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AfD aceita sina de partido com pecha de racista

Benjamin Knight Kommentarbild PROVISORISCH
Ben Knight
12 de outubro de 2021

Saída do "moderado" Jörg Meuthen de sua presidência empurra a sigla alemã de ultradireita para onde ela sempre quis estar: junto ao eleitorado mais radical, que não se importa em ser chamado de nazista, opina Ben Knight.

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Homem com boné da AfD
"A AfD joga para um núcleo duro de eleitores que não têm problemas em serem tachados de nazistas"Foto: picture-alliance/dpa/M. Skolimowska

A decisão de Jörg Meuthen de não concorrer novamente à presidência do partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) em dezembro deixou a sigla onde já se sabia que sempre iria terminar: na margem mais à direita da política da Alemanha, presa ainda mais fundo em sua trincheira nacionalista, sem amizades políticas, jogando para um núcleo duro de eleitores que não têm problemas em serem tachados de nazistas pelo resto do mundo político do país.

Meuthen, de 60 anos, costuma ser descrito como um "moderado" na AfD, mas até poucos anos atrás se sentia em casa mesmo nos episódios mais sombrios da legenda: em 2017, defendeu o notório "discurso de Dresden" de Björn Höcke, em que o incendiário mais contundente do partido exigia que a Alemanha fizesse uma virada de 180 graus em sua "cultura de celebração" do Holocausto.

Nem Meuthen hesitou em usar o tipo de retórica grotesca da qual Höcke teria se orgulhado. Em 2018, indo ao Facebook para reclamar de uma academia de ginástica que se recusava a honrar seu contrato de adesão, fez comparações entre essa experiência e o que o povo judeu teve de suportar na Alemanha na década de 1930.

O crime de Meuthen contra o partido que lidera não era exatamente que ele fosse muito "moderado", mas o fato de que ele não defendia até o último suspiro o grupo ultranacionalista Der Flügel (a ala) de Höcke – facção informal do partido, que no ano passado teve de ser formalmente dissolvida após o órgão de inteligência doméstica, o Departamento de Proteção à Constituição da Alemanha (BfV), considerar alguns de seus membros como ameaças à ordem democrática da Alemanha.

A atitude de Meuthen foi mais estratégica do que moral. Enquanto, em 2017, Meuthen ainda descrevia o Der Flügel como "uma parte importante da alma do nosso partido", em 2019 ele estava começando a se distanciar do racismo mais aberto. Em 2020, Meuthen publicamente se dizia preocupado com o fato de o grupo estar custando votos demais ao partido.

Voz das urnas

Agora, após a eleição federal, ele perdeu uma luta pelo poder contra os dois maiores defensores de Höcke, os líderes da bancada parlamentar da AfD, Alice Weidel e Tino Chrupalla, que se sentem fortalecidos pelos resultados nas urnas em setembro: a AfD pode ter perdido votos no geral (caindo nacionalmente para 10,3 % dos votos, em comparação com 12,6% em 2017), mas consolidou sua base no leste da Alemanha, onde ganhou vários assentos diretos no Bundestag e se tornou o partido mais forte nos estados da Saxônia e Turíngia.

A AfD evidentemente decidiu que se contentará com isso: uma parcela sólida de um quarto dos eleitores nos estados do leste do país, que garantirá para sempre a representação do partido no Bundestag. O problema com Meuthen é que ele simplesmente não se encaixa na história que a AfD inventa para seu eleitorado da parte oriental da Alemanha: para eles, ser tachada de racista ajuda a AfD – o insulto serve de confirmação, não de que sejam, de fato, racistas, mas de que a AfD sente a mesma dor que eles e que o resto do espectro político não os compreende.

Os eleitores da AfD se sentem tutelados pelos políticos em Berlim, que continuam querendo impor coisas novas a eles: refugiados, prisões, vacinas, turbinas eólicas. Cada vez que eles ouvem essas palavras, e a palavra nazista, a divisão se aprofunda.

A saída de Meuthen cristaliza a estratégia que a AfD tem buscado desde seu início. A mudança se encaixa no padrão que o partido estabeleceu em seus conflitos internos: o líder fundador Bernd Lucke foi deposto por Frauke Petry, que liderou o partido em sua primeira guinada para a direita em 2015 e foi então deposta por Weidel. O destino de Lucke e Petry, que desapareceram totalmente da relevância política, também confirmará a Weidel e Chrupalla que eles escolheram o caminho certo.

Ainda assim, a AfD já teve ambições maiores do que isso. Houve um tempo, na pré-história de 2013 a 2015, em que a AfD ambicionava criar uma verdadeira coligação de eleitores à direita da União Democrata Cristã (CDU). Seria um partido que poderia aliar neoliberais com nacionalistas e fazer um jogo legítimo pelo poder em uma coalizão de direita. Mas agora a AfD é um pária total – a CDU está atualmente muito preocupada com sua base de classe média para considerar a possibilidade de tal parceria. A AfD não tem mais nada a perder, e nenhum amigo além de seus próprios eleitores.

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Ben Knight é jornalista da DW. O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente da DW.