O que os Jogos Olímpicos da Antuérpia 1920 podem ensinar aos de Tóquio 2021? | Siga a cobertura dos principais eventos esportivos mundiais | DW | 23.05.2021

Conheça a nova DW

Dê uma olhada exclusiva na versão beta da nova DW. Sua opinião nos ajudará a torná-la ainda melhor.

  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages
Publicidade

Entrevista

O que os Jogos Olímpicos da Antuérpia 1920 podem ensinar aos de Tóquio 2021?

A dois meses do começo dos Jogos, pesquisador Bram Constandt compara edição da Bélgica, em meio à pandemia da gripe espanhola, com a do Japão, que se prepara para receber o evento durante a crise do coronavírus.

Imagem em preto e branco mostra cerimônia de abertura dos Jogos da Antuérpia. É possível ver no estádio a bandeira olímpica.

Jogos da Antuérpia também ficaram marcados por serem os primeiros a usar a bandeira olímpica, com os cinco arcos

Um século separa as pandemias da gripe espanhola e do coronavírus. Junto ao luto e ao sentimento de impotência ante enfermidades devastadoras, há o que podem ser chamados de "jogos pandêmicos", os únicos da era olímpica moderna até hoje.

Em 1920, a Antuérpia sediou uma edição que, além da tentativa de renascimento social por meio da união dos povos e o aparecimento de símbolos como a bandeira olímpica, ficou marcada por uma chuva de críticas e baixa adesão de público. Agora, daqui a exatos dois meses, no dia 23 de julho, Tóquio inaugura os primeiros Jogos Olímpicos da história adiados por uma pandemia.

Para o pesquisador belga Dr. Bram Constandt, há algumas compatibilidades entre os dois eventos. No ano passado, em conjunto com a Prof. Annick Willem, ambos da Universidade de Ghent, na Bélgica, ele escreveu o artigo intitulado "Sediando as Olimpíadas em Tempos de Pandemia: Perspectivas Históricas de Antuérpia 1920", no qual traça paralelos entre os Jogos Olímpicos de 1920 e 2021.

Nesta entrevista, ele comenta sobre a crise que vive o movimento olímpico, a dificuldade que Tóquio deve ter para passar uma mensagem de união entre nações e compara ambas as edições dos Jogos. 

"A situação é diferente, mas algumas discussões públicas retornam e são semelhantes", afirma.

DW Brasil: O esporte e os Jogos Olímpicos geralmente representam a unidade, a identidade e a conexão dos povos. Como Tóquio pode agir especialmente quanto ao luto da atual pandemia?

Bram Constandt: O artigo foi escrito em 2020, após o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio. O mundo agora parece um pouco diferente em relação ao ano passado. Por isso, acho que será difícil obter sucesso em termos de união, pois as pessoas estão cada vez mais céticas sobre o evento.

Há críticas quanto a se devemos levar milhares de pessoas ao Japão com a pandemia ainda em curso. A maioria do povo japonês é contra. Eles [organizadores] terão de ser muito cuidadosos quanto às mensagens que transmitirão. Será uma tarefa difícil para o comitê organizador local e para o Comitê Olímpico Internacional (COI) mostrar realmente de forma convincente que eles tentam unir as pessoas por meio dos Jogos Olímpicos.

Estima-se que a gripe espanhola infectou cerca de 500 milhões e matou em torno de 50 milhões de pessoas. Além disso, ela foi precedida pela Primeira Guerra Mundial, que deixou cerca de 40 milhões de mortos. Os números são muito superiores à atual crise do coronavírus. Até que ponto é realmente possível comparar Antuérpia 1920 e Tóquio 2021?

Há alguns pontos em comum, como a necessidade de administrar incertezas, os planos mudaram muito. Antuérpia foi escolhida para sediar os Jogos em abril de 1919. Teve apenas 12 meses [para organizar]. Tóquio teve inicialmente oito anos, mas subitamente precisou adiar. Então, sobrou apenas um ano para mudar e organizar as coisas, e para lidar com as incertezas: as pessoas serão vacinadas até o verão de 2021? Teremos medicação oficial? Todos os indicadores serão permitidos? 

Outro ponto em comum é a pressão sobre o movimento olímpico. Em 1920, o COI foi criticado por ser pouco inclusivo em relação às mulheres e à classe trabalhadora. Agora, temos muitas críticas sobre a falta de sustentabilidade, o gigantismo, os excessos de custos.

Há também um longo período sem Jogos: as Olimpíadas anteriores [antes de Antuérpia 1920], planejadas para Berlim 1916, foram canceladas [devido à primeira guerra mundial], então havia oito anos entre Estocolmo 1912 e Antuérpia 1920. Agora, há cinco anos entre Rio 2016 e Tóquio 2021, o que torna difícil para o movimento olímpico manter sua relevância.

E há também um último ponto em comum, creio eu, em termos de resistência. Em 1920, houve muita resistência, crítica pública, por exemplo, no Reino Unido, pelo uso de fundos públicos para um megaevento esportivo em tempos em que esse dinheiro poderia ser usado para outros fins em uma sociedade em busca de recuperação.

