Opinião: Alemanha, Anne Frank e os coronacéticos | Notícias internacionais e análises | DW | 24.11.2020

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Opinião

Opinião: Alemanha, Anne Frank e os coronacéticos

Populistas e negadores da pandemia vêm fazendo comparações bizarras e sem base histórica entre as medidas contra o coronavírus e o regime nazista. É preciso resistir desde o início, opina Martin Muno.

Protesto contra medidas de combate à pandemia em Leipzig, no leste da Alemanha

Protesto contra medidas de combate à pandemia em Leipzig, no leste da Alemanha

Na semana passada, vários políticos do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD) chamaram a nova Lei de Proteção contra Infecções do governo alemão de "Lei Habilitante", em referência à lei pela qual, em março de 1933, Adolf Hitler ganhou o direito de legislar com plenos poderes, sem aval do Parlamento.

Ou seja: de forma séria, a AfD comparou os regulamentos que preveem restrições de contato para proteger contra uma pandemia com uma lei que representou o fim da democracia parlamentar e o início da tirania nazista.

A comparação foi condenada unanimemente por historiadores e cientistas políticos como bobagem anistórica, mas teve um efeito motivador sobre coronacéticos: no último fim de semana, eles saíram às ruas em várias cidades alemãs para se manifestarem contra uma suposto atentado à democracia. Os oradores se compararam a Anne Frank (como fez uma menina de 11 anos em Karlsruhe) ou Sophie Scholl (como fez uma menina de 22 anos em Kassel). Suas aparições bizarras atraíram o interesse da mídia mundial.

Deveria ser de compreensão geral que há uma diferença entre ser multado por possíveis violações das medidas contra o coronavírus (e poder tomar medidas legais contra isso) e ser morto por causa de sua origem judaica ou de seu compromisso com a liberdade e a justiça.

Mas os populistas de direita e os radicais que brincam em meio a negadores da pandemia não se importam. Para eles, importa mais outra coisa: a dominação da narrativa e a hegemonia cultural. E isso muitas vezes é mais uma questão de emoções do que de intelecto.

Ao longo da história, o papel da vítima tem sido usado repetidamente por governantes eleitos e ditadores, bem como por oponentes, para legitimar suas ações. A política de extermínio dos nazistas foi justificada com uma conspiração mundial judaica - que, é claro, nunca existiu.

A liderança da Alemanha Oriental chamava suas fronteiras, tomadas por muros e arame farpado, que fizeram dos cidadãos prisioneiros em seu próprio país, de "muro de proteção antifascista". Em outras palavras: os outros nos ameaçam, e nós apenas tentamos nos defender.

A suposta impotência é usada, então, para exercer o poder. Padrões semelhantes de argumentação são usados pelo presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, que luta para se manter no poder, e em Hong Kong pelos líderes da China para manter sua influência.

O atual campeão do papel de vítima, entretanto, está sentado na Casa Branca: Donald Trump. Como presidente dos EUA ele é uma das pessoas mais poderosas do planeta, mas brada diariamente para o mundo, através de seu canal favorito, o Twitter, o quanto está sendo tratado injustamente. Sejam investigações sobre seus impostos não pagos ou possíveis acordos ilegais com governos estrangeiros - em todos os lugares ele suspeita de uma "caça às bruxas". E ele também se sente roubado em sua "vitória eleitoral esmagadora".

Isso é tão ridículo em um nível factual quanto a aparição da jovem de 22 anos que se tornou famosa na Alemanha no último fim de semana como "Jana de Kassel". Mas não se trata da busca pela verdade. Trata-se de manter as pessoas que pensam da mesma maneira e legitimar ações legais e ilegais de protesto. Mesmo que os esforços de Trump para anular a eleição presidencial por meios legais estejam fracassando, dia após dia, o número de seus partidários que acreditam que a eleição foi fraudada está aumentando. Ao fazer isso, ele está habilmente ceifando um dos pilares da democracia.

Na Alemanha, podemos estar felizes pelo fato de a ressonância dos populistas ser muito menor. A razão disso é que existe um entendimento muito mais comum na sociedade sobre o que é verdade e mentira. Mas é ingênuo acreditar que este continuará a ser o caso no futuro. Basta olhar para os EUA e para os livros de história. É por isso que é importante resistir desde o início: opor-se à mistura de verdade e mentira, de perpetrador e vítima.

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Martin Muno é jornalista da DW. O texto acima reflete a opinião pessoal do autor, e não necessariamente da DW.