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Imprensa deveria refletir sobre seus erros

Astrid Prange (av)2 de abril de 2015

Para que divulgar o endereço dos pais do copiloto ou entrevistar parentes das vítimas em busca das respostas de sempre? Sexta-Feira Santa e Páscoa são um bom momento para os jornalistas refletirem, opina Astrid Prange.

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Astrid Prange é jornalista da DWFoto: DW/P. Henriksen

Queda de avião, franco-atiradores, terremotos, atentados, bombas, vídeos de decapitação e pessoas passando fome: o sofrimento sobre a Terra parece não conhecer limites. O desastre da Germanwings terá sido "apenas" mais um elo na fatídica cadeia de abismos humanos que compõem o noticiário diário? Somos capazes de retornar à rotina depois desses dias de horror coletivo, segundo a máxima "a próxima desgraça certamente está por vir"?

A resposta é, definitivamente, não. Pois desta vez a catástrofe foi bem perto. Na Alemanha, ninguém é capaz de desligar com um clique ou mesmo abafar a dor dos familiares das vítimas do voo 4U-9525. A abrupta morte de tantas pessoas inocentes não gera apenas perplexidade, mas também profunda necessidade de luto conjunto, de silêncio, compaixão e respeito.

Já a caça às más notícias, que supostamente vendem tão bem, gerou manchetes e notícias vazias. Para que mandar correspondentes de TV a aeroportos, a fim de receberem sempre as mesmas respostas para as mesmas perguntas? Para que enviar repórteres à cidadezinha de Haltern am See, oferecendo dinheiro aos familiares para poderem filmá-los com exclusividade em sua dor? Para que divulgar na internet o endereço dos pais do copiloto da Germanwings?

Não há como escapar: o pecado original midiático foi cometido. A própria mídia passou a ser a má notícia. E não adianta apontar para o número de cliques, esbravejar contra os ultrapassados apóstolos da moral, apelar para os interesses do público. A única coisa que adianta é autocrítica. A Sexta-Feira Santa e a Páscoa podem ser o momento adequado para os jornalistas refletirem sobre os próprios erros – e sem levantar o dedo.

Já está mais do que na hora de um debate. Um indício disso são as mais de 400 queixas sobre o noticiário em torno da queda do A320, já apresentadas ao Conselho Alemão de Imprensa. A questão é: por que os fundamentos éticos, que o ramo definiu em seu Código de Imprensa de 1973, estão sendo tão brutalmente violados? Por que o setor se empenha tão tenazmente em arruinar a própria imagem e minar sua missão?

Os usuários das redes sociais têm razão ao expressar seu desagrado com o noticiário de catástrofes "convencional". Mas também o debate na rede transcorre de forma ambivalente. Pois justamente na internet conteúdos desrespeitosos são amplamente difundidos, como no caso dos vídeos de decapitação do "Estado Islâmico" (EI). Na rede, ninguém parece dar bola às regras éticas básicas do Código de Imprensa.

Um debate autocrítico não significa descobrir culpados e colocá-los no pelourinho. Não importa se se trata de mídia online ou impressa, privada ou pública: de nada adianta apontar o dedo para "os outros". E tampouco adianta justificar a violação dos direitos de vítimas e familiares com o argumento de que outros já o fizeram. Um erro não justifica o outro.

A necessária autocrítica envolve a busca de bases éticas comuns, com as quais todos os veículos de comunicação estejam de acordo. Sem esse consenso, o setor estará cavando a própria cova. Pois, quando a confiança num noticiário sério estiver destruída, não haverá mais leitores nem usuários que se interessem, muito menos que estejam dispostos a pagar por ele. Resumindo: se a máxima midiática "bad news is good news" – má notícia é boa notícia – seguir valendo, o jornalismo descambará para uma pornografia das catástrofes.

É verdade que, à primeira vista, tudo isso parece bem utópico. E é fácil falar, sobretudo quando se trata de veículos de direito público, que financiam a maior parte de seus gastos com impostos ou taxas. Porém o trabalho de convencimento em prol de fundamentos éticos comuns tem que continuar. Tudo mais seria um atestado de falência diante das vítimas das inúmeras catástrofes por todo o mundo. E para o próprio jornalismo.