Houve um sentimento geral de antipatia em relação ao movimento olímpico devido a esse fato. E agora se vê o mesmo em alguns países, especialmente no Japão, onde as pessoas estão reagindo contra a dedicação de bilhões de dólares ou euros e tempo que talvez pudessem ser utilizados para melhores propósitos. 

Quais foram os maiores símbolos de Antuérpia 1920 e quais podem ser os maiores de Tóquio? 

Antuérpia 1920 é muito conhecida por ser a primeira olimpíada depois da primeira guerra, mas também por introduzir uma série de símbolos olímpicos importantes que ainda hoje são conhecidos. O primeiro foi a bandeira olímpica com os cinco anéis unindo os cinco continentes. 

Um segundo símbolo foi a soltura de pombos por soldados para transmitir uma mensagem de paz. Eles também pediram a um atleta que fizesse um juramento olímpico para convencer o povo de que os atletas iriam competir de acordo com os valores olímpicos. Muitos desses símbolos ainda existem. Eles não soltam mais pombos, porque em Seul 1988 eles voaram para as chamas da tocha olímpica. Mas os outros dois símbolos ainda estão muito presentes.

Eu acho que, se Tóquio quer transmitir uma mensagem semelhante de paz, solidariedade e unidade, deveria olhar para alguns símbolos que já existem. 

Você espera protestos marcantes de atletas sobre a forma como alguns países, como o Brasil, têm lidado com a pandemia?

Como o COI quer manter a política fora dos Jogos, acho que não será possível trazer tal mensagem, especialmente porque a entidade é muito rigorosa. A regra 50 da Carta Olímpica estabelece que ninguém está autorizado a fazer declarações políticas.

Portanto, embora algumas pessoas possam estar dispostas a trazer à tona certas declarações, tanto em termos de pandemia como também do movimento Black Lives Matter e outras questões políticas e sociais, elas serão fortemente limitadas pelas regras do COI.

A história das Olimpíadas mostra que protestos e questões sérias ocorreram em outros anos. A principal diferença desta vez seria que, além dos tempos de guerra de cem anos atrás, uma Olimpíada nunca havia sido adiada antes? Quão forte é esta mensagem para a comunidade olímpica e para a sociedade mundial?

Após o ataque terrorista de Munique, o então presidente do COI, Brundage [Avery Brundage presidiu a entidade de 1952 a 1972], disse que "os jogos devem continuar", e esse tem sido o principal lema do COI em termos de organização, já que houve também outras crises, como a Guerra Fria.

No ano passado, houve o adiamento. O cancelamento não era uma opção porque o risco era muito alto. Os bilhões já investidos nos Jogos não permitem facilmente o cancelamento. O Japão não pode cancelar o evento, somente o COI pode, caso contrário o Japão tem que pagar pelas perdas comerciais.

Acho que vemos que a comercialização dos movimentos olímpicos está levando a uma situação em que os Jogos se tornaram tão grandes que um cancelamento é muito improvável - e até mesmo o adiamento foi algo que muito provavelmente não veremos de novo facilmente. 

Antuérpia 1920 teve baixa adesão de público. Tóquio não terá presença estrangeira nas arquibancadas. Como isso pode influenciar o desempenho dos atletas?

Este é mesmo um ponto comum interessante. Antuérpia 1920 tinha poucos espectadores porque os preços das entradas eram altos e as pessoas na Bélgica não tinham condições de comprar ingressos. O tempo estava ruim, o que também afetou.

Mas, de fato, Tóquio 2021 terá apenas residentes japoneses, e acho que as tribunas vazias dos estádios têm um certo impacto no desempenho dos atletas e em como eles percebem o ambiente em que atuam, embora isso não seja mais novidade. Eles já estão acostumados a competir sem público desde março ou abril de 2020. Acho que não haverá mais um impacto desse elemento em suas performances.

Você acredita que tanto a humanidade quanto os organizadores estarão mais conscientes ou mais preparados para outros possíveis Jogos pandêmicos? 

Penso que todos nós aprendemos muito no último ano sobre como um vírus pode ter um impacto tão grande em nossas vidas. E continuamos aprendendo cada dia um pouco mais sobre como ele funciona e como pode ser enfrentado de forma eficaz. Certamente, haverá lições que poderão ser transferidas para edições em tempos de pandemia novamente. É pouco provável que nunca mais sejamos confrontados com uma pandemia. Tudo o que aprendemos também poderá ser usado no futuro.

Você acha que Tóquio pode ser apenas uma "Olimpíada transitória" para o "renascimento real" que pode ocorrer apenas em Paris 2024?

Isso dependerá, em grande parte, de como será a sociedade e a pandemia dentro de alguns anos. Algumas fontes dizem que teremos que lidar com a covid-19 pelo menos até 2025 antes que a doença se transforme em uma versão menos fatal.

Portanto, sim, Paris será muito provavelmente organizada em uma sociedade menos impactada pela covid-19, e poderá apresentar uma situação mais "normal"... "Normal", significando, assim, semelhante em comparação com antes da pandemia de covid-19. Mas nada é certo neste momento.