Opinião: O escandaloso desprezo de Trump pela democracia nas eleições | Cobertura especial sobre as eleições nos Estados Unidos | DW | 04.11.2020

Conheça a nova DW

Dê uma olhada exclusiva na versão beta da nova DW. Sua opinião nos ajudará a torná-la ainda melhor.

  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages
Publicidade

Opinião

Opinião: O escandaloso desprezo de Trump pela democracia nas eleições

Pelos próximos dias continuará indefinido quem é o próximo presidente dos EUA. Mais do que uma ameaça à democracia, o fato revela quantos americanos consideram aceitáveis as ações de Trump, opina Carla Bleiker.

A noite eleitoral resultou exatamente como predisseram numerosos experts – pelo menos em um aspecto: não há um vencedor claro até a manhã desta quarta-feira (04/11) nos Estados Unidos. Os principais "estados campo de batalha" ou swing states, incluindo Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, ainda estão em aberto e provavelmente levará algum tempo até divulgarem os resultados totais.

Previsivelmente, ambos os candidatos fizeram todo o possível para ignorar a situação de suspense e projetaram otimismo a seus apoiadores. O candidato presidencial democrata Joe Biden apresentou-se publicamente em seu estado natal, Delaware.

"Nós sabíamos que ia levar muito tempo", afirmou, acrescentando que tinha uma boa sensação quanto a sua posição na corrida pelos 270 votos do colégio eleitoral que garantem a presidência. "Não vai terminar até que cada voto, cada cédula tenha sido contada", enfatizou.

Com três tipos de votos – em pessoa no dia da eleição, em pessoa antecipado e voto pelo correio – o processo de apuração pode se estender pelos próximos dias adentro.

Isso é parte totalmente legítima do processo democrático. Ver o presidente Donald Trump descrever o fato como uma tentativa dos democratas de "roubar" a eleição, como fez no Twitter, sem fornecer provas, não deveria ser surpresa, mas ainda assim é enfurecedor.

Em seu discurso às primeiras horas desta quarta-feira, Trump alegou ter vencido inegavelmente em diversos estados que, naquele momento, ainda não haviam apurado suficientes votos para declarar um ganhador. Ele se referiu especificamente a sua dianteira na Pensilvânia, sem mencionar o importantíssimo detalhe de que tipo de cédulas estavam sendo contadas lá.

Muitos dos votos ainda por apurar foram postais, e especialistas partem do princípio que mais eleitores democratas do que republicanos optaram por esse método de votação. Portanto é claro que Trump não quer que eles sejam contados.

Mas isso também significa que os democratas não devem ainda perder as esperanças. Trump pode ter a dianteira em diversos estados ainda em aberto, mas um grande número dos votos ainda não apurados provavelmente será para Biden.

Em outras palavras: embora no momento talvez pareça um deprimente déjà-vu de 2016, nem tudo está perdido. Mas Trump declarar vitória, tachar o processo de contagem de "uma grande fraude" e anunciar que apelará à Suprema Corte demonstra uma gritante desconsideração pela forma como os votos são tabulados no ano de pandemia de 2020.

Muitos americanos liberais torciam por uma vitória bem definida de Biden, e certamente não uma corrida eleitoral tão apertada assim. Afinal de contas, seu candidato concorreu com um presidente que queria impedir os muçulmanos de entrarem nos EUA; que separou filhos de migrantes de seus pais na fronteira sul; que lançou ataques racistas contra congressistas do sexo feminino; que foi objeto de impeachment por tentar negociar verbas militares para a Ucrânia com ajuda contra seu rival político; sob cuja liderança, até agora, mais de 250 mil cidadãos morreram na pandemia de covid-19... A lista é longa.

O fato de um número significativo dos americanos ter votado em Donald Trump, apesar de suas ações nos últimos quatro anos demonstra o que é aceitável nos Estados Unidos. E isso é devastador, não importa quem acabe ocupando a Casa Branca.

*Carla Bleiker é correspondente da DW nos EUA. O texto acima reflete a opinião pessoal da autora, não necessariamente da DW.

Leia mais