Opinião: Protesto e luto em Teerã | Notícias internacionais e análises | DW | 13.01.2020
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages
Publicidade

Opinião

Opinião: Protesto e luto em Teerã

Depois do enorme cortejo fúnebre para o general Soleimani, seguem-se manifestações antigovernamentais desencadeadas pelo abate do avião ucraniano. Mas o que os iranianos querem é lei e ordem no país, opina Peter Philipp.

Iran | Trauer und Proteste | Flugzeugabsturz (picture-alliance/dpa/Photoshot/A. Halabisaz)

Parentes e amigos choram vítimas de abate à avião comerical iraniano

A população iraniana está exposta a uma verdadeira montanha-russa emocional desde aqueles dias de novembro passado, quando centenas de milhares foram às ruas em todo o país para protestar, inicialmente, contra um forte aumento no preço da gasolina, contra a situação econômica em geral e a corrupção nas fileiras políticas em particular.

As manifestações foram suprimidas com toda força – houve centenas de mortos e milhares de pessoas foram presas. No entanto, os problemas criticados permaneceram. Embora tenha sido um pouco mais violenta dessa vez, a manifestação teve a aparência de ser apenas mais um dos protestos que surgem esporadicamente no Irã contra diferentes situações abusivas.

Essa impressão se intensificou no início de janeiro, quando a República Islâmica vivenciou as maiores manifestações em seus 40 anos de história: não contra a liderança política do país, mas contra os Estados Unidos. Com o ataque fatal ao representante mais importante das Forças Armadas iranianas, Washington havia acabado de confirmar a imagem inimiga do agressor americano que havia sido cultivada por décadas pela liderança em Teerã.

O general Qassim Soleimani, chefe das "Brigadas Quds" ("Brigadas de Jerusalém"), força de elite da Guarda Revolucionária Iraniana, era considerado o principal planejador e comandante da operação militar iraniana contra o "Estado Islâmico" (EI) no Iraque e na Síria. Ele coordenava a cooperação com o Hisbolá libanês e também teria desempenhado um papel de liderança no apoio aos rebeldes houthis iemenitas. Ou seja, certamente uma figura-chave do regime em Teerã.

Ao mesmo tempo, no entanto, muitos iranianos sentiam simpatia e admiração pelo homem de origem simples, mesmo que ele se destacasse muito "em interesse da nação". Essa visão se devia, pelo menos em parte, à política oficial de informação e propaganda. Por outro lado, parte dessa admiração por Soleimani era justificada: o geral permanecia modesto em suas aparições públicas, apresentando-se frequentemente ao lado de suas tropas e lutava supostamente pela "causa justa".

Especialmente no caso do "Estado Islâmico": nos primeiros dias do EI no Iraque, Soleimani chegou ao ponto de coordenar suas ações indiretamente com os Estados Unidos. Enquanto Soleimani esteve em ação contra o EI, a grande maioria dos iranianos o considerava um tipo de protetor da nação, porque o "Estado Islâmico" (sunita) é um inimigo declarado do Irã xiita.

Para a liderança política em Teerã, os dias desde o assassinato do general até seu enterro foram, portanto, uma oportunidade bem-vinda de usar essa simpatia por Soleimani entre a população para transformá-la numa aparente declaração de solidariedade frente ao governo.

A imagem de multidões em luto por todo o Irã foi impressionante. Os políticos se enganaram, no entanto, ao pensar que a insatisfação do povo contra eles havia sido deixada de lado, dando lugar a novas manifestações de ódio em relação aos EUA.

Isso agora se mostra de forma dramática, porque os manifestantes estão saindo às ruas para acusar os políticos de fracasso ou até de incapacidade, mas também subliminarmente de um alto grau de desprezo pelo seu próprio povo.

Depois de autoridades em Teerã tentarem apresentar, durante dias, a queda do avião comercial ucraniano como resultado de uma falha técnica, constatou-se que a aeronave havia sido abatida por mísseis da Guarda Revolucionária.

A maioria das 176 pessoas mortas a bordo do avião era formada por iranianos ou cidadãos do Irã com dupla cidadania – esse é o balanço feito por amplos círculos da população iraniana. Aqui, não há compreensão para o fato de Teerã ter querido, inicialmente, encobrir a real causa do acidente e – da mesma forma que os países que choram a morte de seus cidadãos entre as vítimas – exige-se um esclarecimento completo dos acontecimentos, como também medidas contra os responsáveis.

Não se está de olho no homem cujo apertar de um botão desencadeou o abate fatal. A atenção se volta para aqueles que não tomaram nenhuma precaução de segurança na situação explosiva daquelas horas – interrompendo, por exemplo, temporariamente o tráfego aéreo civil.

As novas manifestações são bem menores que as anteriores, mas podem facilmente aumentar. E agora Donald Trump ofereceu proteção e apoio aos manifestantes. Mas eles não precisam disso, como também não querem. Eles estão preocupados em finalmente conseguir lei e ordem em seu país, passados 40 anos da revolução.

______________

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube 
App | Instagram | Newsletter

Leia mais