Opinião: Por que Putin não tem pressa em congratular Biden? | Notícias internacionais e análises | DW | 10.11.2020

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Opinião

Opinião: Por que Putin não tem pressa em congratular Biden?

Liderança russa espera que governo Biden seja um Obama 3.0 – mas também se prepara para um cenário pior, opina Konstantin Eggert.

Vladimir Putin

Obcecado em não parecer fraco, Putin mostra a Biden, pelo seu silêncio, que não tem medo do novo "líder do mundo livre"

Vladimir Putin está em silêncio. Ele não tem pressa em parabenizar Joe Biden por sua vitória na eleição presidencial dos Estados Unidos. Seu secretário de imprensa, Dmitry Peskov, explicou que a questão é a recontagem de votos em andamento exigida pelo presidente Donald Trump. Mas claro que não é isso.

Putin – um obcecado por nunca parecer fraco – quer mostrar a Biden que, apesar das sanções ocidentais e do isolamento internacional, não tem medo de enfrentar o novo "líder do mundo livre". Biden será o quinto presidente de Putin nos Estados Unidos, começando por Bill Clinton.

Putin tem sentimentos contraditórios em relação ao ex-vice-presidente. Por um lado, Biden foi um dos membros da administração de Barack Obama que não escondeu sua simpatia por Dimitri Medvedev, substituto de Putin em 2008-2012, e esperava que ele concorresse a um segundo mandato presidencial. Putin não esquece – ou não perdoa – tais "desfeitas".

Por outro lado, ele desprezou abertamente o governo Obama-Biden, considerando-o fraco e indeciso. A administração Obama resistiu e hesitou antes da aprovação pelo Congresso americano da Lei Magnitsky, destinada a punir violadores dos direitos humanos. O governo Obama ficou apenas olhando quando Bashar al-Assad usou armas químicas contra civis sírios, desrespeitando assim as próprias "linhas vermelhas" de Obama e, em seguida, assistiu impotente enquanto a Rússia enviava sua força aérea e salvava o ditador sírio.

Ainda mais importante para Putin foi a reação inicialmente contida de Obama à anexação da Crimeia e, finalmente, sua firme recusa em fornecer armas letais ao Exército ucraniano. Foi a administração Trump que reverteu essa política.

Portanto, agora, Putin está esperando para ver se o governo Biden-Harris vai se tornar um "Obama 3.0" ou se seguirá uma linha mais dura em relação a Moscou. Provavelmente não demorará muito para ele saber mais.

A equipe de Biden em breve terá que entrar em contato direto com a liderança russa para iniciar as negociações sobre um novo tratado de armas ofensivas estratégicas para substituir o acordo Start-3 (assinado em 2011 por Obama e Medvedev). Moscou e Washington agora discutem estendê-lo por um ano.

O governo Trump quer que a China, que está expandindo de forma séria seu arsenal nuclear, participe do novo acordo nuclear. Insiste em que Putin convença seu "parceiro estratégico" Xi Jinping a sentar à mesa de negociações. Biden continuará pressionando por isso ou abandonará a questão da participação chinesa? Isso indicará imediatamente ao Kremlin – e ao mundo – se o novo governo manterá a linha dura dos republicanos em relação à China, um ponto importante para Putin, que está cada vez mais enredado com o regime em Pequim no cenário mundial.

Há três outros tópicos sobre os quais o Kremlin aguardará sinais da Casa Branca de Biden: Belarus, o envenenamento de Alexei Navalny e a Europa, especialmente a Alemanha. O novo governo aumentará a pressão sobre o regime de Lukashenko? Do ponto de vista de Putin, isso mostrará se o novo presidente está pronto para resistir ao desejo de Moscou de controlar o espaço pós-soviético, incluindo a Ucrânia.

Biden vai condenar a tentativa de assassinato do líder da oposição russa da mesma forma que a UE o fez? Putin acredita que, durante os protestos de Moscou em 2011 e 2012, o governo Obama apoiou os manifestantes na esperança de impedir seu retorno ao Kremlin. Dada a obsessão do Kremlin com a ameaça de "mudança de regime" patrocinada pelos Estados Unidos, a atitude de Biden e sua equipe em relação a Navalny é um tópico de grande importância para Putin.

E assim é a atitude da administração democrata em relação ao projeto Nord Stream 2. O governo Trump, com apoio do Congresso, está pressionando a chanceler federal Angela Merkel a abandonar o gasoduto, que está quase concluído. O Kremlin vê isso como uma ferramenta de pressão econômica sobre a Ucrânia, que roubará Kiev de uma parte significativa de suas receitas de trânsito de gás russo. Berlim está resistindo à pressão de Trump. Ouvi de vários políticos europeus que pode ser mais fácil para Merkel chegar a um acordo com Biden do que com o atual presidente dos EUA, que é altamente impopular na Europa. Nesse caso, será um golpe sério para Putin. Mas aqui a questão principal é se Biden vai querer falar sobre o gasoduto ou vai deixar o assunto de lado.

Putin não terá que esperar muito. Todas essas questões serão respondidas logo após o dia da posse – desde que a equipe de Biden não se afogue na política interna e nas lutas ideológicas dentro do Partido Democrata. E essas duas ocupações podem ser exatamente o que mais vêm a calhar para Putin.

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* Konstantin Eggert é colunista da DW. O texto acima reflete a opinião pessoal do autor, e não necessariamente da DW.

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