O que é pior para a economia: coronavírus ou crise global de 2008? | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 18.03.2020
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Economia

O que é pior para a economia: coronavírus ou crise global de 2008?

Os efeitos da paralisação econômica pela pandemia de covid-19 são comparados à crise financeira global. Em setores como o aeroviário, os estragos já são consideráveis, mas para outros as perspectivas são mais otimistas.

Japan Tokio Kursrückgänge an den Börsen (picture-alliance/Jiji Press/M. Taguchi)

O choque do coronavírus não poderia ter chegado em momento pior para o comércio global, comprometido pelas tensões comerciais entre EUA e China

A reviravolta causada pelo surto da covid-19 reaviva lembranças da crise financeira global de 2008-09, com papos de recessão, carnificina nos mercados globais de ações, governos e bancos centrais afrouxando os cintos.

A pandemia, que tem acabado com milhares de vidas por todos os continentes, praticamente paralisou a economia mundial, com milhões em quarentena e as cadeias de suprimento globais em estado de caos, devido aos estragos extremos causados pelo vírus na China, a fábrica do mundo.

Embora muitos já estejam comparando a crise atual à recessão de 2008-09, a maior parte dos analistas não aceita que o quadro seja tão desolador, e prediz que a economia global se recuperará rapidamente na segunda metade de 2020, contanto que até então o surto tenha se dissipado.

A DW consultou especialistas para compararem o dano econômico causado pelas duas crises.

Linhas aéreas: algumas não sobreviverão

Assediado pela competição ferrenha, guerras de preços e debilitação financeira, o setor de aviação foi o mais castigado pela pandemia, que praticamente estagnou as viagens aéreas e ameaça fazer falir a maioria das companhias.

Em memorando aos funcionários, o diretor executivo da British Airways, Alex Cruz, descreveu a situação como uma "crise de proporções globais como jamais vimos": "Alguns de nós trabalhávamos na aviação durante a crise financeira global, o surto de SARS e o 11 de Setembro [de 2001]. O que acontece neste momento, em decorrência da covid-19, é mais sério do que qualquer um desses eventos."

Diversas empresas importantes do setor estão buscando apoio estatal para atravessar a atual turbulência. "Quando vemos linhas aéreas bem capitalizadas como a Lufthansa darem declarações sobre a necessidade de apoio estatal, sabemos que as coisas devem estar mal", comentou à DW Rob Morris, diretor global de consultoria da Ascend by Cirium.

"Claramente, para todas as linhas aéreas, em âmbito global, o objetivo de 2020 será sobreviver essa crise. Temo que muitas não o conseguirão, e com quase certeza começaremos a ver algumas falências significativas."

Setor petroleiro se prepara para o pior

A coisa não vai melhor para os mercados de petróleo: espera-se que o consumo global da matéria-prima fóssil vá sofrer a maior queda da história, abalado pela interdição temporária de voos, fechamentos de fábricas e outras medidas de contenção do novo coronavírus.

Segundo a empresa de mídia Bloomberg, a redução da demanda poderá facilmente superar os quase 1 milhão de barris diários perdidos durante a recessão de 2008-09. Para agravar, está em curso uma guerra de preços lançada pela Arábia Saudita, que prometeu inundar com seu óleo cru um mercado já saturado. Os preços do produto já caíram mais de 50% em 2020.

"Em 2008-09, tivemos um choque de demanda, e os inventários cresceram. É provável que esta [crise atual] tenha um impacto maior, em parte porque ainda há muita incerteza, e em parte por ser uma questão tanto de demanda quando de oferta", explica Philip Jones-Lux, analista do mercado de energia da JBC Energy.

"O setor está supostamente se preparando para um quadro de 'menos para durar mais', mas o atual mercado e as perspectivas vão além de tudo para que pudéssemos estar razoavelmente preparados, e é provável que vamos ver danos reais se os preços permanecerem na faixa dos 30 dólares por barril."

Mais regulamentação no setor financeiro

O mercado de imóveis, inflado pelos empréstimos baratos oferecidos pelos bancos a futuros proprietários privados, foi o epicentro da crise de 2008-09. O estouro das bolhas imobiliárias nos Estados Unidos e outros países, como o Reino Unido, Espanha e Irlanda, fez cambalear grandes bancos globais que não dispunham de suficiente capital para resistir ao choque.

Entre outros fatores, as instituições bancárias pagaram o preço de empacotar hipotecas subprime em derivados complexos, opacos, a fim de maximizar seus lucros. Desta vez os bancos estão numa posição muito melhor, graças à regulamentação intensificada.

"A crise de 2008-09 foi muito mais severa porque o sistema financeiro global era muito mais frágil. Os bancos não estavam tão bem capitalizados como hoje, em particular nos EUA", explica Sara Johnson, diretora executiva da IHS Markit. "Embora hoje haja apreensões com o crescente débito corporativo não financeiro, eu diria que a magnitude não é tão severa quanto na época."

Ainda assim, os bancos estão sob pressão, sobretudo os europeus, que vêm lutando para aumentar seus lucros num clima de juros ultrabaixos, e vão se preparando para novos cortes de juros e calotes de empréstimos.

Especialistas vêm igualmente alertando contra uma possível inadimplência da dívida soberana da Itália, que está em estado de emergência para conter o alastramento do coronavírus. Segundo a Bloomberg, os bancos europeus detêm mais de 446 bilhões de euros de débitos italianos públicos e privados.

Economia global aposta em recuperação do consumo

A falência da firma global de serviços financeiros Lehman Brothers em 2008 acarretou o mais doloroso colapso econômico global desde o crash de Wall Street em 1929. A grave e continuada recessão reduziu o crescimento mundial em 1,8% em 2009, em contraste com a expansão de 4,3% em 2007.

Milhões de vagas de trabalho se perderam, restringindo o consumo global. Embora, a julgar por estimativas americanas, a atual crise possa custar à economia global até 2 trilhões de dólares no ano corrente, não se prevê que vá precipitar o mundo numa depressão.

Na visão de Ben May, diretor de macropesquisa global da Oxford Economics, trata-se mais de um "choque temporário, com impactos negativos menos significativos e duradouros para a economia do que a crise financeira global".

"Não é o caso de, se você não sair hoje para não pegar o vírus, esse dinheiro ficar guardado para sempre. É mais provável que seja gasto no futuro, a menos que algo mude dramaticamente", explica. Com base em episódios passados de surtos de enfermidades ou de desastres naturais, sabe-se que "tipicamente, os gastos opcionais retornam num momento futuro".

Má hora para o comércio internacional

O choque do coronavírus não poderia ter chegado em momento pior para o comércio global, comprometido pelas tensões comerciais entre as maiores economias do mundo, EUA e China. Porém o atual golpe ainda não é tão devastador quanto o causado pela crise de uma década atrás.

"A crise financeira global era, de certo modo, endógena ao sistema econômico, ou seja, havia uma forte distorção do acúmulo de capital em alguns países, assim como um problema de super-endividamento", analisa Stefan Kooths, diretor de previsões do Instituto de Economia Mundial da Universidade de Kiel, na Alemanha.

"É muito mais difícil curar essas duas raízes da crise do que a situação atravessada hoje, quando temos uma interrupção de estruturas de produção que, em princípio, são fundamentalmente sadias." E conclui: "Mesmo que a crise do coronavírus resulte numa implosão profunda, em termos de produção, as chances de sair desta recessão mais cedo do que mais tarde são muito melhores do que na crise econômica global."

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