Os obstáculos na busca pela paz em Nagorno-Karabakh | Notícias internacionais e análises | DW | 08.10.2020

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Cáucaso

Os obstáculos na busca pela paz em Nagorno-Karabakh

As forças armadas da Armênia e do Azerbaijão já lutam há mais de uma semana entre si. No entanto, a disputa envolve bem mais do que os dois Estados combatentes. Entenda quais os países que têm interesses na região.

Cena após bombardeio durante um conflito militar em Stepanakert, na região separatista de Nagorno-Karabakh, em 4 de outubro de 2020.

Um ataque a Stepanakert, a maior cidade de Nagorno-Karabakh

Mais de uma semana se passou desde o início dos combates no sul do Cáucaso e ainda não há evidências de que eles vão arrefecer tão cedo: os rivais Armênia e Azerbaijão parecem determinados, e várias centenas de soldados e civis já foram mortos em ambos os lados. Enquanto isso, o ministro da Defesa do Azerbaijão, Zakir Hasanov, ordenou na terça-feira (06/10) que a "destruição consistente e direcionada das forças inimigas" continuasse.

"A dinâmica simplesmente se tornou tão perigosa que não será fácil para atores externos encerrar o conflito", disse Stefan Meister. Ele dirige o escritório da Fundação Heinrich Böll em Tbilisi, capital da vizinha Geórgia, e é membro associado da Sociedade Alemã de Política Externa. Meister não acredita que a luta vá terminar tão cedo, quando mais não seja devido às perdas de ambos os lados e dos primeiros ganhos de terras para o Azerbaijão: "O receio é que isso se transforme numa guerra maior que não afete apenas Karabakh e as províncias ocupadas pela Armênia."

O que está por trás do conflito?

O conflito na região de Nagorno-Karabakh permanece latente desde o colapso da União Soviética: ambos os adversários já haviam travado uma guerra no início da década de 1990 e, desde então, protagonizam incidentes repetidamente. Nagorno-Karabakh fica no Azerbaijão, que se vê assim no direito de reivindicar sua integridade territorial. No entanto, a maioria das pessoas que vivem em Nagorno-Karabakh são de origem armênia, razão pela qual a Armênia invoca a autodeterminação dos povos. Partes de Nagorno-Karabakh se declararam independentes em 1991, embora nenhum Estado do mundo reconheça isso – nem mesmo a Armênia.

	Karte Armenien Aserbaidschan Berg-Karabach PT

Em essência, trata-se de um conflito entre dois países vizinhos inimigos. No entanto, o Azerbaijão se mostra cada vez mais autoconfiante, já que a vizinha Turquia se inclina cada vez mais para o lado do governo de Baku. Uma das razões são as grandes semelhanças étnicas e culturais entre os países de língua turca – ambos professam o princípio "uma nação, dois Estados". No entanto, há anos que a Turquia tenta, de forma intensiva, tornar-se independente do gás natural russo, seja através do engajamento na Líbia, de explorações no leste do Mediterrâneo ou simplesmente de grandes negócios com seus parceiros em Baku. Sabe-se inclusive que a Turquia recrutou mercenários na Síria para apoiar o Azerbaijão.

Qual é o papel da Rússia?

Do ponto de vista de Moscou, a situação é particularmente complicada, pois a Rússia mantém ligações com ambas as ex-repúblicas soviéticas. Com a Armênia, porém, os laços são bem mais intensos: embora Moscou forneça armas russas às duas partes em conflito, apenas Yerevan tem direito a um preço especial. E na segunda maior cidade da Armênia, Gyumri, há uma base militar russa. 

O presidente russo, Vladimir Putin, ao centro, posa com líderes da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) durante o início da cúpula do Conselho Econômico Supremo da Eurásia em 14 de maio de 2018, em Sochi, Rússia. Em pé, da esquerda para a direita: Tigran Sargsyan, presidente da Comissão Econômica da Eurásia; Nikol Pashinyan, primeiro Ministro da Armênia; Alexander Lukashenko, presidente de Belarus; Vladimir Putin, presidente da Rússia; Nursultan Nazarbayev, presidente do Cazaquistão; e Sooronbai Jeenbekov, presidente do Quirguistão.

O primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan (seg. à esquerda) integra rede de poder de Vladimir Putin (aqui em uma cúpula em 2018)

"A Rússia desempenha um papel muito problemático neste conflito, pois o usa para manter os dois países sob sua dependência", disse Meister em entrevista à DW, desmentindo a imagem russa de potência protetora dos armênios. "Os armênios não se sentem seguros de verdade. Em vez disso, tem-se muito mais a sensação de que a Rússia está jogando dos dois lados. No momento, também estamos vendo uma reação relativamente fraca por parte da Rússia, enquanto a Turquia intervém militarmente e de forma maciça neste conflito a favor do Azerbaijão."

Quais são as chances de negociação?

Hans-Joachim Spanger, da Fundação para Pesquisa de Paz e Conflitos em Hessen, também acredita que a Rússia tem interesse em manter um certo limbo que ligue ambas as partes a Moscou – o Azerbaijão, por meio do fornecimento de armas, e a Armênia, por meio de um pacto de assistência mútua. Contudo, em diversas vezes no passado, Moscou teve um papel ativo nas negociações. Mas Spanger vê como inteiramente possível que o apoio militar ao Azerbaijão diminua no futuro: "A Turquia, provavelmente, só está interessada numa breve ofensiva", disse ele à DW.

Assistir ao vídeo 02:24

Civis no fogo cruzado no conflito entre Armênia e Azerbaijão

Do ponto de vista da União Europeia (UE), que quer garantir um cessar-fogo em sua vizinhança oriental, o pesquisador avalia que seria prudente negociar com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, sobre seu envolvimento no Sul do Cáucaso. Spanger também acredita que a Alemanha, como atual presidente do Conselho da UE, poderia conseguir algo por meio de negociações não oficiais com as partes em conflito. Tal feito já foi observado em 2008 com a França, que, então governada pelo presidente Nicolas Sarkozy, negociou um cessar-fogo na guerra da Geórgia durante sua presidência do Conselho. No caso atual, Merkel já até telefonou para os chefes de governo dos dois países; mas, para Spanger, isso não basta.

Quem poderia mediar?

Como há muitos armênios exilados na França, é improvável que o Azerbaijão aceite os franceses como mediadores neutros neste caso.

Porém, na opinião de Stefan Meister, a UE como tal dificilmente poderá exercer algum efeito na região. "Por questões de segurança, é preferível ficar completamente de fora", disse o chefe do escritório em Tbilisi. Ambos os países fazem parte da Parceria Oriental da UE, mas não existem acordos de associação como o que foi celebrado com a Ucrânia – o que implicaria mais apoio financeiro. "O próprio Sul do Cáucaso é mais uma região marginal na perspectiva de Bruxelas ou mesmo na perspectiva da maioria dos Estados membros", avalia Meister, acrescentando que muita atenção já está voltada para a situação em Belarus, o caso de envenenamento de Navalny ou na agitação política no Quirguistão.

O chamado Grupo de Minsk, da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e cuja presidência é compartilhada por França, Rússia e EUA, é considerado um órgão influente. Os ministros das Relações Exteriores dos três países emitiram uma declaração conjunta pedindo um "cessar-fogo imediato e incondicional". Imediatamente, o ministro das Relações Exteriores turco, Mevlüt Cavusoglu, acusou-os de não terem ideias para solucionar o conflito.

Um vizinho comum, por outro lado, mantém relações muito boas com os dois lados: a Geórgia, com Tbilisi se oferecendo como mediadora várias vezes. "Mas a Geórgia não é um ator decisivo aqui", disse Stefan Meister. "Simplesmente não é forte o suficiente para assumir esse papel."

E quanto ao Irã?

Na fronteira com o Cáucaso, desponta o Irã como uma potência regional – e mais próximo da Armênia do que do Azerbaijão, que, por sua vez, compra armas de Israel, arquiinimigo do Irã. Segundo o Azerbaijão, pelo menos um desses projéteis já atingiu o território iraniano durante os combates no sul de Nagorno-Karabakh. "O Irã observa com muito, mas muito ceticismo o envolvimento da Turquia e à mudança de poder na região", afirma Stefan Meister. Também do ponto de vista iraniano, seria perigoso se o conflito se alastrasse aos países vizinhos, pois muitos azerbaijanos vivem no lado iraniano da fronteira.


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