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Opinião: Como se perde uma eleição na França

Max Hofmann
7 de março de 2017

Nas presidenciais francesas, o ex-premiê Alain Juppé se recusa a substituir candidato conservador François Fillon, que, por sua vez, rejeita desistir. Quem lucra é Marine Le Pen, opina Max Hofmann.

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Max Hofmann é correspondente da DW em Bruxelas

Como se faz para dar um tiro no pé? Na França, os conservadores do partido Os Republicanos dão o exemplo. Um lembrete rápido: o seu candidato oficial, François Fillon, remunerou durante décadas a sua esposa Penelope com dinheiro dos contribuintes, sem que ela tivesse feito nenhum serviço convincente em retribuição. Num caso como esse, a maioria dos outros partidos já teria, há bastante tempo, se livrado de seu candidato e apresentado um novo. Mas não Os Republicanos franceses.

Até agora, parecia que eles estavam esperando, simplesmente, o momento certo. Fillon continua a sua turnê furiosa pelo país, falando de calúnia, conspiração e difamação. Enquanto o paciente ainda apresentar fortes convulsões, a liderança partidária ainda não pretende desligar a máquina que garante a sua sobrevivência – era o que se pensava. O mais tardar nesta última segunda-feira (06/03) ficou claro: aos Republicanos faltam um plano e uma alternativa convincente.

O ex-primeiro-ministro Alain Juppé seria, na realidade, o homem certo. Como segundo lugar nas prévias presidenciais dos conservadores, ele possui certa legitimidade democrática. Além disso, o experiente político de 71 anos já deixou seus escândalos para trás. Ele pagou por eles e parece que os franceses já o perdoaram. De acordo com recentes pesquisas, ele teria boas chances de chegar ao segundo turno nas eleições presidenciais. Mesmo assim, ele não quer se candidatar.

Diante dos atuais resultados das sondagens, é difícil entender o argumento por ele colocado de que, na atual situação, ele não poderia mais unificar as forças de centro e de direita. Talvez ele esteja se fazendo de difícil. Ou ele tenha notado, desde as primárias, que não tem mesmo vontade de assumir o cargo mais alto do Estado. Nem uma opção nem outra favorecem a sua imagem. Junto ao ganancioso Fillon, o ex-cavaleiro da esperança Juppé se torna uma armadilha para seu partido.

Para os conservadores, talvez tenha sido mais difícil desperdiçar essa eleição do que ganhá-la. Os franceses estão tão fartos do presidente François Hollande e de seus socialistas, que teriam se contentado com muito menos. Isso se evidencia, por exemplo, nos índices de aprovação de Fillon. Apesar de tudo, ele é o candidato preferido de 17% dos franceses. Uma cifra alta demais para alguém que se apresenta da forma que ele faz. O eleitor conservador se pergunta então: em que outro candidato se deve votar?

E assim Fillon, o herói caído dos católicos e justos, continua a ter uma função. Ele atrai potenciais eleitores da Frente Nacional. Pois eles possuem, de qualquer forma, outras reivindicações morais (isto é, nenhuma) de seus candidatos, como mostram os muitos escândalos da populista de direita Marine Le Pen. François Fillon ainda funciona então: como naftalina para eleitores volúveis que estão prestes a cair nas garras da Frente Nacional. Ao menos isso.

Alguém vai se alegrar bastante com o recente desenvolvimento: o favorito Emmanuel Macron. Juppé teria lhe custado muitos eleitores do centro. Um Fillon livre de escândalos teria sido um candidato forte demais para o jovem político carismático.

Mas as suas chances de chegar ao segundo turno e derrotar Le Pen aumentaram mais uma vez. Resta apenas esperar que Macron, como última barreira de proteção contra o populismo de direita, não tenha nenhum esqueleto no armário. De outra forma, a única que vai rir no final é Marine Le Pen.

O jornalista Max Hofmann é correspondente da DW em Bruxelas.