Opinião: O show tem que continuar | Notícias internacionais e análises | DW | 03.07.2015
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Mundo

Opinião: O show tem que continuar

Mais uma vez, surgem revelações de grampos da NSA a políticos e instituições alemãs. E todos parecem se assustar. Berlim deixou passar o momento certo para reagir à altura, opina o jornalista da DW Marcel Fürstenau.

Marcel Fürstenau, da redação alemã da DW

Marcel Fürstenau, da redação alemã da DW

O Departamento Federal de Informações da Alemanha (BND) colocou um grampo no telefone de Barack Obama. Isso seria realmente uma piada engraçada no caso que já se arrasta pelos últimos dois anos envolvendo a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos.

Como se o BND também pudesse fazer o que a NSA faz. Bem que isso não seria nada mal, poderia pensar o governo alemão. Mas a verdade é que os alemães dependem dos americanos. Não dá para falar em igualdade de armas quando se trata de cooperação transatlântica por causa do terrorismo internacional. A NSA tem muito mais dinheiro, mais pessoal e tecnologia muito mais sofisticada. Devido a isso, o BND, aparentemente, se limitou praticamente a ser um fiel serviçal do parceiro americano.

Essa suspeita veio à tona pela primeira vez no verão de 2013, quando Edward Snowden revelou a espionagem das telecomunicações globais realizada pela NSA. Logo ficou claro que o BND esteve envolvido nesse rolo, em projetos batizados com nomes obscuros, como Prism ou Eikonal.

Atrás dessas siglas, estão verdadeiros escândalos, como o grampo contra o celular de Angela Merkel. Agora, a mulher mais poderosa do mundo realmente tem do que rir. Antes, ela sempre tentou desdenhar, rindo das denúncias contra a NSA. O motivo era claro: a Alemanha estava no meio de uma campanha eleitoral. Merkel queria se manter como chefe de governo. Por isso, seu então chefe da Casa Civil, Ronald Pofalla, deu um show à parte e declarou o escândalo como encerrado.

Chega a ser uma ironia do destino que o Wikileaks publique na internet os telefonemas grampeados de Merkel exatamente quando Pofalla tem que depor na comissão parlamentar de inquérito sobre a NSA no Parlamento alemão.

Pode ser uma coincidência, mas também pode ser algo planejado. De qualquer maneira, o timing é perfeito para insuflar nova vida nessa história de espionagem transatlântica. A disputa de meses entre a Chancelaria e o Parlamento sobre a manipulação de arquivos secretos tem também algo de cansativo. Do ponto de vista dos meios de comunicação e dos investigadores parlamentares é, portanto, urgentemente necessário que, de tempos em tempos, novas revelações sirvam para colocar o caso NSA/BND novamente na berlinda.

O grau de indignação sobre a extensão da espionagem demonstrado por todos os envolvidos parece beirar o ridículo. Se os serviços de espionagem americanos (e outros) espionam descaradamente na Chancelaria, por que eles deveriam deixar de lado o Ministério da Economia ou, talvez, até mesmo o da Defesa?

Essas pastas lidam com exportação de armas, controle de armas e missões militares no estrangeiro. Elas lidam com questões de segurança e proteção contra terrorismo. E com elas é possível também se ganhar bastante dinheiro. Por isso, é lógico e coerente se espionar todos os lugares.

Há muito tempo que o governo alemão deixou passar o momento em que deveria falar francamente. É bem possível que, antes da revelação, o governo tivesse conhecimento do grampo contra o celular de Merkel.

Talvez seu nome e número estejam na lista dos chamados "seletores" – termos de busca, nomes e endereços IP – que o governo alemão se nega terminantemente a entregar aos membros da comissão parlamentar encarregada de investigar o caso NSA.

É possível imaginar como um especialista do BND descobriu o nome da chanceler federal alemã na lista dos alvos da espionagem da NSA. Que engraçado! Mas, de alguma forma, também é triste que alguém possa seriamente chegar a tais pensamentos com relação a este caso. O governo alemão, ao que parece, continua agindo segundo o lema tão amado nos EUA: "O show tem que continuar".

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