Opinião: Chega de paralisia e mesmice na Alemanha | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 04.03.2018
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Alemanha

Opinião: Chega de paralisia e mesmice na Alemanha

Demora na formação de um governo deve servir de alerta: é hora de os partidos voltarem a ouvir os anseios da população e não temerem o confronto de ideias, afirma a editora-chefe da DW, Ines Pohl.

Angela Merkel, Horst Seehofer e Andrea Nahles em Berlim

Merkel ao lado do presidente da CSU, Horst Seehofer, e da presidente indicada do SPD, Andrea Nahles

No fim, tudo correu bem. Com uma clara vantagem de 66% dos votos, os filiados do SPD disseram "sim" a uma nova coalizão de governo com a chanceler federal Angela Merkel. O novo governo deverá estar formado já no fim de março, ainda antes da Páscoa.

Mas o caminho até lá foi difícil. Negociações de coalizão fracassaram. Pesos-pesados da política, como a estrela de brilho efêmero Martin Schulz, ficaram pelo caminho. A chanceler federal estava perto do nocaute, pois simplesmente parecia não conseguir encontrar uma maioria parlamentar no mundo dos muitos pequenos partidos.

Ines Pohl

Ines Pohl é editora-chefe da DW

Para o país, tudo isso era novidade. Desde a fundação da República Federal da Alemanha, em 1949, um dos dois grandes partidos procurava um parceiro para governar, isso quando não podia simplesmente governar sozinho. Isso acabou. Nos últimos 12 anos, a situação ainda era previsível. Angela Merkel era e continuaria sendo chanceler federal. O resto pouco interessava aos demais países do mundo.

A entrada do partido conservador de direita AfD no Parlamento acabou com essa forma cômoda de fazer política. Os grandes partidos são cada vez menores; os pequenos, cada vez maiores. E, com isso, fica cada vez mais complicado formar um governo.

Essa situação difusa reflete o que acontece na sociedade alemã. Os dois grandes partidos, que ostentavam a alcunha de Volksparteien, decepcionaram tão profundamente o seu eleitorado tradicional que este agora vota de forma radical, tanto à esquerda como à direita. Os outrora grandes partidos não têm conceitos políticos para reagir aos temores de muitos alemães, que estão inseguros e inquietos diante da percepção de que o mundo que lhes era tão familiar vai desaparecendo. Esses mesmos partidos não sabem explicar como é possível combinar globalização, integração e identidade. Também no campo da política externa não se sabe que papel a Alemanha vai desempenhar nesse mundo de Trump, Putin e Xi e o que, no fim das contas, significa assumir uma responsabilidade maior na política externa e de segurança da União Europeia.

Estes meses de persistente indefinição podem ter sido o grito de alerta de que a Alemanha urgentemente necessitava. Os políticos devem devolver aos eleitores a sensação de serem ouvidos. Eles precisam mostrar que entenderam que também existe uma agenda que atende aos anseios da população, que se pode ouvi-la sem cair em velhas e perigosas tendências nacionalistas.

Por isso, a nova grande coalizão precisa encontrar um caminho que lhe permita expressar suas divergências internas para que os partidos que a compõe se diferenciem uns dos outros. Somente perfis claros e diferenciados poderão estancar a fuga do eleitorado. Se CDU/CSU e SPD não conseguirem isso, vão desaparecer juntos nas próximas eleições, no mais tardar em 2021. O medo de ser aplaudido pelo lado errado deve ser tão evitado quanto a busca de votos nos setores nacionalistas de direita da AfD. 

Merkel poderá formar um novo governo. O longo caminho até lá é um claro sinal de que é necessário debater o curso político. A entrada da AfD no Bundestag acendeu um debate que dá esperança. O deputado verde Cem Özdemir foi um dos primeiros a mostrar, com um discurso fulminante, como se lida com o ódio e a discriminação. O filho de imigrantes turcos mostrou que amor e orgulho pela pátria alemã não são prerrogativas de um passado nazista, mas uma força que pode ajudar a defender o acordo social de pluralidade e liberdade que forma a Alemanha. Discursos como esses já não se ouviam há tempos.

Agora começa, portanto, a era da briga pelo melhor argumento, e a era da falta de alternativas imposta acabou. É um bom começo depois da fase da paralisia política, que já dura bem mais do que esses quatro meses de formação de governo.

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