Opinião: Acusações de fraude eleitoral abalam ordem liberal americana | Cobertura especial sobre as eleições nos Estados Unidos | DW | 05.11.2020

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Opinião

Opinião: Acusações de fraude eleitoral abalam ordem liberal americana

Denúncias de irregularidades em eleições são normalmente associadas a países africanos. Não reconhecimento do resultado eleitoral por Trump caso perca é preocupante, diz a jornalista Mimi Mefo Takambou.

Praticamente todos os aspectos da política externa americana nas últimas décadas, sejam bons ou ruins, foram dominados por dois ideais – o estabelecimento da ordem liberal americana e a promoção de seus valores democráticos.

Os EUA justificaram suas guerras no Vietnã, Iraque, Afeganistão e na Líbia afirmando serem os árbitros dos valores democráticos, que devem promover e proteger em todo o mundo.

Esses mesmos valores democráticos estão agora em jogo nos Estados Unidos. A recusa do presidente Donald Trump ao declarar categoricamente que não reconhece a derrota caso perca levanta uma perspectiva preocupante para o futuro da democracia liberal.

Pensamentos e ações desse tipo certamente são reservados a países da África ou partes do mundo onde os EUA têm afirmado durante décadas estar trabalhando incansavelmente para "ensinar" o que significa ser democrático.

Isso faz lembrar as observações nada lisonjeiras de Trump sobre uma série de países africanos e seus valores. Uma questão de dois pesos e duas medidas. Em 2018, após a violência pós-eleitoral no Zimbábue, a então porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Heather Nauert, fez questão de destacar que as eleições "deram ao país uma oportunidade histórica de ir além das crises políticas e econômicas do passado, rumo a uma profunda mudança democrática".

Questões de possíveis fraudes e violência pós-eleitoral à parte, os EUA parecem seguir outra tendência vista em democracias "menores". Qualquer que seja o resultado da eleição, esta será a primeira vez que alguém com mais de 75 anos ocupará a Casa Branca. Se Biden vencer, ele terá mais de 80 anos de idade quando completar seu primeiro mandato. Muitos líderes africanos se agarraram ao poder em uma idade em que deveriam estar se aposentando como chefes de Estado.

Os EUA podem facilmente entrar em queda livre se as coisas saírem como Trump está prevendo e se ele se recusar admitir a derrota alegando fraude. Mesmo que ele saia vencedor, ainda permanecerá a questão se ele realmente ganhou, por causa da fraude que ele vem pregando constantemente.

Os princípios fundamentais das democracias liberais estão, portanto, sendo severamente desafiados pela forma como foram conduzidas as eleições americanas e suas consequências, independentemente do resultado. Enquanto os africanos ao redor do mundo observam o drama que se desenrola diante de seus olhos, eles se esforçam para entender o que constitui uma verdadeira democracia.

A natureza desta eleição deixa um gosto amargo a mim e meus companheiros africanos.

Mimi Mefo Takambou é jornalista do Serviço para a África da Deutsche Welle.

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