hoje estuda música. Ela se prepara para concertos na Alemanha.

https://p.dw.com/p/2lDIx
Thomas Fischermann
Foto: Dario de Dominicis

Kely Pinheiro comia um misto quente e bebia um café numa lanchonete próxima a sua universidade. Usava uma blusa cor de rosa comportada e havia trançado seu cabelo. Não estava com seu violoncelo, o havia deixado em outro lugar, coisa que raramente acontece. "Estou acostumada a carregá-lo para todo lugar", disse, mostrando com um gesto o muque do braço. "É um instrumento pesado, mas aprendi a colocá-lo nos ombros sem precisar de ajuda. Eu o levo para todo lado na cidade, tanto nos bairros da Zona Sul como na comunidade."

A garota de 19 anos é uma nova descoberta no cenário musical do Rio de Janeiro. Cresceu na Grota, uma comunidade em Niterói, de onde às vezes se ouvem relatos sobre tiroteios. A escola pública no entorno não oferece aulas de instrumentos musicais, mas havia nas redondezas um projeto social. Uma ONG e voluntários brasileiros e estrangeiros dão aula de música – um entre os milhares de projetos de iniciativa particular ou pública nas favelas do Brasil. Kely aprendeu flauta doce, começou aos 5 anos. Mais tarde aprendeu a tocar piano, violino e, por fim, violoncelo.

"Estava faltando alguém que tocasse violoncelo", ela contou nessa manhã em que nos encontramos. "Já havia violinistas em quantidade suficiente." Começou com o novo instrumento quando tinha 13 anos. Entrou para uma orquestra na Grota, recebeu bolsas de estudo, aprendeu a tocar e teoria musical com músicos de uma orquestra sinfônica. Devido a seu talento foi, mais tarde, admitida no conservatório de Niterói. "Na época havia projetos e bolsas por toda parte, ONGs e iniciativas", disse. A vaga para a formação de violoncelista foi aceita com gratidão: rapidamente Kely se entusiasmou com o instrumento pesado e abaulado: "Achei o máximo", disse.

Atualmente Kely estuda música na Unirio, no requintado bairro da Urca. Um mecenas norueguês aluga para a jovem talentosa um quarto para que possa ficar mais perto da universidade. Ela vai à Grota só de vez em quando, nos fins de semana, quando não tem que tocar em casamentos, formaturas e festivais de música na cidade. Com esse dinheiro ajuda a sua família – o pai trabalha em construções e a mãe, num supermercado. Toca, também, numa orquestra jovem com uma bolsa remunerada de dois anos.

"Mas atualmente tem um problema no Rio de Janeiro", disse Kely Pinheiro, "não tem mais dinheiro". As orquestras públicas tiveram seus orçamentos reduzidos, os músicos são pagos apenas parcialmente. "Mesmo nos eventos mal remunerados, como os em que eu toco, tenho que concorrer com músicos de primeira linha, que também precisam de dinheiro", contou. O Rio de Janeiro está falido, assim como grande parte da indústria de petróleo local. A Petrobras, antigamente um dos maiores patrocinadores, cortou suas verbas desde o escândalo do petrolão. Poucos concertos programados, pouco dinheiro para as ONGs nas favelas: com isso desaparece um caminho para tirar crianças talentosas dos bairros pobres da falta de perspectiva. E justamente agora, quando em muitas partes do Rio surgem novamente guerras entre facções, como costumava ser nos piores tempos.

Tudo indica que Kely ainda conseguiu a tempo. No momento está fazendo as malas para uma viagem para a Alemanha. "Preciso levar feijão preto?", perguntou, insegura, e tirou outras dúvidas com relação à dieta alemã. "Será que lá só vai ter chucrute e salsicha?"

Kely nunca saiu do Brasil, mas uma ONG do Rio de Janeiro quer providenciar passagens para oito músicos jovens até o final de outubro. Kely quer participar da tour pela Alemanha da Camerata Laranjeiras: uma orquestra jovem, que reúne crianças das comunidades pobres e de bairros da Zona Sul. O projeto surgiu de uma iniciativa privada de professores de música do Brasil, da Alemanha e da Noruega. A Camerata espera conseguir, até a data da viagem, doações via crowdfunding na internet – tamanha é a dificuldade nesta época de cortes de orçamentos.

"Queremos apresentar música brasileira na Alemanha", contou Kely com orgulho, "mas também pop, peças da Alemanha e da Noruega e até mesmo a Kleine Nachtmusik, de Mozart". Chegou a até mesmo aprender os nomes de todos os locais da viagem. "München, Berlin, Hamburg, Regensburg, Schwarzenbek e Travemünde." Então riu, porque quase não dá para pronunciar os nomes dos últimos lugares mencionados.

"Tive muita sorte", disse, enquanto nos despedíamos e Kely tomava o caminho de volta para a faculdade. "Quero ser música profissional, não existe plano B", disse com a voz decidida. Na universidade, encontrou muitos colegas que, da mesma forma, vinham das comunidades e foram subvencionados por muitos projetos – na época em que havia mais dinheiro para esse tipo de coisa. Eles se entendiam bem – os meninos da periferia e seus colegas mais ricos. "Na música, arte ou teatro é mesmo assim: se você tem talento para alguma coisa, você será reconhecido", disse. A universidade promovia seminários sobre discriminação e preconceito para estudantes e professores. Kely tem certeza de que esses problemas existem. Mas, em nossa conversa, ela balançou a cabeça energicamente: com ela mesma, nunca aconteceu nada.

"Pode ser que alguns professores não entendam bem quanto sacrifício alguns estudantes têm que fazer para chegar até aqui", disse, após refletir um pouco. Quem vem da favela, não pode comprar tão facilmente um livro didático por 300 reais ou ir ouvir concertos todo fim de semana, algumas vezes não se tem sequer internet. Tem que ganhar um dinheiro extra ou tomar conta de um bebê. "Sou a favor de que todos sejam tratados igualmente", disse Kely Pinheiro. "Mas talvez as pessoas se esqueçam – quando crescem num bairro abastado – de quantos privilégios elas tem."

Thomas Fischermann é correspondente para o jornal alemão die ZEIT na América do Sul. Em sua coluna "Pé na Praia" faz relatos sobre encontros, acontecimentos e mal-entendidos - no Rio de Janeiro e durante suas viagens. Pode-se segui-lo no Twitter e Instagram: @strandreporter. Traduzido por Fernanda S. Canelas