O telejornal nosso de cada dia, no Brasil e na Alemanha | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 06.08.2008
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Brasil

O telejornal nosso de cada dia, no Brasil e na Alemanha

"Boa noite". Essa frase faz parte da noite de milhares de brasileiros. Na Alemanha, no entanto, se ouve um gongo à noite, há 56 anos. Um paralelo entre o mais tradicional telejornal do Brasil e seu equivalente alemão.

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O fundo azul e as fichas sobre a mesa: tipicamente Tagesschau

Um gongo soa todas as noites impreterivelmente às 20 horas na Alemanha. Em seguida uma voz masculina grave anuncia o começo do programa. Segue-se a imagem de um apresentador de expressão séria que saúda o telespectador, emoldurado por um cenário azul discreto. Em suas mãos uma ficha de papel, de onde ele lê os principais acontecimentos do dia revezando habilidosamente o olhar entre a ficha e a câmera.

Uma cena conhecida para qualquer alemão. Afinal o telejornal “a” Tagesschau − já que a palavra Schau (algo como “visão” ou “olhar”) leva em alemão o artigo feminino − acompanha há quase seis décadas a vida de milhares deles, sendo inclusive o telejornal mais antigo entre os países de língua alemã.

O equivalente brasileiro para a Tagesschau é certamente o Jornal Nacional, transmitido pela rede Globo desde 1969 e, portanto, 17 anos depois da primeira transmissão da Tagesschau, em 1952.

Uma noite sem Jornal Nacional é algo tão impensável para nós como uma vida sem futebol ou um dia sem música. A “musiquinha do começo” nos é tão familiar quanto a melodia do Hino Nacional, e os rostos e biografias dos apresentadores nos são tão conhecidos como os de nossos melhores amigos.

Neste sentido, brasileiros e alemães são muito parecidos. Finalmente uma semelhança que extrapola a paixão pelo futebol e pela cerveja. Amantes de Cid Moreira − o Karl-Heinz Köpcke brasileiro − e de Karl-Heinz Köpcke− o Cid Moreira alemão−, uni-vos!

Sempre às 20hs, sempre 15 minutos

Uma das peculiaridades da Tagesschau é, além de começar pontualmente às 20 horas, durar cronometrados 15 minutos. Nem mais, nem menos. Não importa o quão tumultuado tenha sido o dia ao redor do mundo nem quem tenha morrido ou nascido. Informações mais detalhadas serão dadas por outros noticiários da própria emissora, a ARD.

A certeza dos 15 minutos de duração do telejornal é até mesmo usada na educação das crianças alemãs. “Depois da Tagesschau” é hora de ir para a cama, sabem muitas delas. Há pessoas que até hoje consideram de mau tom telefonar para uma residência entre 20h00 e 20h15, para não incomodar ninguém “na hora da Tagesschau”.

No Brasil o quadro é um pouco diferente. Quando é que o Jornal Nacional vai ao ar? Ninguém sabe exatamente. Sempre entre a novela das sete e a novela das oito, isto com certeza. Mas quando é mesmo que começa a novela das oito? Há anos não mais às 20 horas. Consequentemente já houve incontáveis alterações no horário do Jornal Nacional, assim como na sua duração e no formato do programa, mudanças essas explicadas pela emissora como “garantia na agilidade”.

O Jornal também está à mercê dos acontecimentos: se há algum evento esportivo importante à noite, então ouvimos o “boa noite” de despedida do apresentador um pouco mais cedo. Se morre alguém de destaque, o noticiário é mais longo, roubando preciosos 15, às vezes 20 minutos da novela das oito, que mais uma vez não começará às oito.

Sem teleprompter

Mais uma peculiaridade da Tagesschau é repudiar categoricamente o uso do teletrompter, aquele aparelho que, acoplado à câmera, permite ao apresentador ler o texto sem ter que baixar os olhos. No Brasil as arcaicas fichas de papel já foram abolidas há tempos. Na Alemanha também. Mas não na Tagesschau.

Miss Tagesschau Dagmar Berghoff wird 60

Dagmar Berghoff, primeira mulher a apresentar a Tagesschau: leitura das fichas invoca confiabilidade

As razões para essa “parada no tempo” podem ser muitas. Para a ex-apresentadora Dagmar Berghoff − a primeira mulher a apresentar a Tagesschau, no ano de 1976 (função de Valéria Monteiro, em 1992, no Jornal Nacional) − a leitura das fichas de papel invoca confiabilidade no telespectador, além de criar um elo de identidade entre ele e o apresentador.

As fichas de papel seriam uma maneira de mostrar ao telespectador que o apresentador não é um super-homem ou uma supermulher, mas sim alguém também passível de erros, como os antológicos que os muitos apresentadores da Tagesschau já cometeram ao longo dos muitos anos e cometem ainda.

Uma possível segunda razão seria a importância dada pelos alemães à palavra escrita. Diferentemente de nós brasileiros, os alemães dão extrema importância a tudo o que possa ser lido. Não à toa proliferam na história do país grandes nomes da literatura mundial. Talvez valha o princípio: o que eu leio é verdadeiro. E o que eu não leio, mas vejo alguém lendo, é crível.

O que diriam os atuais apresentadores do Jornal Nacional se tivessem que voltar a ler as notícias das fichas de papel? Provavelmente nada, ficariam atônitos com a pergunta. Será que isso quer dizer que somos mais modernos do que os alemães? Não, acho que tem a ver com outra coisa.

Bom, imagine que o teleprompter tenha um problema, não funcione. O que faz o apresentador então? Improvisa. Dá um jeito e segue em frente. E essa arte, o brasileiro domina como ninguém.

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