Opinião: O ″presente″ de Trump para Putin na Síria | Notícias internacionais e análises | DW | 17.10.2019
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Opinião

Opinião: O "presente" de Trump para Putin na Síria

Críticos denunciaram a retirada dos EUA do norte da Síria como um agrado para a Rússia. Mas, ao examinarmos os aliados de Moscou na região, este poderá ser um mimo repleto de complicações, avalia Konstantin Eggert.

Vladimir Putin (esq.) poderia se beneficiar da decisao de Donald Trump de retirar tropas americanas da Síria

Vladimir Putin (esq.) poderia se beneficiar da decisao de Donald Trump de retirar tropas americanas da Síria

As tropas russas na Síria se instalaram nesta terça-feira (15/10) em uma base em Manbij que fora abandonada pelas tropas americanas por ordem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Brett McGurk, ex-enviado especial dos EUA na coalizão internacional que combateu o grupo extremista "Estado Islâmico" (EI), afirmou através do Twitter que a decisão americana de retirar suas tropas no norte da Síria foi um "presente para a Rússia, o Irã e o EI".

De certa forma, McGurk – que renunciou ao cargo em meio a desavenças com a Casa Branca – está certo, ao menos no que diz respeito ao Kremlin. Quando o presidente russo Vladimir Putin iniciou a intervenção na Síria em 2015, apoiar o regime do presidente Bashar al-Assad não era seu único plano.

O objetivo principal do líder russo era provar que é capaz de impedir o que vê como uma política global dos EUA de mudarem os regimes dos quais não gostam. Tudo mais – assegurar a presença militar russa no leste do Mediterrâneo, testar novos sistemas de armas, provar aos aliados que eles podem confiar no Kremlin – era secundário.

Na Síria, Putin não estava tanto em confronto contra os inimigos de Assad quanto estava com Washington. A relativa relutância do ex-presidente americano Barack Obama em se envolver diretamente no conflito contribuiu para que o líder russo pudesse se estabelecer com custos mínimos como um mediador dos poderes no Oriente Médio.

Ele "reinseriu" a Rússia na região depois de mais de duas décadas de uma ausência relativa e se contrapôs a Washington em outras questões, fossem estas a Ucrânia, armas nucleares ou a expansão da Otan. Então, pode se dizer que, por um lado, a retirada americana da Síria é uma vitória para Putin.

Por outro lado, a presença americana possibilitava ao Kremlin um parceiro externo com quem podia dialogar em uma região onde todos estão contra todos. Agora, não mais.

O regime iraniano – oficialmente o mais próximo aliado russo na Síria – tem profundas suspeitas em relação ao governo de Moscou. Teerã não vê com bons olhos o relacionamento estreito entre Putin e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, um dos poucos líderes ocidentais com quem o russo conversa regularmente.

Os iranianos desconfiam – corretamente, a meu ver – que se os israelenses decidirem enfrentá-los militarmente, o Kremlin não iria interceder. Eles também não gostam do fato de que com Putin na Síria, Assad pode manter uma certa distância de Teerã, se assim desejar.

Os israelenses, por sua vez, se preocupam com as relações próximas entre russos e iranianos, que incluem um acordo de armamentos, uma atitude positiva quanto ao programa nuclear iraniano e o fato de Moscou defender o Irã em fóruns internacionais como a ONU.

A opinião púbica israelense, por ampla maioria, considera Putin um dos maiores facilitadores internacionais do Irã. Israel também possui enorme influência política e diplomática em Washington, algo que Moscou jamais conseguirá igualar.

Os sauditas, que recentemente receberam Putin em Riad, acreditam que o contato regular recentemente estabelecido com o Kremlin poderá ser útil para diminuir sua dependência de Washington. Por enquanto, a Arábia Saudita ainda depende dos EUA para sua defesa e considera o Irã, aliado da Rússia, um inimigo mortal.

Em parte, a recepção do príncipe Mohammad bin Salman a Putin é uma forma de tentar enfraquecer os laços entre Moscou e Teerã. O presidente russo gosta dessa abordagem. Isso aumenta seu prestígio. Ele também está interessado em manter relações com Riad  em razão da influência saudita sobre a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep). Ele, porém, abomina a ideia de ter de escolher entre os sauditas e os iranianos, no caso de um confronto entre ambos.

O presidente turco Recep Tayyip Erdogan ainda é o aliado mais confiável da Rússia na região. Putin gosta do fato de que, sob sua liderança, a Turquia se tornou o que muitos avaliam como o elo fraco da Otan. Na forma de pensar do Kremlin, pouco importa mais do que enfraquecer a aliança.

Em julho, Erdogan manteve sua decisão de comprar sistemas de mísseis S-400 da Rússia apesar das objeções dos EUA. Ele, sem dúvida, aprecia o consentimento silencioso de Putin sobre sua ofensiva contra os curdos na Síria. Mas será que Moscou o defenderia caso os americanos – especialmente o Congresso – decidam exercer pressão real sobre a Turquia? Duvido.

Finalmente, os cidadãos russos estão cada vez mais cansados das aventuras de Putin na política externa. Enquanto os rendimentos reais disponíveis dos russos caem pelo quinto ano consecutivo, 55% deles querem que as operações militares do país na Síria terminem o mais cedo possível, segundo o Levada-Center, um instituto independente de pesquisa.

Putin está atento ás mudanças de humor na população. Ele se prepara para uma transição política incerta ao final de seu quarto mandato em 2024, ou ainda mais cedo.

Em tais circunstâncias, declarar vitória na Síria e deixar o país poderia ser uma ideia melhor do que equilibrar as várias "alianças de conveniência", todas elas repletas de riscos. Mas poderia Assad sobreviver sem o apoio russo? O que aconteceria com as bases navais russas se a região entrar em guerra?

Ao se envolver de modo bastante fácil no Oriente Médio há quatro anos, Putin poderá perceber que é muito mais complicado se retirar e manter intactos os seus ganhos. O "presente" de Trump poderá se revelar algo bastante intrincado.

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